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23/10/03

Histórias

Quando o futebol escocês foi além de Glasgow


Clubes escoceses, em geral, só são notícia quando Celtic e Rangers protagonizam mais um clássico ou, no máximo, quando esses dois coadjuvam nas competições européias. Os demais são sumariamente ignorados pela maioria. Mas há não muito tempo não era bem assim. Houve um tradicional (mas pequeno) time ao norte de Glasgow que fez bonito não apenas nas Highlands, mas em toda a Europa.

Esse clube foi o Aberdeen, da cidade homônima localizada a cerca de 150 km ao norte de Edimburgo. Para quem não sabe, os Dons nunca foram rebaixados no Campeonato Escocês desde que entraram na Primeira Divisão, em 1915 (ficou de fora da competição em 1918 e 1919 por licença, mas voltou em 1920). Nem é preciso dizer que apenas Celtic e Rangers estão na mesma condição.

Mesmo com uma permanência perene a elite escocesa, ganhar títulos nunca foi a vocação do Red Army. Até 1978, a equipe só levara um Campeonato Nacional (em 1955) e duas Copas da Escócia (1947 e 1970). Foi quando chegou um jovem treinador, cuja maior conquista era a First Division – na prática a Segunda Divisão – escocesa pelo Saint Mirren em 1976. Mas foi esse homem, de nome Alex Ferguson, liderou o Aberdeen para as maiores glórias desde a fundação, em 1903.

Ele aproveitou os jovens que já aportavam no estádio Pittodrie e deu uma cara vencedora ao grupo. Tanto que, em sua segunda temporada pelos Dons, Ferguson já era campeão escocês, quebrando o duopólio da Old Firm (como é chamada a dupla Celtic-Rangers) que vinha de 1965. Foram 19 vitórias e 10 empates em 36 partidas, somando 48 pontos, um a mais que o Celtic.

Mas a campanha mais gloriosa da história do Aberdeen – e uma das mais importantes do futebol escocês – começaria em 1982. No Hampden Park de Glasgow, o Red Army goleou o Rangers por 4x1 (na prorrogação) e conquistou a Copa da Escócia. Com isso, o clube ganhou o direito de disputar a Recopa Européia na temporada seguinte.

Os Dons começaram sua campanha continental em uma fase preliminar, contra os suíços do Sion. Aparentemente era uma eliminatória equilibrada, mas a equipe dirigida por Ferguson massacrou o adversário, vencendo por 7x0 em casa e por 4x1 fora. Surpreendente, já que os pequenos clubes escoceses nunca tiveram muito crédito.

Com as goleadas da etapa anterior, poucos duvidavam que o Aberdeen passaria com tranqüilidade pelo Dynamo de Tirana, da Albânia. Não foi bem assim. Os Dons venceram por 1x0 em casa e seguraram uma igualdade sem gols no jogo de volta. Nas oitavas-de-final, os poloneses do Lech Póznan não resistiram, perdendo na Escócia (2x0) e na Polônia (1x0).

A campanha invicta do clube era relativamente justificada pelo fato de os adversários não serem dos mais fortes. Mas as quartas-de-final mudaram isso. O sorteio colocou diante do Aberdeen os alemães-ocidentais do Bayern de Munique, que eliminaram com relativa facilidade o Tottenham da Inglaterra na etapa anterior. O primeiro jogo foi no estádio Olímpico de Munique. Claro, Ferguson colocou todo mundo na defesa. O 0x0 final é uma mostra do sucesso da estratégia.


Porém, no segundo jogo, não bastaria ficar atrás. Afinal, um empate com gols já classificaria os bávaros. Assim, os escoceses começaram atacando, mas pagam cedo pela ousadia. Aos 10 minutos, o líbero Augenthaler completou um escanteio de Breitner para colocar o Bayern em vantagem. Necessitando da virada, os Dons intensificaram as investidas. O empate demorou 28 minutos, com conclusão de Simpson após o mesmo Augenthaler salvar um arremate de Black.

Após o intervalo, o Bayern voltou a ficar na frente, com Pfluger aproveitando um lançamento de Dremmler. O Aberdeen foi todo à frente, mas o empate só saiu em uma curiosa jogada ensaiada. Na cobrança de uma falta, McMaster e Strachan correram para a bola, mas ambos passaram reto. Enquanto fingem discutir, Strachan aproveita a distração dos alemães para cruzar na cabeça de McLeish. Logo depois, Hewitt aproveita um rebote do goleiro para virar o jogo e garantir o Aberdeen nas semifinais após a que é considerada até hoje a maior partida da história do estádio Pittodrie.

Com o moral em alta, a vaga na final não foi tão trabalhosa. Os belgas do Waterschei (que se fundiu em 1988 com o Winterslag para formar o Genk) não resistiram ao ataque escocês e foram goleados por 5x1 na partida de ida. Em Genk, o Aberdeen perdeu sua invencibilidade, mas o 1x0 belga não tirou do Red Army a vaga na decisão.


