Poucas coisas são tão frustrantes para um torcedor de futebol quanto procurar informação especializada em bancas de jornal. Existem veículos que tentam fazer seu papel, como o Lance!, o Jornal dos Sports e alguns cadernos esportivos de jornais convencionais. Mas um sinal da escassez de títulos está na prateleira de revistas, onde aparece solitária a tradicional Placar, ilhada por publicações estrangeiras e revistas-pôsteres não-periódicas. Pouquíssimo para um país que se considera a terra do futebol.
Quem não acompanha de perto as movimentações do mercado de comunicação não tem noção da crise que atravessa o setor. Os que não se encaixam nesse perfil podem pular para o próximo parágrafo. Os demais ficam sabendo que veículos desaparecem ou reduzem sua estrutura a cada semana. Isso é resultado de investimentos equivocados e a redução no número de anunciantes. E o fenômeno não atinge só os pequenos grupos. Pelo contrário: uma das empresas com mais dívidas é a Globo, incluindo TV, rádio e jornal.
Ainda assim, dizer que a crise da mídia esportiva impressa não passa de mais um aspecto dessa depressão da comunicação em geral é minimizar a análise de forma comodista. É óbvio que a falta de capital dos grupos editoriais não ajuda em nada os veículos ligados a futebol (e outros esportes), mas revistas e jornais com esse tema são raridades mesmo nos tempos de crescimento econômico.
São várias as razões. Alguns veículos foram lançados com claros problemas de formatação editorial. Assim, não atingiam seu público leitor ou os anunciantes, matando as fontes de receita de uma revista. Nesse grupo estão várias publicações que tentaram criar uma relação entre futebol e comportamento jovem e tiveram de mudar de linha editorial – caso da Placar – ou fechar as portas.
Outro problema é a falta de dinheiro. Sem um suporte grande por trás (e muitos projetos afundaram por isso), o retorno financeiro deve ser rápido para pagar o investimento inicial, o que não é fácil. Novamente citando a Placar, o fato de ter a editora Abril por trás é a única razão de esse título sobreviver por tantos projetos mal-sucedidos nos últimos 15 anos. Mesmo a atual fase da publicação, novamente mensal e com eventuais edições especiais, é marcada por páginas com praticamente nenhum anúncio.
O pior é que o torcedor parece ter desacostumado a ler sobre futebol que não seja na segunda-feira para tirar um sarro do colega de trabalho. Não vale o argumento de que o enorme contingente de analfabetos e de pessoas com poucas condições financeiras tornaria o mercado brasileiro pequeno. Por mais que a situação social do país seja lamentável, a classe média consegue manter uma revista como a Veja, mesmo com a qualidade duvidosa dessa publicação.
No fundo, parece que o brasileiro criou um desapego muito grande às suas paixões. Não as alimenta, não refina seu conhecimento a respeito delas, não as estuda, não sai de casa por elas, não as consome. Vive em um cotidiano melancólico, criando rotinas na TV e levando a vida mais comodista possível. Os que ainda insistem em serem fanáticos por algo correm o risco de serem vistos como bobos, para ser delicado.
Por isso é que, a despeito de nosso mercado fonográfico relativamente prolífico, há poucas publicações de qualidade dedicadas à música. O mesmo vale para culinária, ciência, cultura em geral e, claro, futebol. Todos esses assuntos são cobertos por um ou outro veículo mais abnegado, mas, como mercado, ainda são minguados.
Nesse cenário, é difícil apostar em revistas sobre futebol. O projeto editorial deve ser muito cuidadoso para não esbarrar em nenhum dos diversos obstáculos, ainda mais com a situação econômica do Brasil. Mas é ingênuo quem achar que não vale a pena apostar no mercado de torcedores de futebol. São muitos e com poder de consumo, só precisam ter motivos para levantar do sofá e ir à banca.
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Uma exceção nesse mercado é o diário Lance!, originário em Rio de Janeiro, mas que já conta com edições paulista, paranaense e brasiliense. Apesar de haver problemas em vários pontos do jornal (como a baixa qualidade de muitas pautas), o projeto todo conta com méritos inegáveis. Um bom modo de aprender como se dar bem vendendo esportes na banca de jornal é dar uma olhada nesse livro.
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Para se ter idéia de como nosso mercado é fraco editorialmente, países europeus não só têm revistas e jornais de futebol, como contam com veículos especializados dentro do futebol, como os que só tratam de determinados clubes, de futebol internacional ou até de transferências de jogadores.
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Se a coisa não está boa com o futebol, imaginem como estão os amantes de basquete, vôlei, tênis, atletismo e natação, só para citar algumas modalidades. Mesmo o automobilismo – considerado o segundo esporte em leitores mais fiéis, só atrás do futebol – ainda padece das inconstâncias do mercado.
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É importante salientar que, entre as poucas coisas sobrevivem nesse setor cujo potencial está sentado no sofá, estão os carros, a decoração, as mulheres com pouca roupa (quando têm alguma) e o turismo.
Ubiratan Leal
Imagem: CT Editora e Placar