Em um determinado momento, ele perguntou-me quantos clubes disputavam o Campeonato Brasileiro. Ele estranhou o “26” que ouviu, mas o difícil foi explicar ao desavisado europeu o motivo de um número tão diferente. Meses antes, Fluminense e Bragantino foram resgatados da Segunda Divisão. Como pretexto, um obscuro caso de compra de árbitros por parte de Atlético-PR e Corinthians. Mas como esses últimos não foram punidos, ficou uma sensação de que tudo era um grande pretexto para salvar o tradicional Fluminense do vexame da Segundona. Eu e Vincent ficamos meia hora trocando as mesmas frases (começando comigo):
- O Fluminense é grande e há muitos interesses financeiros em sua permanência na primeira divisão.
- Sim, e daí? Não foi penúltimo ano passado? Tem de cair. Não entendo o que você quer dizer.
- Não concordo com essa decisão, mas o clube é grande e os dirigentes consideram que os interesses financeiros são mais importantes que as regras.
- Mas o clube ficou em penúltimo. Por que não cai?
Vale lembrar que todos os clubes franceses já passaram pela Segundona local. No momento, por mais que se discorde do tapetão que teria favorecido o tricolor carioca e o time da terra da lingüiça, você pensa na falta de malícia e na ingenuidade do europeu. Será que é tão difícil entender o motivo, por mais espúrio que seja? Claro que sim, o brasileiro sempre é mais malandro.
Na mesma viagem, trocava provocações com o lusitano Bruno, sempre na rivalidade Brasil x Portugal. Nunca fui muito entusiasta da “corrente pra frente” pela camisa canarinho, porém, não fujo de uma boa discussão com facilidade. O caso era que, segundo meu amigo luso, a seleção brasileira ganhava da portuguesa, mas nenhum clube brasileiro bateria o trio Porto, Benfica e Sporting.
Como argumento, ele lembrava que o clube das Antas vencera, no Maracanã, o Botafogo recém-consagrado campeão brasileiro. Difícil para ele é compreender que, no Brasil, um clube pode ser campeão nacional sem ser necessariamente o melhor, tendo sorte em um jogo, por exemplo. E mesmo um campeão com méritos é capaz de se desfigurar completamente em 15 dias pela falta de planejamento e venda dos principais jogadores.
Nessas horas, dá para perceber que as, digamos, particularidades do futebol brasileiro distorcem a lógica, transformam o óbvio em ingenuidade e o errado em “coisas da vida”. Bem, o mesmo Fluminense e o Grêmio foram semifinalistas do Brasileirão do ano passado. Hoje, estariam rebaixados para a Série B.
Não mantive contato com nenhum dos dois colegas europeus citados acima. Mesmo assim, creio que o Bruno já pode entender melhor como os clubes brasileiros caem vertiginosamente pela falta de planejamento. Espero que, caso esses times não reajam, o Vincent não tenha de compreender os motivos de mais uma virada de mesa.
Ubiratan Leal
Imagens: Verdão e Lancenet