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26/11/03

Cultura & Mídia

O Rio corre para o Maracanã

O que você sabe sobre a Copa de 50? Sob que circunstâncias o Brasil chegou até o jogo decisivo contra o Uruguai dependendo de apenas um empate? E como, jogando diante de um recém-construído Maracanã, a seleção perdeu para os rivais cisplatinos? Perguntas comuns e de resposta aparentemente fácil. No entanto, é de se considerar que quase tudo o que se diz é baseado na memória, um ser seletivo e traiçoeiro em muitos casos. E por isso “O Rio corre para o Maracanã” deve ser visto como livro de referência nesse assunto.

Não é difícil entender o porquê de tantos mitos ficarem em volta daquela Copa do Mundo. Foi a única a ser disputada no Brasil e o time da casa, ainda dono de um complexo de inferioridade injustificado, perdeu de virada na final que jogava por um empate. Tudo isso diante do que se considera extra-oficialmente o maior público da história do futebol. Se fosse nos Estados Unidos, já haveria, no mínimo, uns 40 filmes sobre o caso, com diversos partidarismos e abordagens. E pelo menos uma dessas produções seria daquelas que levam uns 4 Oscars.

Bem, voltando ao Brasil traumatizado daqueles idos, a saída, até como busca de um consolo inexistente, foi de procurar justificativas, desculpas, culpados e, sobretudo, mitos. Foi assim que se contruiu boa parte dos fatos referentes àquele Mundial. Claro que não era má intenção das pessoas da época, até porque o conceito de objetividade era muito diferente há mais de 50 anos, e isso deve ser respeitado.

De qualquer forma, “verdades” como o tapa de Obdulio Varela em Bigode, a falha de Barbosa e o silêncio premonitório da torcida com o empate uruguaio ficaram por muito tempo. Agora, há um movimento de resgate dos fatos que rondaram aquele jogo, aquele mês de julho de 1950. É uma forma de resgatarmos um momento histórico sem o complexo de inferioridade e com traumas menos expostos. E, nesse sentido, “O Rio corre para o Maracanã” se destaca.

A maneira como o livro surgiu é de importância fundamental nessa diferenciação. Inicialmente, o trabalho era a tese de mestrado da historiadora Gisella de Araújo Moura. Por isso, o fato histórico (com suas causas e conseqüências) é mais importante que dar satisfação a alguém. Como fontes fundamentais (e muitas vezes esquecidas, ironicamente, pelos jornalistas) aparecem os jornais e revistas da época, publicados antes da criação dos mitos. Aliás, um ponto interessante nessa obra é que mostra como algumas dessas “verdades” surgiram.

O melhor é que o livro não trata apenas do Brasil x Uruguai decisivo, mas de toda a Copa do Mundo, com um enfoque maior – como o nome indica – na forma como aqueles fatos influíam no dia-a-dia da então capital federal. Essa perspectiva abre espaço para o reaparecimento de histórias esquecidas, como o temor dos brasileiros pelos superpoderosos ingleses, a dificuldade do jogo contra a Iugoslávia, a forma gradual como todo o otimismo cresceu, a correria por ingressos antes de cada partida, os incentivos dos torcedores no momento em que o título escapava e até os aplausos para os campeões uruguaios.

Claro, os fatos já conhecidos, como a transferência da concentração às vésperas da final para atender a demandas políticas e a carga de responsabilidade fora do comum jogada nas costas dos jogadores não foram esquecidos. Mas isso só ajuda a compor o cenário todo, de uma cidade e um país vivendo em função de um campeonato de futebol.

Como conclusão, é possível dizer que, depois de ler “O Rio corre para o Maracanã”, a resposta para as três perguntas do primeiro parágrafo mudem ao menos um pouco. Não que a nova resposta seja a verdade absoluta, mas, ao menos, conta com mais base argumentativa. E é assim que, aos poucos, o Brasil vai reinterpretar o papel do acontecimento mais importante da história de seu futebol.

Mais informações
“O Rio corre para o Maracanã” foi publicado pouco antes do início da Copa de 1998 pela editora da Fundação Getúlio Vargas carioca e tem 147 páginas.

Ubiratan Leal

Imagem: Siciliano

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