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24/11/03

Brazil

As lições que deram Botafogo e Palmeiras


O diagnóstico é simples e direto. Botafogo e Palmeiras voltaram à Primeira Divisão porque entenderam os motivos da queda, perceberam que esse era um momento de repensar suas ações e, assim, puderam mostrar sua grandeza diante dos demais adversários da Série B. É verdade que houve muitas diferenças nas soluções adotadas pelos dois clubes, mas o princípio básico foi o mesmo.

Antes de falar especificamente de alvinegros e alviverdes, é importante pensar em como a Série B se encaixa na vida de um grande clube. Em um país com tantos clubes populares, é normal que um grande em má fase acabe sendo rebaixado. É tão normal quanto saudável. Por quê?

Um grande clube não pode, por maior que seja sua crise financeira e institucional, admitir que o rebaixamento é uma possibilidade antes de um campeonato começar, já que as pressões internas seriam enormes. Por isso, invariavelmente, tenta ignorar a falta de condições internas montando uma equipe que dê uma satisfação à torcida. É claro que, depois de algumas rodadas, os resultados não são os esperados, mas o planejamento de longo prazo já se tornou inviável e resta torcer para o ano acabar sem maiores estragos.

É preciso entender que não basta comprar atletas e dar-lhes uma camisa para ter um bom time. Às vezes, o que falta é uma reestruturação técnica e administrativa, processo complicado e doloroso. Nesse período de transição (que pode durar um ano), todos envolvidos com o clube devem ter consciência que a equipe não estará entre as melhores do país e que uma queda de rendimento é até necessária. E é esse o papel da Série B.

Se Botafogo e Palmeiras estivessem na Série A, não teriam tempo de montar essa nova equipe. Os maus resultados iniciais aumentariam as pressões – já que a zona baixa da classificação estaria por perto – e o planejamento de longo prazo poderia ser trocado por medidas desesperadas. Foi isso o que aconteceu com o Botafogo nos últimos anos. Não é à toa que, nesse tempo todo, o alvinegro carioca nunca esteve no topo da tabela.

Na Série B, por mais traumático que fosse essa etapa de adaptação, não seria difícil se manter em alguma posição mediana da tabela. Essa situação permaneceria até a confiança dos jogadores voltar e a torcida entender que seu clube vive uma nova realidade. Resumindo, na Segunda Divisão, o clube pode respirar antes de tomar um novo impulso.

O caso mais claro era o do Botafogo. A bem da verdade, os alvinegros de General Severiano precisavam da Série B há alguns anos. O clube se arrastava e a briga judicial para permanecer na Primeira Divisão em 1999 foi claramente uma forma de adiar o que era necessário. Foi um erro histórico.

O passo mais importante para a guinada botafoguense veio antes do rebaixamento ser confirmado, com a eleição de Bebeto de Freitas para a presidência do clube. O ex-treinador da seleção brasileira de vôlei teve consciência de que, antes qualquer coisa, era preciso entender os motivos da crise institucional do Botafogo. E não eram poucos, passando pela falta de dinheiro e por vícios de administrações passadas.

Identificados os problemas, Bebeto deixou claro que todas suas ações administrativas eram transparentes e honestas, o que deu credibilidade ao clube diante de torcida, patrocinadores e até jogadores. Basicamente, ele sabia que o Botafogo não reunia condições de ter um elenco de time grande, tanto que não estava entre os grandes. Mas era perfeitamente possível agir com a dignidade e hombridade de quem é grande. E isso foi feito.

Para ajudar, o novo dirigente botafoguense procurou trazer profissionais que também carregassem esse espírito. Assim, chamou Levir Culpi. Marcado por comandar o Palmeiras que foi rebaixado, o técnico não teve pudor em aceitar o convite de um clube da Série B. poderia ser também sua redenção pessoal. Em campo, o experiente Valdo e o zagueiro Sandro – o mais determinado a subir após o rebaixamento de 2002 – personificariam tudo isso dentro de campo.

Esses nomes criaram uma espécie de barreira anticrise. Afinal, Bebeto tinha completa noção das dificuldades que o time enfrentaria e que não adiantaria correr atrás de soluções fáceis (e erradas). Levir também não se notabilizou por criar problemas nos elencos que comandou. Com tudo isso, bastava que o resto do elenco, composto por jogadores esforçados e com alguma qualidade, fizesse sua parte. E foi o que aconteceu, com muita raça e determinação, características marcantes na campanha alvinegra.

