Ah, Paris. São tantos adjetivos possíveis que descrevem as belezas ou particularidades do estilo de vida da capital francesa que é difícil escolher. Museus, igrejas, bistrôs, a Torre Eiffel, ruas, parques, cafés, a comida, o metrô... tudo parece ótimo. E é. Mas, se você for daqueles que quer ver algum problema em tudo, aí vai um: o futebol, ou melhor, a falta de futebol. Por diversas razões, os clubes parisienses não conseguem se estabelecer entre os grandes do futebol francês, o que é desproporcional à importância política e econômica da cidade no 5º país mais rico do mundo.
É curioso, pois o fenômeno é isolado. Todas as ligas mais tradicionais do mundo contam com protagonistas na capital nacional. Madri (Real e Atlético), Roma (Roma e Lazio), Londres (Arsenal, Chelsea e Tottenham), Buenos Aires (Boca Juniors, River Plate e uma dezena de outros clubes), Lisboa (com Benfica e Sporting), Amsterdã (Ajax), Bruxelas (Anderlecht), Moscou (Lokomotiv, Spartak, CSKA e Dynamo), Cidade do México (América, Cruz Azul, Atlante e Necaxa), Montevidéu (Peñarol e Nacional) e Atenas (Panathinaikos e AEK) são os casos mais claros. Na Turquia e na Escócia, a capital política (Ancara e Edimburgo, respectivamente) é ofuscada pelo poder econômico de outra cidade (Istambul e Glasgow). O que não deixa de ter alguma lógica.
Na realidade, a única capital que pode ser comparada a Paris em sua representatividade futebolística é Berlim. Mas a cidade alemã tem a desculpa mais que válida que a divisão política abalou a estrutura do futebol local, dividido em vários clubes (Hertha, Union, Tennis Borussia e Tasmannia do lado ocidental, Dynamo e Vorwärts do lado oriental). Paris, no máximo, padeceu com a invasão alemã durante a Segunda Guerra Mundial.
Hoje, os únicos argumentos relevantes do parisiense são o Paris Saint-Germain e o Stade de France. E são meio duvidosos, já que o primeiro não se estabelece em definitivo entre os grandes e o segundo ainda não conseguiu um usuário permanente. Mas antes do presente, voltaremos aos primórdios do futebol na terra do Daft Punk e de Gérard Depardieu.

No final do século XIX e início do XX, o futebol ganhava popularidade da Paris da belle époque. E, claro, diversos clubes surgiram ou abriram espaço para a prática desse esporte. Muitos desses fizeram história no período amador, mas não resistiram ao profissionalismo, implantado em 1932. São os casos de Cercle Athlétique de Paris, o Club Français, o CASG, a Etoile des Deux Lacs, o Olympique Pantin (depois Olympique Paris), o Standard e o Union Suisse. Ainda assim, três equipes sobreviveram a essa transição e continuaram na elite: o Red Star (foto), fundado por Jules Rimet, o Racing Paris, dono do estádio Colombes, sede da final da Copa de 38, e o Stade Français, instalado no Parc des Princes.
O período de maior representatividade do futebol parisiense se deu justamente na segunda metade dos anos 40, quando esses 3 protagonizavam diversos clássicos locais. Mas a falta de vocação de Paris para abrigar clubes de futebol começava a ficar clara. Clubes do interior como Nice, Marseille, Bordeaux, Reims e Lille ficavam com a maioria dos títulos.

