Quando grandes clubes como Botafogo e Palmeiras estão na Segunda Divisão e outros como Fluminense e Grêmio demonstram que podem seguir o mesmo caminho, fica até na moda falar sobre como isso é comum na Europa. Lá, não faltam exemplos, pois até Manchester United e Milan já andaram no andar de baixo. Poucos sobram incólumes, entre os quais Internazionale, Barcelona, Real Madrid, Athletic Bilbao, Hamburg e Juventus. Será que é assim?
No caso dos nerazzurri de Milão, dos espanhóis e do clube da cidade que inspirou o nome do hambúrguer é realmente assim. Mas o mesmo não se pode falar da Juventus de Turim, clube mais vezes campeão e com torcida mais numerosa na Itália. Ao pé da letra, a Vecchia Signora realmente nunca disputou a Série B. Mas isso não quer dizer que nunca tenha sido rebaixada. Pois é, a Juventus não só caiu uma vez, como virou a mesa em seguida.
Foi no longínquo Campeonato Italiano de 1912-13. Naquela época, o torneio era disputado em grupos regionais e os vencedores de cada chave se classificavam para a fase final. A Juventus, que já possuía o título italiano de 1905, não vinha bem financeiramente. O elenco já vinha se desmontando nos anos anteriores, mas a situação ficou mais crítica naquela temporada. A campanha foi terrível, com goleada de 0 x 8 e um exótico 6 x 8 diante do rival Torino.
No final do campeonato, a classificação do grupo do Piemonte mostrava a Pro Vercelli (que depois seria a campeã) na ponta, com 19 pontos. A seguir vinham Casale (13), Torino (11), Piemonte (10) e Novara (4). A Juve vinha em último, com minguados três pontos, todos contra o Novara (3 x 3 fora e 3 x 0 em Turim). Os bianconeri já ficaram na rabeira em 1911, quando não havia rebaixamento. Mas o regulamento já mudara em 1913 e a Juventus estava na Segundona.
Os torcedores e sócios se revoltaram pedindo a renúncia da diretoria. E os dirigentes resolveram agir. Não se demitiram, mas começaram um complicado jogo diplomático nos corredores da federação italiana. O principal articulador foi Umberto Malvano, ex-jogador de Juventus e Milan, amigo de Giovanni Mauro (então vice-presidente da federação) e irmão de Francesco Malvano, presidente da Intenazionale.
A desculpa (toda virada de mesa, por mais injustificável e escandalosa que seja, precisa de uma) foi o fato de o grupo da Lombardia-Piemonte do campeonato de 1913-14 ter um número ímpar de participantes (nove). Assim, “havia uma vaga”. A Juve, claro, aceitou o gentil convite para ocupar a tal vaga.
Na temporada seguinte, Giuseppe “Bino” Hess foi eleito presidente do clube piemontês, iniciando um processo de reestruturação do clube. Deu certo. Em 1914, a Juve só ficou atrás do Milan no grupo Lombardia-Piemonte e se classificou para a fase final, em que foi a quarta colocada.
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Apesar de esse caso já ter 90 anos, há documentação suficiente para não haver dúvidas a respeito das manobras juventinas. Tanto que muitos torcedores da Vecchia Signora admitem a virada de mesa (negada oficialmente pelo clube).
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Para quem gosta de decorar escalações, aí vai a da pior Juventus de todos os tempos: Pennano, Barberis e Aironi; Nevi, Bona e Garlanda; Copasso, Besozzi, Varalda, Poggi e Fiamberti.
Ubiratan Leal