A campanha do Botafogo teve compreensíveis momentos de instabilidade, sinal claro de que não havia, ao contrário do Palmeiras, uma sobre técnica. No papel, o elenco alvinegro não é muito melhor que o de outras equipes da Série B. E, nem sempre uma administração honesta e o apoio da torcida são suficientes.

Se a troca de presidente foi o que iniciou o processo de recuperação botafoguense, o mesmo não se pode dizer do Palmeiras. Pelo contrário, já que Mustafá Contursi foi reeleito pouco depois de confirmado o rebaixamento. Assim, o horizonte alviverde não parecia dos melhores, pois a mentalidade que levou o clube paulista à Segunda Divisão permaneceria no poder.

Dito e feito. Institucionalmente, não houve mudanças no Palmeiras. As novidades tiveram de vir de baixo. Jogadores como Magrão e Marcos assumiram a responsabilidade de comandar o time. Jair Picerni teve paciência e habilidade para segurar a pressão e montar uma equipe competitiva, mostrando superioridade técnica no estilo Série B de ser. E, para a sorte de todos no Parque Antárctica, o Palmeiras contava com um punhado de jogadores muito bons nas categorias inferiores. Se Mustafá teve algum mérito, foi o de não desestabilizar o ambiente, deixando a comissão técnica e o elenco trabalharem.

Tecnicamente, o Palmeiras é bem superior ao Botafogo. Afinal, Daniel, Lúcio, Diego Souza e Vágner Love mostraram que têm qualidades para atuar em qualquer equipe brasileira (não vamos colocar o goleiro Marcos na lista por que é completamente desnecessário). Ainda assim, a determinação dos jogadores também foi fundamental para os verdes em diversas partidas. Jogar na Série B é assim mesmo.

Por fim, um destaque para as duas torcidas, que entenderam perfeitamente o processo por que passavam seus clubes e apoiaram incondicionalmente. Nas arquibancadas, ficou claro que todos sabiam que a história de Botafogo e Palmeiras não comportava uma virada de mesa. A vontade geral era a de subir no campo. E isso só aconteceu, além dos motivos citados nos demais parágrafos, porque os torcedores lotaram os estádios e, acima de tudo, foram compreensivos nos momentos de dificuldade.

A torcida do Botafogo faz festa em Caio Martins. Sem ela, dificilmente a reestruturação do clube traria resultados tão rápidos

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Botafogo e Palmeiras (contando torcida, comissão técnica, jogadores e até diretoria) souberam entender o momento histórico e reagir. É muito importante, agora, que todo o futebol brasileiro entenda a importância do processo pelo qual passou esses dois clubes para aprender algumas lições.

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No caso dos dois clubes, os respectivos campeonatos estaduais tiveram uma certa importância. Ambos fizeram campanhas insatisfatórias (o Botafogo foi 5º no Estadual do Rio e o Palmeiras ficou em 4º na Paulista), mas puderam desenhar melhor suas equipes e, principalmente, acabar com o trauma do rebaixamento.

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Não dá para negar que houve pressões por parte de botafoguenses e palmeirenses para que o regulamento favorecesse os clubes. Por isso mesmo não foram adotados os pontos corridos. Mas a superioridade de cariocas e paulistas foi tão grande que é difícil imaginar como uma outra fórmula de disputa produziria um desfecho diferente para esse campeonato.

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Tem muito clube brasileiro precisando de um rebaixamento. Um caso é o do Fluminense, que caiu e até estava aprendendo a se reordenar com Carlos Alberto Parreira. Saltar uma etapa (com o convite para disputar a Copa João Havelange) foi bom no curto prazo, já que o tricolor carioca se classificou por três anos seguidos (pelo menos) à segunda fase. Mas ficou claro que era uma situação temporária e o clube está novamente deteriorado administrativa e tecnicamente.

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Quem também podia aprender um pouco com Palmeiras e Botafogo são os demais clubes com tradição que estão na Segundona, principalmente os pernambucanos e a Portuguesa. No entanto, os rubro-verdes paulistas já negociam a terceirização de seu departamento de futebol, esquecendo que gerenciamento externo não é necessariamente bom. Em clubes tradicionais, a resposta costuma estar dentro da instituição.

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O Cruzeiro só não foi homenageado nesse texto como campeão brasileiro por respeito ao Santos e sua luta para tirar a diferença de 6 pontos.

Ubiratan Leal

Imagens: Pelé.net, Hipólito Pereira / O Globo e Rogério Lorenzoni / Terra

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