E, de coadjuvantes na Primeira Divisão, os clubes parisienses passaram a integrantes da Segunda. O primeiro a cair foi o Red Star, em 1948. Depois foi o Racing, em 1964. Ainda assim, esses dois times iniciavam uma gangorra que duraria até os anos 80. Com o Stade Français foi diferente. A equipe do Parc des Princes agüentou até 66. Porém, sua queda foi decisiva para, pouco tempo depois, o clube abandonar o futebol (hoje possui uma das principais equipes de rúgbi da França). Até voltou nos anos 80, mas não achou seu espaço e voltou ao amadorismo.
No final dos anos 60 já ficava claro que Paris precisava de fôlego novo o futebol. Com apoio da prefeitura, o Stade Saint-Germain aceitou mudar de nome para Paris Saint-Germain em 1970, assumindo o papel de representante principal do futebol parisiense. O início é bom, com uma ascensão direta à Primeira Divisão. No entanto, alguns dirigentes queriam ficar apenas com o "Paris" no nome. Há uma cisão: a equipe profissional passa a se chamar Paris Football Club, enquanto o restante do clube tenta se reestruturar na Terceira Divisão como Paris Saint-Germain.
O curioso é que o novo PSG se mostra bastante forte e, em dois anos, já está na elite. Enquanto isso, o Paris FC (o velho PSG) não se estabelece e já anda pela Segundona. A prefeitura passa a apoiar o novo PSG, que consegue se manter entre os principais clubes da França. Desde então, os dérbis locais são bissextos, dependendo de uma boa fase do Red Star, do Paris FC ou do Racing.

Assim foi até 1984, quando o Racing começou a se reestruturar. Os alvi-celestes caíram logo em 85, mas voltaram em 86 com boas perspectivas. O clube contratou estrelas como Fernandez, Francescoli, Rubén Paz, Bossis e Littbarski. Foi um fiasco e o time conseguiu, a duras penas, garantir a 13ª posição.
Ainda assim, os parisienses teriam motivos para pensar que acquele seria o momento em que, finalmente, a cidade se estabeleceria no topo do futebol francês. Por mais que o Racing tenha passeado por divisões inferiores por décadas, ainda era o clube mais popular de Paris. Até porque, pela forma como surgiu, o PSG sempre foi visto com uma certa desconfiança, como um clube artificial.
Um fato que se mostraria decisivo na trajetória do Racing ocorre em 1987. A Matra, empresa ligada ao setor automobilístico, comprou o clube de Colombes e montou uma equipe forte. E, dessa vez, os resultados apareceram. O Matra Racing (novo nome) manteve um ritmo forte no campeonato, seguindo de perto o líder Monaco por quase todo o torneio. Mas, nas últimas rodadas, a equipe entrou em má fase e acabou perdendo, inclusive, um lugar em competições européias.
Parecia que um investidor como a Matra (que, inclusive, foi a única equipe fora do eixo Alemanha-Itália-Inglaterra a conquistar um Mundial de Fórmula-1, em 1969 com Jackie Stewart) era o que faltava para o Racing, juntamente com o PSG, comporem a dupla de grandes rivais que toda cidade importante tem (e a população e o gosto do parisiense pelo esporte comportam dois times grandes tranqüilamente). Ledo engano. O Matra Racing começou de forma extremamente instável a temporada 88-89, com ameaça de rebaixamento. A Matra resolvou abandonar o clube, que se viu diante de contas enormes a pagar e suporte financeiro mínimo.

No campeonato seguinte, o Racing praticamente não tinha dinheiro. Tentou uma fusão com o Lens, mas acabou disputando o campeonato com equipe própria, uma soma de remanescentes da época da Matra, como Olmeta, Bouderbala e Ginola, com uma série de jovens formados no próprio clube. O treinador era Henri Kasperczak. O trabalho é louvável, mas não o suficiente para evitar o rebaixamento na penúltima rodada, contra o Monaco (foto). Pior, devido às precárias condições financeiras, o Racing é punido com novo rebaixamento, indo direto da Primeira para a Terceira Divisão.
Desde então, o Paris Saint-Germain ficou como único representante de relevância do futebol parisiense. O isolamento é enorme, pois nem nas demais cidades de Île-de-France (região metropolitana de Paris) se encontram equipes com capacidade de cativar um grupo representativo de torcedores.
Com o tempo, o caráter artificial do clube foi desaparecendo. A falta de rivais locais fez do PSG a única opção dos parisienses amantes de futebol. E, como os mais jovens não tinham apego aos clubes mais tradicionais, começaram a formar torcidas organizadas, Como em qualquer grande clube da Europa.

