No mundo do futebol, o Butão ficou conhecido por protagonizar com a ilha caribenha de Montserrat a antifinal. Por serem as duas piores seleções do ranking da Fifa, disputaram uma partida – no mesmo dia da decisão da Copa de 2002 – para ver quem era o pior (já que o melhor se decidia em Yokohama). Butão ganhou por 4x0 e teve uns minutos de fama. Injusto. Não que o jogo exótico não deva receber atenção. Mas porque Butão já prestara um grande serviço ao futebol ao oferecer o filme “A Copa” (Phörpa).
Mesmo sendo a primeira produção da história do cinema butanês, o filme dirigido por Khyentse Norbu não deixa a desejar. Fugindo do formato típico das películas esportivas – repletas de cenas de partidas, jogadores no limite do esforço e um enredo algumas vezes para lá de ruim – “A Copa” mostra com extrema simplicidade como o futebol pode fascinar um grupo de pessoas, a ponto de provocar mudanças culturais em uma pequena comunidade. No fundo, o esporte aparece como indutor de um processo de pequenas revoluções em um mosteiro budista, o que torna a produção mais ligada à religião do que a futebol.
A personagem central da história – baseada em fatos reais – é o garoto Orgyen (Jamyang Lodro), de 14 anos. Fanático por futebol, ele veste camisas da seleção brasileira com o nome de Ronaldo (na realidade, uma camiseta amarela com inscrições feitas com caneta hidrocor) por baixo das túnicas budistas. No quarto, pôsteres e revistas de futebol, com fotos dos principais jogadores do mundo.
Como todo fanático por futebol, o pequeno aspirante a monge fica especialmente alterado em época de Copa do Mundo. O pior, para seus mestres no mosteiro, é que o garoto inicia uma febre pelo esporte no templo, levando outros aprendizes de monges consigo. Há um choque – tratado com humor e sensibilidade – entre essa onda futebolística e os costumes rígidos do mosteiro, a ponto de alguns garotos fugirem de madrugada para assistir aos jogos em casas da vila mais próxima.
Outras questões mais amplas também se apresentam, como a pouca proximidade dos budistas tibetanos com a população local (a história se passa na Índia), a perseguição que os tibetanos sofrem pelo exército do Nepal e a ocupação chinesa no Tibete (na Copa, Orgyen torce pela França porque o país de Zidane é o único a reconhecer como legítima a causa tibetana).
Como resultado final, “A Copa” é um belo filme sobre budismo. O futebol é uma ponte de ligação entre os mundos ocidental e oriental, sem forçar nem parecer artificial. Mostra que a religião criada por Sidarta Gautama não impede que as pessoas tenham paixões materiais e menos nobres, por mais que pregue o desapego a desejos.
Por causa dessas qualidades que “A Copa” foi premiado no festival de Cannes e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 1999 (perdeu para o espanhol “Tudo Sobre Minha Mãe”, de Pedro Almodóvar). Mesmo assim, é importante ressaltar que há uma grande chance de espectadores arredios a filmes não-hollywoodianos não gostarem da produção butanesa.
*
Há diversas curiosidades sobre “A Copa”. Os atores não eram profissionais, mas monges budistas de verdade. Um sinal disso é o pagamento que Jamyang Lodro recebeu para atuar no filme: uma viagem à Disneylândia. O próprio Khyentse Norbu pertence a uma família budista tradicional e entrou no cinema como consultor religioso de Bernardo Bertolucci em “O Pequeno Buda”. Gostou e foi estudar nos Estados Unidos.
Ubiratan Leal
Imagem: Siciliano