Nem parecia o mesmo clube que, nos meses que antecederam a temporada 2002-2003, estava ameaçado de rebaixamento por dificuldade na consecução das garantias financeiras exigidas pela Bundesliga. O interessante é que foi justamente desse problema econômico que surgiu a equipe que vem surpreendendo a Europa. Mal comparando, foi uma situação semelhante à do Santos em meados de 2002, quando o clube dirigido por Leão resolveu apostar em garotos e trnou-se campeão brasileiro.
A Alemanha foi o país que mais sentiu a queda nas receitas da televisão nos últimos dois anos. O motivo é óbvio: essa crise econômica provocou a falência do grupo de mídia Kirch, intimamente ligado ao futebol alemão. Por isso, todos as equipes – excetuando o Bayern de Munique, que se favoreceu de negociações “especiais” – tiveram uma redução drástica em seus orçamentos. Não é à toa que os clubes alemães foram tão mal as competições européias na temporada passada.
De qualquer maneira, o Stuttgart foi mais afetado que os demais, pois já estava em situação financeira delicada. A solução foi apostar em um elenco barato e cheio de garotos, mantendo o treinador Felix Magath, que, passou pela seleção alemã-ocidental nos anos 80 como jogador e levara o clube de Baden-Württemberg ao 8º lugar na temporada 2002. Aliás, Magath se mostrou o homem ideal para a política de contenção do clube, já que, além de apostar em uma equipe barata, aceitou acumular funções, trabalhando também como gerente-geral, cargo que já ocupara no Hamburg e no Uerdingen.
A expectativa era a de evitar o rebaixamento. Tanto que a campanha européia naquele ano foi deixada de lado. Mesmo assim, foi positiva já que o time levou um “título” da Intertoto e conquistou uma vaga na Copa da Uefa, na qual resistiu até às quartas-de-final, quando caiu diante do Celtic, da Escócia. Na liga alemã, como já dito, o clube cavalgou mansamente e se aproveitou da queda de rendimento de Dortmund e Werder Bremen para ficar com o vice-campeonato.
Foi tudo tão surpreendente que muitos consideraram que o Stuttgart não agüentaria outra temporada no mesmo nível. Afinal, o elenco era jovem e não haveria grandes investimentos para suprir as posições carentes. Realmente, os gastos na pré-temporada foram relativamente modestos.
No gol, foi mantido o promissor Hildebrand. O goleiro já tem 24 anos, mas, no conservadorismo que impera na escolha dos arqueiros alemães, pode ser considerado novo. O prestígio dele é tão grande que o veterano Ernst nem ficou para essa temporada, sendo negociado com o Kaiserslautern. Muitos já consideram Hildebrand o substituto natural de Kahn na seleção alemã, mas Völler esfriou os ânimos desses ao declarar que já escolheu os goleiros que vão para a Eurocopa em 2004 (e o nº 1 do Stuttgart não estaria nessa lista). Ainda na defesa, o ex-são-paulino Bordon é o capitão da equipe, mas o melhor jogador o destaque é o lateral-direito Hinkel, de apenas 21 anos.
No meio-campo também não há estrelas. A única era o búlgaro Balakov, que encerrou a carreira no último verão europeu e passou para a comissão técnica do próprio Stuttgart. Agora, quem organiza as jogadas é o belorrusso Hleb (foto), outro jovem (tem 22 anos). Inteligente e técnico, é o ponto de equilíbrio de um setor ofensivo reforçado. Além do artilheiro-revelação Kevin Kuranyi e do grego Amanatidis, a diretoria trouxe o húngaro Szabics, o brasileiro Cacau e o argentino Centurión, revelação do Vélez Sarsfield no Clausura 2003.
Com esse time, o Stuttgart desembarcou na Liga dos Campeões na condição de incógnita. Apesar de a campanha ser boa até o momento, ainda não dá para dizer que o clube vai se classificar para as oitavas-de-final. Na estréia, os alemães voltaram a perder dos escoceses, dessa vez do Rangers. Mesmo assim, foi uma partida equilibrada, o que deu crédito ao Stuttgart. Mas a prova da qualidade do time veio há duas semanas, quando venceram por 2x1 o Manchester United. A vitória foi convincente, merecida e só não teve um placar maior porque o goleiro norte-americano dos red devils Howard defendeu um pênalti no final do jogo.
Tudo bem, foram apenas duas partidas. Porém, a trajetória do Stuttgart na Bundesliga dá suporte para os que vêem qualidades no time montado por Magath. Depois de 8 rodadas, o time estava em 3º lugar, a um ponto dos líderes Werder Bremen e Bayer Leverkusen. O destaque, porém, era a defesa do time. Hildebrand já estava a 824 minutos sem sofrer um gol sequer, batendo o recorde de Kahn por 22 minutos.
No último fim-de-semana veio o teste mais importante até agora. O Stuttgart foi a Bremen enfrentar o líder. O grego Charisteas acabou com a invencibilidade da defesa, mas, se serve de consolo, o gol foi claramente irregular (a bola havia ultrapassado a linha de fundo no cruzamento que resultou na finalização). Isso não diminuiu o brilho do Stuttgart. Com uma atuação impecável, os alvirrubros venceram por 3x1 e continuaram na perseguição ao Leverkusen.
O interessante é ver até onde vai esse surpreendente Stuttgart. Nessa quarta-feira (22 de outubro), o time recebe os gregos do Panathinaikos. Em tese, os alemães não devem ter problemas. Na Bundesliga, o próximo jogo é contra o perigoso Wolfsburg, dos argentinos D’Alessandro e Klimowicz e do brasileiro Fernando Baiano. Não parece ser suficiente para assustar a maior surpresa do futebol alemão nos últimos anos.
Placar eletrônico anuncia o recorde de minutos sem tomar gols de Hildebrand durante a partida contra o Köln. E as comemorações em Stuttgart podem não parar por aí
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Esse fato já foi bastante falado, mas não custa relembrar a estranha origem de Kevin Kuranyi. O atacante nasceu no Rio de Janeiro de pai brasileiro e mãe panamenha, passou parte da adolescência na Alemanha, mas começou o futebol no Serrano de Petrópolis. Passou ainda pelo Sporting Panamá antes de ir para o Stuttgart.
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No texto, falamos que muitos não acreditavam na capacidade do Stuttgart se manter na ponta. Bem, esse site admite que duvidou do time de Magath aqui e aqui. Aliás, também estamos com a língua queimada por achar que o Bayern teria vida fácil nessa temporada.
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Mas não é só o Stuttgart que vem surpreendendo na Bundesliga desse ano. O Bochum, famoso por visitar constantemente a Segunda Divisão, está melhor do que no ano passado, quando conquistou a 9ª colocação (fato raro na história do clube). E não é acaso, pois os azuis montaram uma equipe razoável, com o camaronês Kalla na defesa, o nigeriano Oliseh e o alemão Wosz no meio-campo e Freier – uma das esperanças para o ataque da seleção alemã – na frente.
Ubiratan Leal
Imagens: Bundesliga e Stuttgart