Em 1991, o aporte financeiro do Canal + tornou o PSG uma força econômica dentro do futebol francês. Ainda assim, o clube até hoje não consegue ser vitorioso. Desde que entrou na Primeira Divisão, há 29 anos, foram apenas 2 títulos nacionais. Muito pouco perto dos times do interior como Monaco, Marseille, Saint-Etiénne, Bordeaux e Nantes.
Antes da Copa de 98, foi construído o gigantesco Stade de France. Para o Mundial, se mostrou um palco perfeito. O problema era arranjar o que fazer com o local após o torneio. Foi oferecido um subsídio para que o PSG se mudasse para o novo estádio, mas os rubro-anis preferiram seguir no Parc des Princes. É importante considerar que o PSG e seu atual estádio ficam na região sudoeste da cidade, enquanto que o Stade de France foi implantado em Saint-Denis, ao norte de Paris.
Os candidatos naturais foram os demais clubes parisienses com torcida considerável, o Red Star e o Racing. Curiosamente, ambos são da região norte da capital francesa. A oferta foi bem-vinda, mas não pôde ser aceita. Não agora. Por mais que houvesse subsídios, o clube que utilizasse o Stade de France teria de desembolsar cerca de € 10 milhões ao ano, quantia impraticável para equipes que disputam divisões menores.

Mas há alguma esperança. Em 2000, o Racing se beneficou dos sorteios e conseguiu avançar na Copa da França. Até encontrar o Monaco. Há muitos anos, era um clássico. Curiosamente, foi uma derrota para os monegascos que definiu o rebaixamento do Racing em sua última temporada na elite. Consciente do apelo daquela partida, os dirigentes do Racing resolveram jogar no Stade de France. E 50 mil torcedores do Racing se deslocaram a Saint-Denis. Não foi o suficiente para evitar a derrota por 1x0, mas mostrou que a paixão pelo alvi-celeste ainda está presente no torcedor de Paris.
Talvez o ressurgimento do futebol parisiense esteja no passado. Ou então esperar mais um tempo pelo Paris Saint-Germain. Os torcedores do clube que uma vez foi visto como artificial têm noção dessa responsabilidade. Tanto que um dos gritos de guerra mais comuns dos torcedores do PSG é “ici c’est Paris” (algo como “isso aqui é Paris”). É, no fundo, uma forma de afirmação da capital francesa no futebol.
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Como deu para perceber na história do PSG, o “1970” escrito no distintivo do clube é apenas uma forma de tomar para si a data de fundação do PSG original, atual Paris FC.
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Hoje, o clube da região em melhores condições, depois do PSG, é o Créteil-Lusitanos, da cidade de Créteil. Fundado em 1936, o Créteil se profissionalizou apenas em 1986, disputando a Quarta Divisão. Conseguiu uma promoção já na temporada de estréia. Mais um ano e a equipe dos subúrbios de Paris já estava na Segundona local. O clube ainda cairia (e subiria em seguida) mais duas vezes. Em 2002, se fundiu com o Lusitanos, clube da colônia portuguesa de Saint-Maur. Hoje está em posições intermediárias na Ligue 2.
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Vejam os demais clubes da região de Île-de-France:
National (Terceira Divisão)
Sannois / Saint-Gratien
CFA 1 (Quarta Divisão, amadora)
Racing, Paris FC, Mantes, Viry-Châtillon, Poissy, Moissy-Cramayel, Les Lilas e Noisy-le-Sec
Demais divisões
Red Star, Levallois, Aubervilliers, Ivry, Marly-le-Roi, Evry, Corbeil, Fontainebleau, Versailles e Saint-Leu.
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Nessa temporada, a perspectiva dos futebolistas parisienses não é das melhores, mas poderia ser pior. Nos últimos anos, o tradicional e ainda popular Red Star despencou para a Sexta Divisão. Mas já se vê uma luz para o Racing (luta pelo primeiro lugar no grupo D da CFA 1). O próprio Red Star pode não estar muito bem na Divisão de Honra, mas venceu os “clássicos” contra as equipes B e C dos rivais parisienses. Ganhou de 3x0 do Paris FC e 2x1 do Paris Saint-Germain. Nesse último domingo, foi realizado mais um dérbi contra o Racing. O Red Star venceu por 3x2.
Ubiratan Leal
Imagens: Colby College, Red Star, Allez Racing e Paris Saint-Germain