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31/10/03

Cultura & Mídia

Jornalismo Esportivo

Não são poucos os estudantes que escolhem o curso de jornalismo na esperança de trabalhar em esportes. E não são poucos os que o fazem com pouquíssimas noções do que envolve a cobertura de uma partida de futebol ou de uma corrida de Fórmula 1 ou, pior, do processo de preparação de um noticiário esportivo. Para esse público, a editora Contexto publicou, na coleção Comunicação, o livro Jornalismo Esportivo, do jornalista Paulo Vinícius Coelho.

A escolha do autor foi feliz. Quem acompanha as transmissões da ESPN Brasil ou o jornal Lance já conhece Paulo Vinícius Coelho. Fanático por táticas, histórias, camisas ou qualquer coisa que envolva futebol, ele ganha espaço no jornalismo esportivo por ter uma visão diferente da convencional, procurando embasar suas opiniões em fatos, sem os preconceitos tão comuns na área. No entanto, por mais paradoxal que soe, o livro deve um pouco justamente pela ampla visão de seu autor.

A obra não é ruim, absolutamente. O problema é que PVC, como Paulo Vinícius é conhecido, por preferir análises sempre profundas, gosta de explicações longas (no bom sentido) e bem encadeadas, deixando poucas brechas ou pensamentos vagos pelo caminho. Mas o objetivo do livro – dar uma introdução rápida e de fácil leitura, para iniciantes no jornalismo esportivo – não deu espaço às argumentações do autor. Parece que PVC queria falar melhor cada conceito presente no livro, mas não pôde. Dá uma sensação de que ele sabe mais do que escreveu.

Ainda assim, no final das contas, o estudante que pegar esse pequeno livro terá um bom apanhado das questões mais importantes do jornalismo esportivo. Nas páginas pode-se encontrar texto sobre preconceito que o jornalista esportivo sofre diante de profissionais de outras editorias, como alguém resolve entrar nessa área, mercado de trabalho, tratamento a outros esportes, não apenas ao futebol, diferença entre ser um torcedor informado e entender de futebol, particularidades de cada meio de comunicação, questões do processo jornalístico (pauta, apuração, fonte, redação) e, claro, o dilema de o jornalista revelar ou não o time de sua preferência. Mesmo com tantos tópicos, é possível ler a obra em poucas horas, que com certeza não serão em vão.


Se algum dos leitores dessa resenha a está levando à sério, fica a sugestão: leia com atenção triplicada aos capítulos que tratam de pauta, de como montar uma redação e outros relativos à produção jornalística diretamente. A mensagem transmitida por PVC nesses trechos é tão importante quanto ignorada. Por isso que pululam reportagens equivocadas ou sem substância. Muitos acham que noticiar errado é passar uma informação mentirosa. Não é bem assim. Dar uma informação verdadeira, mas sem conteúdo (ou com conteúdo torto) também é errado. Como já lembrou a internacionalmente premiada propaganda “Hitler” do jornal Folha de São Paulo, veiculada há mais de 10 anos.

Por fim, dois parágrafos ao último capítulo, um estudo da criação e desenvolvimento do diário Lance!. Por ter vivido o processo intimamente, não faltam informações aí, o que é ótimo. Ainda assim, é importante salientar que o envolvimento direto de PVC com o jornal não impediu que ele criticasse duramente o veículo em diversas passagens, o que também é louvável. Talvez por isso, inclusive, que a resenha da revista Lance a + tenha sido tão dura a esse livro.

Ainda assim, seria interessante se houvesse outros veículos retratados. As realidades comercial e jornalística do rádio, da televisão, da internet e das revistas são bastante diferentes. Até porque, vendo o objeto de estudo de fora, sem envolvimento profissional direto, a abordagem também mudaria. O que só acrescentaria à obra.

A conclusão a que se chega ao ler “Jornalismo Esportivo” é que Paulo Vinícius Coelho fica devendo uma obra mais completa, por mais que essa tenha inegáveis méritos.

Ubiratan Leal

Imagens: Siciliano e ESPN Brasil

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