Foram tantas razões que não dá para apontar uma como determinante, mesmo porque Oswaldo se enrolou em alguns momentos e não deixou claro exatamente porque saía. Inicialmente, ele disse que a situação política ficara insustentável após o presidente Hélio Ferraz anunciar que não tentaria a reeleição. O treinador ainda teria tentado permanecer, mas as pressões internas foram se acentuando.
E como se daria essa pressão? Algumas pistas foram dadas. Oswaldo disse, sem nomear ninguém, que os jogadores são chamados de delinqüentes, transviados e bêbados, mas seriam eles que sofreriam, lutariam e ganhariam títulos. Nesse momento, lembro-me de uma declaração de um profissional na administração de clubes que disse que o Flamengo só seria um time de massa na arquibancada, pois no conselho e na diretoria todos olhariam para a marca da roupa que as pessoas vestem.
Claro que é uma metáfora, mas fica claro que não é difícil membros da cartolagem rubro-negra (contando oposição, situação e neutros) ficarem de má vontade com a equipe e a comissão técnica. E, além da pressão direta, isso é obviamente passado para os torcedores, que, com justiça ou não, já tratou de chamar um grupo de atletas de “turma do chinelinho”, por estar sempre no departamento médico (supostamente por comodismo).
A versão da luta pelo poder na Gávea mostraria um certo apoio do treinador ao dirigente máximo do rubro-negro, o que pode até ser verdade. Mas, aos poucos, o próprio Oswaldo soltou informações que, se não negam a afirmação anterior, deixam uma dúvida no ar. As mais contundentes foram a respeito do não pagamento de salários, a falta de infra-estrutura de trabalho e de um contrato de trabalho.
O técnico poderia até estar tomado pela emoção e, assim, ter se exaltado. Mas não foi o que pareceu, o que dá uma certa credibilidade a afirmações como “tenho 14 meses de salários atrasados entre Vasco, Fluminense, São Paulo e Flamengo”, “depois que o Flamengo se mudou para o Fla-Barra, a Gávea foi deixada de lado” e “um fenômeno estranho foi que meu contrato em Flamengo, São Paulo e Fluminense nunca ficou pronto”. Quem acompanha o cotidiano dos clubes brasileiros de perto, principalmente dos grandes cariocas, sabe que isso não é novidade. Mas poucas vezes alguém “do meio” falou de forma tão clara e aparentemente insuspeita. O mais curioso é que, por mais que Oswaldo tenha falado, os próprios rubro-negros trataram de mostrar como o ambiente anda tumultuado na Gávea ao gerenciar a crise da forma menos profissional possível.
Tudo começou na própria veiculação na imprensa da saída do técnico. Segundo Oswaldo, ele próprio convocou, no sábado, uma reunião com o gerente-executivo Radamés Lattari e com o supervisor de futebol Paulo Angione para informar de sua decisão. No dia seguinte, a notícia estava na coluna de Renato Maurício Prado, de O Globo.
O vazamento da informação na véspera do clássico – que me desculpem os tricolores – de maior rivalidade do Rio de Janeiro já foi suficiente para desestabilizar a frágil estrutura organizacional do Flamengo. Nos vestiários, ao anunciar a saída de Oswaldo, o assessor de comunicação do clube afirmou que a decisão era do clube, descontente com o fato de o treinador ter espalhado horas antes de um jogo com o Vasco. A intenção de alguém do Flamengo (quem?) de tomar para si a iniciativa da demissão foi, no mínimo, infantil. Ficou claro, depois, que Oswaldo saiu porque quis e, se alguém divulgou essa informação, não foi ele (o colunista de O Globo não citou Oswaldo como fonte em nenhum momento).
Na segunda-feira, 13, foi a vez de Radamés Lattari (ao lado) se demitir. O ex-treinador da seleção masculina de vôlei confirmou a versão de Oswaldo a respeito da tal reunião que eles teriam tido com Angione no sábado. Mas Lattari disse que, por questão de respeito profissional, não manteve o sigilo da conversa e comunicou o vice-presidente de futebol Eduardo Moraes, que teria, por sua vez, falado com Hélio Ferraz. Deu para perceber que houve tudo, menos segredos, nessa história.
Ainda na segunda, Zico (que não tem participação direta na política rubro-negra, mas é quase que uma entidade no imaginário da torcida) disse estar desapontado com Lattari e pediu desculpas à torcida por declarar apoio ao ex-treinador de vôlei. Além disso, Moraes insistiu ao acusar Oswaldo de pedir demissão pelos jornais e de mentir nas questões de salário e contrato. De acordo com o vice-presidente do futebol rubro-negro, a documentação estaria pronta há 25 dias e o treinador que não a assinara e metade dos salários de agosto já estaria paga. O curioso foi o tom desafiador de Moraes ao dar essa última informação, já que, mesmo que seja verdade, é importante lembrar que já estamos em outubro.
Já se definiu que Waldemar de Oliveira, irmão e ex-auxiliar de Oswaldo, comandará o Flamengo até o fim do Brasileirão. Mas isso é menos importante no momento, pois os rubro-negros não lutam por mais nada nesse torneio. O que os flamenguistas de verdade devem fazer é aproveitar que a situação institucional do clube ficou bastante exposta para analisar e pensar. E é bom que seja feito algo logo, antes que a campanha eleitoral (que já começou) enfraqueça ainda mais a (pouca) organização que ainda resta na Gávea.
Com toda essa crise, poucos ainda se lembram que o Flamengo venceu o maior clássico do Rio nesse fim-de-semana
Ubiratan Leal
Imagens: Pele.net, Alexandre Cassiano e Ivo González / O Globo e O Dia