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14/11/03

Brazil

Os sinais estão aí para quem quiser ver


A diretoria do Cruzeiro anunciou essa semana que deve fechar o ano de 2003 com saldo negativo nas finanças. Isso não é pouca coisa, afinal, R$ 12 milhões não é uma quantia dessas que se paga com um vale refeição e ainda sobra contra-vale para o dia seguinte. E esse ainda foi um ano feliz para o Cruzeiro, campeão mineiro, da Copa de Brasil e (quase) do Brasileirão. Imaginem se os azuis só tivessem colecionado derrotas. Fica claro que o modelo econômico de nosso futebol precisa mudar, e isso é independente das razões do déficit cruzeirense.

Hoje, os clubes têm como receitas principais os direitos de televisionamento dos jogos e quando possível, a venda de jogadores. A bilheteria, por mais vazios que estejam os estádios, também é importante. Em tese, não é muito diferente do que ocorre nos países europeus, por mais que a venda de produtos licenciados seja mais significativa por lá. Tanto que espanhóis, alemães, italianos e ingleses também enfrentam dificuldades financeiras.

Então, dá para dizer que a crise é mundial e prejuízos como o do Cruzeiro não são casos isolados? Sim, mas não tão rápido. Antes de tudo é importante considerar que análises desse tipo não podem se limitar a comparar faturamento e gastos operacionais. E é nisso que os clubes europeus ainda se mostram à frente dos nossos.

Se financeiramente o futebol do Velho Continente não esbanja saúde, ainda há uma solidez um pouco maior. Há uma horda de dirigentes incompetentes, mas a média é muito acima da brasileira. Assim, há mais margem de manobra de recursos, o suficiente para uma recuperação caso essa crise futebolístico-econômica termine. Por exemplo, a TV reduziu seus recursos, mas não há dependência de apenas uma emissora, como no Brasil. Isso, no mínimo, dá mais segurança para futuras negociações.

Dessa maneira, o futebol brasileiro precisa, sobretudo, repensar seu modelo econômico, criando novas fontes de renda como o licenciamento de produtos e esquemas como o de sócio-torcedores. Além disso, é fundamental incrementar e dar segurança aos recursos já existentes, com promoções que garanta um público mínimo nos estádios e dê mais argumentos aos clubes no momento de discutir os diretos de transmissão com a TV. Porém, muito pouco de efetivo existe, o caso do Cruzeiro (que até tem uma administração acima da baixíssima média nacional) é uma mostra.

Nunca houve tantas condições para que isso ocorra. A manutenção da fórmula de pontos corridos dá mais previsibilidade para o futebol brasileiro, o que dá condições de administradores competentes agirem. O Estatuto do Torcedor também colabora, ao permitir um maior controle (no sentido positivo da palavra) das coisas que envolvem o futebol brasileiro. Tanto que não são poucos os clubes que adotam políticas de moldar sua folha salarial às receitas. Algo que sempre foi óbvio para um cidadão normal, mas era ignorado pelos clubes de futebol há pouco tempo.

O problema é que, quando já começamos a achar que as coisas já estão melhorando, o Vasco reelege Eurico Miranda. Parece que muita gente em São Januário não conseguiu (ou não quis) ver os sinais mais que claros de que são necessárias mudanças. Esperemos que outros clubes o façam.

*

Ah, vão dizer que a Fiorentina original faliu e outros clubes europeus podem ir pelo mesmo caminho, enquanto que, no Brasil, os grandes continuam aí. É verdade. Mas isso não se deve ao modelo administrativo de nosso futebol, mas à permissividade da justiça brasileira.

*

O Cruzeiro também anunciou que já planeja a temporada 2004. E é importante ver qual o efeito desse prejuízo estimado de R$ 12 milhões. Alex não é preso ao clube. Especula-se que Aristizábal já teria recebido sondagens árabes. São dois salários altos que poderiam aliviar o caixa na Toca da Raposa, mas a saída de qualquer um dos dois – sem a devida reposição – reduz as chances mineiras de um terceiro título da Libertadores.

Ubiratan Leal

Imagem: César Trópia / Cruzeiro

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