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14/10/03

Cultura & Mídia

Futebol – O Brasil em Campo

Assim que decidi escrever sobre "Futebol - O Brasil em Campo", uma definição clara, sintética e verdadeira não saiu da minha cabeça. Por isso, não consigo deixar de dizer que o livro do jornalista inglês Alex Bellos pode ser considerado a “grande reportagem” do futebol brasileiro. Na realidade, esses adjetivos não são meus, mas do comentarista Paulo César Vasconcellos, da ESPN Brasil, que escreveu isso em alguma edição perdida do diário Lance. E ele está certo.

Quem não é muito íntimo dos jargões jornalísticos pode não captar exatamente o que isso significa, já que o termo não é completamente auto-explicativo (grande reportagem é mais que uma reportagem de tamanho avantajado). Ainda assim, dá para ter uma boa idéia do que o comentarista quis dizer. De forma resumida, nessa obra é possível ver pautas diferentes, apuração / investigação cuidadosa, abordagem ampla e completa e contextualização social e histórica. Por isso tudo, dentro de seu objetivo editorial, é quase que um tratado sobre a relação do brasileiro com o futebol.

Com um olhar que mistura curiosidade, perplexidade e admiração (o que dificilmente um brasileiro conseguiria simplesmente por ter uma vista já viciada culturalmente), Bellos mostra como a sociedade brasileira está impregnada pelo futebol e como o futebol refletiu (dentro e fora dos campos) as características da cultura nacional. E só assim vemos como é praticamente impossível dissociar um do outro e como são tolos os que, em nome de um elitismo ou de uma pretensa intelectualidade, negam o futebol no contexto nacional.

As situações em que o casamento do esporte e da sociedade ocorre são inúmeras. Tantas a ponto de dificultar a investigação, pois não bastavam pequenos causos. O importante era achar o exemplo definitivo. Por isso, o inglês teve um trabalho quase arqueológico, descobrindo evidências enterradas em camadas de sedimentos históricos e culturais. Afinal, uma história em potencial acompanharia cada brasileiro, inclusive os que imigraram. Assim, o primeiro capítulo inicia nas improváveis Ilhas Faroe, arquipélago a meio caminho entre Escócia e Islândia.

Lógico que a maior parte das situações ocorrem no Brasil. Bellos correu atrás das origens britânicas do esporte no Brasil e como o “football” se transformou em “futebol” (ver mais explicações no último parágrafo), da derrota na Copa de 1950 e suas repercussões na vida nacional, do futebol no cotidiano indígena (coisa que nem no Brasil temos muita informação), do casamento de esporte e carnaval, de superstições, jogos exóticos que foram criados com a equação bola + gol, torneios amadores e, claro, dos cartolas. Mas nem a criação de duas CPIs no Congresso e os nomes estranhos dos jogadores escaparam do jornalista.

É importante, dentro disso tudo, que Alex Bellos é correspondente dos jornais ingleses The Guardian e The Observer no Rio de Janeiro. Inclusive, a idéia do livro partiu, segundo o próprio autor, do fato de ele mesmo se interessar pelo futebol daqui, escolhendo seu time local e freqüentando o Maracanã. Com isso, evitou-se erros de interpretações (apesar de escrever o livro em inglês, Bellos fala português) e, principalmente, preconceitos. Isso torna “Futebol – o Brasil em Campo” uma referência jornalística do país, mostrado de forma crítica, mas sem elementos que poderiam ser vistos por nós como “chovinismo do Primeiro Mundo”. Realmente, nesse livro, o Brasil não é exótico. É apenas diferente, com um charme próprio.

Não é de se estranhar que a versão inglesa tenha sido o livro sobre o Brasil mais vendido na terra da rainha. Em junho, foi lançada a quarta edição, com prefácio de Sócrates, atualização das informações e um capítulo sobre a Copa de 2002.

É difícil apontar problemas na obra e não me sinto na obrigação de fazê-lo. De qualquer forma, há uma pequena coisa que poderia melhorar: o título. A versão original (“Futebol – The Brazilian Way of Life”) é perfeita nesse quesito. O uso da palavra “futebol” em português já dá conta de como o jornalista inglês admite uma transcendência do esporte que praticamos aqui. Não é “football”, é “futebol”. São coisas diferentes. O primeiro é aquele jogo criado na Inglaterra vitoriana. O segundo é o esporte que os brasileiros reinventaram. O subtítulo “The Brazilian Way of Life” dispensa comentários longos, sintetizando o espírito da obra, de que o futebol é a forma de o brasileiro ser e viver. Por perder essas sutilezas, o título em português fica como ponto negativo. Mas é só isso.

Mais informações
O livro “Futebol – O Brasil em Campo” foi lançado durante a Copa de 2002 pela Jorge Zahar Editor. Possui 350 páginas contando os anexos. A versão original, em inglês, leva o nome de “Futebol- The Brazilian Way of Life”.

O autor criou também um site sobre o livro. Na verdade, se transformou em uma página sobre o futebol brasileiro voltada para estrangeiros e permite alguma interatividade.

Ubiratan Leal

Imagem: Siciliano

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