Os pontos corridos tradicionais – em dois turnos – já foram abandonados. Não foi uma simples reprovação á fórmula, até porque ela permanece de alguma forma em muitos dos nossos vizinhos. O que fica clara é a busca por mais jogos e criar campeões diversos mantendo o interesse dos torcedores de forma meio forçada em muitos casos.
Tudo começou na Argentina. Lá, nunca foi estranho haver dois campeões no mesmo ano. Isso era realidade na época dos Campeonatos Metropolitanos e Nacionais. Na prática, valiam a mesma coisa, até porque clubes de cidades fora da região da cidade de Buenos Aires como Estudiantes, Rosário Central e Colón disputavam o metropolitano. Ainda assim, sempre se preservaram os pontos corridos.
De qualquer forma, nos anos 80, os argentinos adotaram o calendário europeu e ficaram com apenas um campeonato ao ano, em dois turnos, sem fase final. Em 1991, resolveram inovar, já tentando dar motivação para times que ficarem para trás logo no início do campeonato. Fizeram os campeões de cada turno se enfrentarem em uma final, e o Newell’s Old Boys bateu o Boca Juniors (foto). Foi o passo derradeiro para uma nova divisão. Desde então, são dois campeonatos argentinos por ano: o Clausura e o Apertura. Ambos disputados em pontos corridos em jogos apenas de ida.
Com o encurtamento dos campeonatos, um time que inicia mal volta a brigar por algo apenas 6 meses depois. Com a experiência (que, para mim, ainda é esquisita) deu relativamente certo, os demais países da região resolveram ir atrás. É importante ver isso para mostrar como, na América do Sul, a liga nacional argentina tem mais influência que a brasileira. Desnecessário dizer que a organização é a causa dessa preferência pelos nossos vizinhos do sul.
Assim, pipocaram Torneos Aperturas e Clausuras pela América do Sul. Cada um com sua fórmula. No Peru, no Equador e no Paraguai, cada um desses campeonatos tem dois turnos em pontos corridos. A diferença básica é que, com duas competições ao ano, dobrou-se o número de jogos por equipe. Resultado (em teoria): mais arrecadação. Os uruguaios resolveram seguir o modelo argentino, com cada torneio tendo jogos apenas de um turno. A diferença é que os cisplatinos promovem uma final, um jogo entre os campeões de cada campeonato para, daí sim, definir o campeão nacional.
Mas o caso mais estranho é o do Chile. Lá, os 16 clubes (divididos em 4 grupos) se enfrentam em turno, dentro e fora da chave. Os 12 primeiros passam de fase e fazem 6 jogos eliminatórios em ida e volta. Os vencedores vão para as quartas-de-final com os dois perdedores de melhor campanha. Daí, sim, a coisa volta ao normal, com um mata-mata simples e tradicional em dois jogos.
Deve ter muito brasileiro já sentindo que há coisas piores que os regulamentos do Brasil. Porém, é importante salientar que, nesses países, há poucos clubes grandes (excetuando a Argentina) e o desequilíbrio das ligas é maior. Além disso, o futebol brasileiro é uma potência financeira em comparação ao de nossos vizinhos de continente.
No fundo, o que fica claro é que todos os países sul-americanos estão sentindo a necessidade de um torneio como a Copa Sul-Americana. Ela dará mais oxigênio aos pelotões intermediários de todo o continente, revitalizando as ligas nacionais. O problema é que o torneio não começou bem, principalmente no Brasil. E, se o Brasil boicotar esse campeonato como já fez com a finada Copa Conmebol, poderá afundar ainda mais o futebol dos vizinhos, além de dar menos chances de os pontos corridos daqui funcionarem.
Um jogo entre líderes como esse Alianza Lima x Alianza Atlético, no Peru, atrai um público razoável. O problema está em motivar o meio da tabela
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Se já não bastasse o fato de Brasil e Argentina já serem superiores, os rivais mais tradicioais foram eliminados de forma patética. O Nacional do Uruguai não passou pelo Libertad, do Paraguai, mesmo depois de ganhar por 3x0 em Montevidéu. Os chilenos da Universidad Católica também caíram melancolicamente, tomando 4x0 do Cienciano do Peru (foto no alto). Por fim, o São Paulo evitou o San Lorenzo, que sucumbiu diante do The Strongest, da Bolívia. Ou seja, tirando as duplas Santos-São Paulo e River Plate-Boca Juniors, sobrou pouca coisa nessa Copa Sul-Americana. Talvez o Atlético Nacional de Medellín.
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Uma coisa “estranha”. Só Brasil, Argentina, Uruguai e Bolívia enviaram seus principais clubes nessa Copa Sul-Americana. Todos os outros países foram representados por clubes que não disputaram a Libertadores desse ano.
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Antes que alguém se manifeste, o México é outro país que entrou na onda dos dois campeonatos por ano (Verano e Invierno). O regulamento dos mexicanos é muito estranho, lembra o chileno, mas a inspiração é claramente nas ligas profissionais dos Estados Unidos.
Ubiratan Leal
Imagens: Conmebol, Newell’s Old Boys site não-oficial, Fútbol Peruano e Dale Albo