Se o Aberdeen precisava daquela final para sua afirmação, não poderia enfrentar adversário mais adequado: o Real Madrid. Os espanhóis não ganhavam uma competição européia desde a Copa dos Campeões de 1966, mas ainda eram respeitados. A partida foi disputada em campo neutro, no estádio Nya Ullevi de Gotemburgo.

O início de jogo já mostrou que não seria tranqüilo para os tradicionais espanhóis levaram sua primeira Recopa. Aos 7 minutos, Black já mandara uma bola na trave e outra para dentro do gol de Agustín. A lógica dizia que se tratara de um susto inicial e que o Real Madrid não demoraria a empatar. E foi o que aconteceu. McLeish tentou recuar para o goleiro Leighton, mas a bola parou na lama. Com isso, Santillana conseguiu chegar antes do goleiro, que acabou cometendo um pênalti, convertido por Juanito. Era apenas o 15º minuto de jogo.

Porém, depois disso, não houve muita coisa. Os dois times entraram em um ritmo mais lento e nem a chegada da prorrogação mudara o cenário. A ação só voltou nos últimos 9 minutos de tempo-extra. Após um cruzamento de Weir, Hewitt colocou o Aberdeen em vantagem novamente. Os madridistas acordaram buscando desesperadamente o gol de empate. Mas aquela Recopa era do Aberdeen, o pequeno clube que mostrava que o futebol escocês não se limitava a Celtic e Rangers.

FICHA TÉCNICA
Real Madrid 1x2 Aberdeen
Decisão da Recopa Européia
Local: Estádio Nya Ullevi (Gotemburgo-SUE)
Público: 17.804 pagantes
Aberdeen: Leighton; Rougvie, McLeish, Miller e McMaster; Cooper, Strachan e Simpson; McGhee, Black (Hewitt) e Weir. Técnico: Alex Ferguson
Real Madrid: Agustin; Juan José, Metgod, Bonet e Camacho (San José); Angel, Gallego, Stielike e Isidro (Salguero); Juanito e Santillana. Técnico: Alfredo di Stéfano
Gols: Black (4/1º), Juanito (15/1º de pênalti) e Hewitt (7/2º da prorrogação)

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Depois desse título, o Aberdeen seguiu na boa fase. A temporada seguinte começou com a conquista da Supercopa da Europa (a única conquistada por um clube escocês até hoje) sobre o Hamburg, da Alemanha Ocidental, e terminou com o terceiro título nacional do Red Army. O Aberdeen ainda fez um bom papel na defesa do título da Recopa, caindo apenas nas semifinais diante do Porto. A boa fase acabou com a saída de Alex Ferguson do clube. O treinador comandou a Escócia na campanha no Mundial do México em 1986 e não voltou. Acertou com o Manchester United, então em crise e amargando uma longa estiagem de títulos. Ferguson ajudou os red devils a dominar novamente o futebol inglês. Virou estrela no Reino Unido, foi cogitado para treinar a seleção inglesa (disse que nunca aceitaria por ser escocês) e até lançou uma autobiografia.

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Nessa quarta-feira, Ferguson esteve em Glasgow para dirigir o Manchester United contra o Rangers pela Liga dos Campeões. Foi a primeira vez que ele participou de uma partida por Copas Européias em sua terra natal desde que deixou o Aberdeen.

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Alguns jogadores daquele time se deram bem. Leighton quase que se eternizou o gol da seleção escocesa, disputando as Copas de 82 (como reserva), 86, 90 e 98. Outros jogadores, como Strachan, McLeish e Cooper também tiveram uma longa carreira internacional.

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Se Ferguson está bem, o mesmo não se pode dizer do Aberdeen. Em 1995 o clube quase foi rebaixado pela primeira vez. Terminou a Scottish Premier League em penúltimo, mas bateu o Dumfermline, vice-campeão da Segundona local, na repescagem. Hoje, o Red Army está enfraquecido, novamente na penúltima colocação do Campeonato Escocês.

*

Veja quando o Campeonato Escocês não foi nem de Rangers, nem de Celtic:

1891 e 1892 – Dumbarton (sendo que o primeiro foi dividido com o Rangers); 1895 e 1897 – Hearts of Midlothian; 1903 – Hibernian; 1904 – Third Lanark; 1932 – Motherwell; 1948, 1951 e 1952 – Hibernian; 1955 – Aberdeen; 1958 e 1960 – Heart of Midlothian; 1962 – Dundee; 1965 – Kilmarnock; 1980 – Aberdeen; 1983 – Dundee United; e 1984 e 1985 – Aberdeen. É importante salientar que Dundee e Dundee United são dois clubes diferentes e que apenas o Third Lanark não existe mais (foi extinto em 1967).

Ubiratan Leal

Imagens: Dons in Europe

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