A cidade do Rio de Janeiro ficou separada do restante do Estado até 1975, com a extinção da Guanabara. Nem todos lembram, mas essa divisão geográfica também foi respeitada no futebol. Assim, os grandes clubes da cidade disputavam o Campeonato Carioca, sempre entre os principais do país. Enquanto isso, as cidades do interior disputavam um outro Estadual, o Campeonato Fluminense, hoje praticamente esquecido no Brasil.
Na verdade, era um campeonato semi-profissional que, como todos os estaduais, padeceu por muito tempo com diferentes ligas e, como conseqüência, mais de um campeão ao ano. Para piorar, muitos desses times deixaram de existir ou se tornaram apenas clubes sociais e equipes mais tradicionais do Grande Rio disputavam o Campeonato Carioca, ajudando no esvaziamento do torneio fluminense. Mesmo assim, ainda é possível ver sinais de que havia vida futebolística no interior do estado do Rio de Janeiro.
Algumas pistas são dadas pelo finado Campeonato Brasileiro de Seleções, disputado entre 1922 e 1963. Quem observar a lista de participantes verá que, ao pé da letra, o Rio de Janeiro não conquistou nenhum título. Os registros da época dão conta de títulos ao Distrito Federal que, antes da fundação de Brasília, era a cidade do Rio. Naqueles mesmos torneios, havia uma equipe que defendia o nome do Estado do Rio. Houve uma edição extra do Brasileiro de Seleções, em 1987. O Estado do Rio – já unido com a Guanabara – foi representado por um clube do interior, o Americano de Campos. E o curioso é que esse Rio de Janeiro foi campeão, batendo São Paulo na final.
O complicado é entender como era a estrutura do futebol nesse estado esquecido. As competições só foram organizadas efetivamente entre 1952, com a chegada do profissionalismo ao estado, e 1975, ano da unificação com a Guanabara. Nesse período, a Federação Fluminense de Desportos tentava unificar o estado, mas esbarrava nas Ligas das cidades de Niterói e de Campos, já tradicionais e com competições próprias. Por isso, nos primeiros anos havia 3 campeões fluminenses, mas apenas um (o da FFD) era oficial.
Isso só acabou em 1958, com a extinção do departamento de futebol profissional da federação e a definição do campeão em um jogo entre o campeão campista e o niteroiense. Mais tarde, a FFD voltou a organizar competições de futebol, permitindo que clubes de outras cidades pudessem também disputar o título.
Ainda assim, o grande clássico fluminense vinha de Campos. Tanto nos jogos pela Liga de Campos quanto pelos Campeonatos Fluminenses, Goytacaz e Americano sempre disputam partidas cheias de rivalidade e tensão. Os azuis alegam ter a maior torcida da cidade (e a quinta do atual Estado do Rio, atrás apenas dos 4 grandes), mas o Americano conta com mais títulos municipais e melhores resultados contra os grandes da cidade do Rio.
Como o Goytacaz está em uma má fase que já dura mais de uma década, os clássicos têm rareado. Isso tudo se concentrou nas partidas pela Série C de 2003, realizadas há duas semanas. O Goyta venceu em casa, no estádio Ari de Oliveira e Souza, por 1x0. No jogo de volta, no estádio Godofredo Cruz, o Americano fez 1x0 aos 6 minutos do segundo tempo, mas os jogadores azuis reclamaram de um suposto impedimento do atacante alvinegro. Depois de muita confusão, o Goytacaz fez cai-cai para interromper o jogo com aquele placar. O Americano foi declarado vencedor na justiça.
Os fluminenses na Taça Brasil
Da mesma forma como o Estado do Rio tinha uma equipe no Campeonato Brasileiro de Seleções, seria lógico que houvesse um clube fluminense na Taça Brasil, um precursor da Copa do Brasil. Os resultados espelhavam a falta de competitividade do futebol local.
Em 1959, o alvirrubro Manufatura perdeu na primeira fase para o Rio Branco-ES (0x3 e 0x1). No ano seguinte, o Fonseca foi massacrado pelo Fluminense (0x3 e 0x8). Os alvinegros de Niterói voltaram em 1961 e arrancaram um empate sem gols do América carioca em casa, mas perderam por 0x3 na Guanabara.
Já era um sinal de evolução, que ficou mais claro na campanha do Rio Branco de Campos em 62. Após um empate (1x1) e uma vitória (2x1), os fluminenses eliminaram o Santo Antônio-ES na primeira fase. Na fase seguinte, os mineiros do Cruzeiro. Os campistas até seguraram um empate e um gol na partida de ida, mas foram eliminados após o 0x1 de Belo Horizonte.
Mas aí começou uma sina dos fluminenses contra os capixabas. Em 1963, o Fonseca pegou o Rio Branco-ES. Uma vitória para cada lado (1x0 Fonseca e 3x0 Rio Branco) e um jogo extra (3x3) depois e os niteroienses estavam fora. O clube capixaba também foi o algoz do Goytacaz (1x1 e 0x3) e a Desportiva eliminou o Eletrovapo de Niterói (1x1, 2x2 e 1x1) nos anos seguintes.
Em 1966, foi a vez de o Americano de Campos estrear. Foi a melhor campanha de uma equipe fluminense da Taça Brasil. Na primeira fase, os alvinegros acabaram com o tabu contra os capixabas e passou pela Desportiva (2x2 e 3x0). Na fase seguinte, a vítima foi o Anápolis-GO (0x2, 2x1 e 3x2). O azar do Americano foi encarar o Cruzeiro nas quartas-de-final. Os mineiros arrasaram os campistas, vencendo por 4x0 em Campos e por 6x1 em Belo Horizonte. Os cruzeirenses estavam no auge e se tornariam campeões daquele torneio, após bater o Santos de Pelé - então o pentacampeão da Taça Brasil – por 6x2 e 3x2.
