A TV brasileira nunca foi muito fiel aos campeonatos europeus, ou vice-versa. Há períodos de namoro intenso. Há outros em que o encontro é quase que ocasional, como se um tentasse ignorar a existência do outro. No meio desse relacionamento ciclotímico fica o torcedor, que por vezes se vê órfão daquele campeonato que ele se acostumou a acompanhar. Bem, é justamente esse torcedor que deve ficar atento, pois a TV brasileira fez as pazes com o futebol do Velho Mundo.
A reconciliação começou no fim-de-semana de 18 e 19 de outubro, mas o passo definitivo será dado 7 dias depois. Sem menosprezar as transmissões do campeonato italiano na Rai, do português na RTPi, do francês na TV5 e do árabe na ART, o fato relevante é o investimento da ESPN (somando Brasil e Internacional) no futebol inglês, alemão, italiano, holandês, escocês e, agora, espanhol.
Para quem gosta de ver o que rola na Europa é ótimo. Basta dizer que o telespectador pode acordar no sábado, assistir à Bundesliga, emendar na Premiership, acompanhar rodadas dupla do Campeonato Espanhol e até arriscar o Português com o sotaque lusitano. Se esse telespectador for solteiro ou estiver querendo a separação, também pode aproveitar o domingo, com duas partidas da Liga Italiana e outra da Inglesa.
A importância dessas transmissões é que os telespectadores menos informados vão conseguir perceber que o Beckham não é só bonitinho, que o Kahn – quando não tem problemas de vista – é melhor que o Marcos, que a República Tcheca tem jogadores de altíssimo nível apesar de sua seleção sempre decepcionar, e que o futebol inglês há tempos descobriu que há outras jogadas, além do famoso “chuveirinho” na área. É, digamos, uma forma de reduzir o risco de cair nas armadilhas dos comentaristas do óbvio.
No aspecto informação, é importante salientar que, além da quantidade, a qualidade das transmissões melhorou muito. Além de se valorizar bastante o narrador e o comentarista que acompanha de perto o que ocorre em cada campeonato e não um generalista, que não se prepara especificamente para aquela transmissão, como se um Osasuna x La Coruña equivalesse a um Juventude x Palmeiras.
O uso de comentaristas com ligações pessoais com o país em questão também ajuda. As primeiras experiências (mantidas hoje pela ESPN Brasil) foram com o alemão Gerd Wenzel e o ítalo-brasileiro Sílvio Lancelotti. Muitos podem torcer o nariz para isso, preferindo os comentaristas mais “tradicionais” (se bem que Lancelotti, conhecido por muitos apenas pelo trabalho na área gastronômica, tem experiência com o futebol). Mas é inegável que apenas alguém com contato íntimo com a Alemanha pode dizer o que significa um Dortmund x Schalke ou um Bayern x München 1860 e quem não conhece bem a Itália não sabe bem quais as repercussões de um Juventus x Torino ou um Napoli x Milan. Por enquanto a ESPN Brasil só lançou mão desse artifício nos dois casos citados acima.
Retrospectiva
Fazia um certo tempo que não havia tanto futebol europeu na TV, isso desconsiderando a Copa (depois Liga) dos Campeões que, de uma forma ou de outra, sempre passou. Houve uma explosão logo após a Copa de 90. As TVs brasileiras talvez tentassem descobrir porque o Brasil já estava há 20 anos sem ganhar um Mundial. Nessa época, a Cultura transmitiu o Campeonato Alemão (anos depois arriscou com o Japonês), a finada Manchete investiu no Português, a Jovem Pan apostou no Argentino e a Bandeirantes (então o auto-intitulado “Canal do Esporte”) abusava, com o Italiano ao vivo, além de VTs de Inglês, Espanhol e Francês (depois ainda traria o Português).
Aos poucos esses torneios foram saindo da programação. A falta de espaço nas grades foi fatal, até porque muitos jogos eram passados em VT dias depois de realizados, quando todos já conheciam o resultado. A melhoria do futebol brasileiro também colaborou para reduzir as audiências dos campeonatos europeus.
A segunda onda chegou com os canais por assinatura. Por ter tempo disponível na programação e ter um público-alvo diferente, havia espaço para esses torneios. A Sportv apostou no Espanhol, a ESPN Internacional apresentava o Holandês e o Inglês e a ESPN Brasil tinha o alemão ao vivo, além de francês, inglês, holandês, argentino e espanhol em VT. Houve também a entrada de canais de outros países, destacadamente Rai (Itália), TVE (Espanha), RTPi (Portugal) e Canal de las Estrellas (México). Na TV aberta, a Bandeirantes seguia com o tradicional italiano, a Record chegou a apostar no jogo de domingo à noite do Italiano e algumas partidas do Alemão.
Depois de algumas temporadas, o futebol europeu voltou a minguar. A recém-criada PSN deu um novo fôlego ao comprar o Italiano, o Português, o Francês e o Mexicano, mas a falência da emissora norte-americana dois anos depois levou a quantidade de jogos por semana ao nível mais baixo em muito tempo. O problema é que o canal criado pela Hicks Muse comprara a exclusividade do Italiano para a América Latina e, como o espólio da PSN foi para a Fox Sports (que não atua no mercado brasileiro), o calcio só era transmitido pela Rai. Sobravam o Holandês e o Espanhol na ESPN Internacional, além de iniciativas intermitentes com o Alemão, o Inglês e o Argentino.
Basicamente, faltava aquela fidelidade citada no primeiro parágrafo desse texto. As emissoras (não por vontade delas, óbvio) não garantiam uma continuidade em muitos dos campeonatos europeus. Pelo cuidado com que a ESPN parece ter negociado com ingleses, italiano e espanhóis, dá para acreditar que dessa vez o assinante pode ficar mais tranqüilo no sofá.
Napoli x Juventus nos anos 80, quando o futebol italiano era programa obrigatório no domingo de manhã
Mais informações
Melhor do que passar os horários dos jogos, vamos deixar os links das emissoras: ESPN Brasil, ESPN Internacional, Rai, RTPi, TV5 e ART. Todos são navegáveis (mesmo o árabe e o francês) o suficiente para uma consulta na programação.
Maurício Aires e Ubiratan Leal
Imagens: BBC Sports, Osasuna e Rai Sport