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30/09/03

O mundo não é uma bola...

Um dos gols mais simbólicos da semana


Nesse sábado foi realizado o mais importante clássico do Vêneto. O Vicenza, única equipe da região a conquistar a Copa da Itália, recebia o Verona, o único campeão nacional do nordeste italiano. Os confrontos entre as equipes é marcado por muita rivalidade e animosidade – às vezes exagerada – das torcidas. E mesmo ficando no quase anonimato por valer pela desmoralizada Série B italiana, um fato de certa forma histórico e, principalmente, simbólico ocorreu no estádio Romeo Menti naquela noite. Um gol, extremamente simples, mas que dificilmente seria marcado em um melhor momento.

O placar marcava um empate em 1x1. O meia veronês Salvetti faz a jogada e passa para Pisanu, que vai para a ponta e cruza. Confusão na área vicentina e a bola sobra para o senegalês Papa Waigo N’Diaye faz o gol da virada dos gialloblù. Foi o primeiro gol de um negro com a camisa do Verona, clube que conta com uma das torcidas mais racistas da Itália. E foi um gol importantíssimo, pois deu uma vitória fora de casa no maior rival (o Chievo é um fenômeno novo e ainda não há tanta rixa entre os times scaligeri) e colocou o Verona entre os 6 que podem subir para a Série A. Não quer dizer que, a partir desse gol, os conceitos ideológicos dos extremistas veroneses mudarão. Mas dará mais argumento para a facção não-racista da torcida local.

Aí, é importante contextualizar um pouco. Não é de hoje que o Vêneto é visto como a região mais racista pelos italianos. Por isso, o fato de os ultras gialloblù vaiarem cada jogador negro que pisa no gramado do estádio Marc’Antonio Bentegodi apenas reforça essa imagem. As vaias, inclusive, já motivaram diversas multas contra o clube que, a bem da verdade, nunca fez nada de efetivo para combater tais manifestações.

No entanto, há uma grande quantidade de vênetos (e veroneses) que rechaçam essa fama e buscam provar que essa visão não passa de estereótipo. Uma das razões é ideológica: não ser visto como racista simplesmente porque alguns torcedores da cidade o são. O outro motivo é futebolístico: por causa do racismo, o Verona se tornou um dos clubes mais odiados da Itália. E isso impulsionou muito o Chievo, visto por todos como o clube não-racista de Verona. E o medo de o Verona ficar cada vez mais à sombra do até dois anos pequeno conterrâneo assusta os gialloblù. Por isso, os veroneses não-racistas tentam, sempre que possível, incentivar demonstrações de tolerância para mostrar que o outro lado representa a minoria.

Quando o atacante, hoje com 19 anos, começou a se destacar nas categorias menores do Verona, o confronto entre os lados ganhou novos argumentos. Quando estreou na temporada passada, a parte racista não perdoou nem o fato de o jogador defender as cores locais e o vaiou impiedosamente. Em resposta, a “facção” progressista tratou de eleger Waigo a maior esperança para o Verona retornar à elite italiana.

Até sábado, ainda dava para pensar que isso poderia ser passageiro. Com o gol contra o Vicenza, isso fica mais difícil. A facção racista da torcida logo terá de decidir se “aceita” os gols de Waigo ou se insiste na intolerância. Todos, incluindo a região do Vêneto, a cidade de Verona e os torcedores do clube, esperam que os ultras façam a escolha certa. Seria o melhor para eles próprios. Continuar com manifestações ridículas só deve deixá-los mais isolados.

Ubiratan Leal

Imagens: Verona

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