A fórmula de disputa mudou um pouco em 1967, com grupos na fase inicial. E os fluminenses se deram bem. O Goytacaz ficou em primeiro na Zona Central, com 3 vitórias, 2 empates e uma derrota, ficando na frente de Rio Branco-ES, Goiás e Rabello-DF. Mas foi só, porque o Atlético-MG venceu os campistas duas vezes (2x1 e 5x1) na etapa seguinte.
A última experiência fluminense na Taça Brasil foi com o Goytacaz em 1968. Os azuis de Campos eliminaram a Desportiva-ES na primeira fase (0x0 e 2x1) e só caíram após o jogo extra contra o Atlético-GO (2x0, 1x2 e 0x2).
Sala de troféus do Central de Barra do Piraí, campeão fluminense em 1970. Bem estruturado na parte social, o clube do sul do Estado tem planos de voltar ao futebol profissional
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Veja a lista de campeões fluminenses:
1952 – Adrianinho (Engenheiro Paulo de Frontin); 1953 – Barra Mansa (Barra Mansa); 1955 – Frigorífico (Mendes); 1956 – Coroados (Marques de Valença); 1958 – Manufatura (Niterói); 1959 – Fonseca (Niterói); 1961 – Fonseca; 1962 – Fonseca; 1963 – Goytacaz (Campos); 1964 – Americano (Campos); 1965 – Americano; 1966 – Goytacaz; 1967 – Goytacaz; 1968 – Americano; 1969 – Americano; 1970 – Central (Barra do Piraí); 1971 – Central; 1972 – Barbará (Barra Mansa); 1973 – Barbará; 1974 – Sapucaia (Campos); 1975 – Americano; 1978 – Goytacaz.
Obs.: não foram realizados campeonatos em 1954, 1957 e 1960. O campeonato de 1978 foi extra, já que a cidade e o estado do Rio de Janeiro já haviam se unido.
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Desses times, apenas Goytacaz, Americano e Rio Branco, todos de Campos, ainda estão no profissionalismo, sendo que apenas o alvinegro está na elite do Estado. O Barra Mansa e o Central de Barra do Piraí têm planos de voltar. Os demais foram extintos ou sobrevivem apenas como clubes sociais, participando, no máximo de ligas amadoras regionais.
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Não dá para falar no futebol fluminense sem lembrar das ligas de Campos e Niterói. Aí vai a lista de campeões:
Liga de Campos
1914 – Goytacaz; 1915 – Americano; 1917 - Rio Branco; 1918 – Campos; 1919 – Americano; 1920 – Goytacaz; 1921 – Americano; 1922 – Americano; 1923 – Americano; 1924 – Campos; 1925 – Americano; 1926 – Goytacaz; 1928 - Rio Branco; 1929 – Rio Branco; 1930 – Americano; 1931 - Rio Branco; 1932 – Campos e Goytacaz; 1933 – Goytacaz; 1934 – Americano; 1935 – Americano; 1936 – Aliança; 1937 – Aliança; 1938 – Aliança; 1939 – Americano; 1940 – Goytacaz; 1941 – Goytacaz; 1942 – Goytacaz; 1943 – Goytacaz; 1944 – Americano; 1945 – Goytacaz; 1946 – Americano; 1947 – Americano; 1948 – Goytacaz; 1949 - Rio Branco; 1950 – Americano; 1951 – Goytacaz; 1952 - São José; 1953 – Goytacaz; 1954 – Americano; 1955 – Goytacaz; 1956 – Campos; 1957 – Goytacaz; 1958 - Rio Branco; 1959 – Goytacaz; 1960 – Goytacaz; 1961 - Rio Branco; 1962 - Rio Branco; 1963 – Goytacaz; 1964 – Americano; 1965 – Americano; 1966 – Goytacaz; 1967 – Americano; 1968 – Americano; 1969 – Americano; 1970 – Americano; 1971 – Americano; 1972 – Americano; 1973 – Americano; 1974 – Americano; 1975 – Americano; 1976 – Campos; 1977 - Americano e Goytacaz.
Liga de Niterói
1953 – Fonseca; 1955 – Fonseca e Cruzeiro; 1956 – Serrano.
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A Liga de Campos teve tanta importância que o maior orgulho do Americano é o eneacampeonato campista. Inclusive, são esses 9 títulos que ornamentam o distintivo do clube (acima), junto com o Módulo Azul do Brasileiro de 87 (equivalia à Segunda ou à Terceira Divisão, dependendo do ponto de vista do leitor em relação ao Módulo Amarelo e a Copa União).
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Aliás, a equipe que posa para a foto lá do alto é a do Americano que conquistou o eneacampeonato da cidade de Campos.
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Apesar das glórias fluminenses e campistas, o Americano hoje é mais conhecido pelos aspectos negativos. A imagem do clube está diretamente ligada à do presidente da Federação Estadual do Rio de Janeiro, Eduardo “Caixa d’Água” Viana, um dos dirigentes que mais lutam contra a modernização do futebol brasileiro.
Ubiratan Leal
Imagens: Americano, Carlos Grevi / O Diário, Felipe de Souza / Diário do Vale e FutNet