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3/10/03

Cultura & Mídia

Questa pazza fede

Imagine um pacato professor inglês acompanhando uma das torcidas mais fanáticas e ideologicamente extremistas por toda a Itália durante uma temporada, descobrindo os sentimentos de alguns dos seus integrantes. Foi mais ou menos esse o ponto de partida de Tim Parks para o livro "Questa pazza fede – l’Italia raccontata attraverso il calcio" (em português, essa fé estúpida – a Itália contada por meio do futebol). Assim, o inglês acompanhou os ultras do Verona, famosos pelas manifestações racistas, em todas os jogos do time, incluindo as partidas como visitante.

É claro que a escolha do time não se dá por motivos puramente jornalísticos. Parks, nascido em Manchester, mora em Verona há mais de 20 anos e criou raízes na cidade: casou-se com uma italiana, tem um filho e um time de futebol local (adivinhe qual?). Essa consideração não é gratuita, pois o fato de o autor ser realmente um torcedor do clube retratado e de viver intensamente dentro do universo scaligero marca presença em quase todos os parágrafos escritos.

Essa ligação íntima de Parks com Verona já tira parte da objetividade jornalística do livro. Felizmente, o autor se mostrou ciente disso e, em muitos momentos, fugiu da tentação de fingir uma imparcialidade inexistente e impossível. Ainda assim, manteve um nível mais que aceitável de informações relevantes e úteis, o que permite ao leitor ter um bom panorama sobre a realidade do Hellas Verona e da cidade em si.

A primeira questão que todos pensam é logo o racismo. Não vou contar tudo para não tirar a graça de quem comprar o livro, mas, basicamente, fica claro que, segundo Parks, haveria uma certa predisposição de toda a Itália em ver os vênetos como racistas. O autor claramente rechaça essa idéia, alegando que alguns indivíduos fazem a fama de toda uma região. Pode ser verdade, mas é difícil saber até onde o inglês também não está de boa vontade com a cidade onde vive.

Ainda assim, há pontos positivos nessa relação íntima do autor com o clube e a torcida. Por ser um gialloblu de verdade, ele foi aceito com mais facilidade dentro das facções de tifosi. Com isso, o inglês presenciou e protagonizou situações e diálogos que uma pessoa de fora dificilmente conseguiria.


Mas a obra não fala apenas no racismo dos veroneses. Cronista de formação, Parks reflete sobre o comportamento da torcida como um todo: os palavrões, o vandalismo, a bebida, as drogas, as brigas, as rivalidades e outras ações muito parecidas com a de qualquer claque organizada brasileira. É nesse momento em que um leitor brasileiro mais se reconhecerá. Porém, as ações italianas podem ter origem diferente das brasileiras.

No caso do Verona, o fato de ser supostamente perseguido pela Itália e de raramente brigar por algo melhor que o meio da tabela seria o fator primordial de quase tudo. O orgulho de ser diferente e não se misturar com os grandes seria motivo para agir de forma pouco convencional sempre que possível. Soa como justificativa de valor duvidoso, mas o autor defende que muitas das ações – incluindo o racismo – dos tifosi scaligeri não passariam de formas de criar uma identidade própria no país, de aparecer, de ter alguma fama, mesmo que pelos motivos menos abonadores. Algo como o “falem mal, mas falem de mim”.

E o subtítulo? Realmente, ele não serve apenas como chamariz comercial ou enfeite. Entre uma partida de futebol e uma confusão da torcida, Parks tem tempo de contar coisas sobre a Itália. Mas não é um guia turístico, que descreve as belezas das cidades visitadas durante a temporada. Melhor que isso, o autor conta o ambiente, as rixas regionais, como a sociedade (não) se organiza, a política, as autoridades e outras informações que só quem convive diariamente com os italianos saberia, mas tendo a visão de quem, apesar dos 20 anos de Vêneto nas costas, ainda é um inglês. Aliás, boa parte da produção literária de Parks é baseada nessa visão inglesa da Itália. Mas não se iluda: há muitas partes interessantes da Itália ignoradas pelo livro simplesmente porque não tinham representante na Serie A de 2000-01 (temporada retratada pelo inglês).

A propósito, o autor respeitou quase que uma divisão exata de um capítulo por rodada. Assim, as narrativas evoluem de acordo com a campanha do time, o que cria uma história com começo, meio e fim um pouco diferente de Febre de Bola, do também inglês Nick Hornby. Mas aí há um problema no livro de Parks. A temporada 2000-01 do Verona não teve praticamente nada de especial em relação às outras de um time limitado que luta para não cair. Não teve o charme da estréia do Chievo na elite. Nem o drama de um rebaixamento e falência de um grande como a Fiorentina. A vida pessoal de Parks também não serviu como um cenário forte o suficiente. Como história, falta algo. E talvez por isso que o livro de Hornby fique alguns passos à frente.


De qualquer forma, "Questa pazza fede" vale a leitura (para quem lê italiano, claro). É importante salientar que há uma versão em inglês com o pouco imaginativo e extenso nome de “A Season with Verona – travels around Italy in search of illusion, national character and... goals” (Uma temporada com o Verona – viagens pela Itália em busca de sonhos, identidade nacional e... gols). Como os livros de Parks estão saindo agora no Brasil (os primeiros foram “Meus Vizinhos Italianos” e “Cara Massimina”, o primeiro pela Publifolha e o segundo pela Imago), há uma esperança de uma versão em português do Questa pazza fede. Talvez assim seja possível evitar a compra em algum site estrangeiro, com valor em dólar ou euro.

Mais informações
“Questa pazza fede” foi publicado na Itália pela editora Einaudi e possui 425 páginas. A versão em inglês tem 480 páginas.

Ubiratan Leal

Imagens: Internet Bookshop Italia e Tim Parks

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