Estádio Renato Dall’Ara, Bolonha, última rodada do campeonato italiano de 1978-79. O Bologna empata com o Perugia e escapa do rebaixamento, porém, quem faz história é o clube visitante. Após 30 jogos, o time da capital da Úmbria alcançou um feito até então inédito, terminar o duro Campeonato Italiano invicto. O que mais surpreendia era o fato de uma equipe regional, que nunca conseguira uma vaga em competições internacionais, ser a responsável pela façanha.
Como os próprios torcedores dizem, foi um milagre. O Perugia vinha de um sexto lugar na temporada anterior e não investiu nada fora do normal. Até o técnico, Ilario Castagner, era o mesmo. Para piorar, o clube ainda estava abalado pelo morte, no ano anterior, do meia Renato Curi, que hoje dá nome ao estádio da cidade. Mesmo assim, o Perugia nem pôde ganhar embalo com o tempo até se tornar forte. Teve de encarar as pedreiras logo de cara.
A estréia foi com o Lane Rossi Vicenza (hoje só Vicenza). O clube do Vêneto nunca foi um grande, mas, naquele ano, era uma força. No ano anterior, os vicentinos vinham da segunda divisão e surpreenderam ao ser vice-campeões (melhor colocação de um caçula até hoje na Itália) nacional e fazer o artilheiro do certame, Paolo Rossi. Mas os histórico recente foi menos importantes e os grifoni (como são conhecidos os peruginos) venceram por 2 x 0.
Na rodada seguinte, o adversário era a Internazionale, em Milão. Os nerazzurri saíram na frente com Pasinato, mas Cacciatori empatou a 13 minutos do fim. Dessa forma, os vermelhos voltavam com um importante ponto do Giuseppe Meazza. O terceiro jogo era em casa contra a Fiorentina. O clube toscano não tinha tanta força, mas também começara bem a temporada. O jogo não foi fácil, tanto que o único gol só veio de pênalti.

Com cinco pontos em três jogos (a vitória só valia dois naquela época), o Perugia era líder ao lado de Milan e Torino. Mas a afirmação das qualidades dos grifoni só viria na quarta partida. O adversário era a Juventus de Zoff, Gentile, Scirea, Causio, Tardelli, Virdis e Bettega, campeã no ano anterior e treinada pelo já vitorioso Giovanni Trapattoni. Os umbros terminaram o primeiro tempo na frente, com um gol de Speggiorin. Cuccuredu empatou para os torineses, mas Vannini (foto) confirmou o triunfo do Perugia. No mesmo dia, o Torino perdeu do Ascoli, o que deixou peruginos e milanistas no comando da tabela, fato que se manteria até o final do campeonato.
Na rodada seguinte, o Perugia dá os primeiros sinais de um problema que seria crucial na sorte do clube no torneio, a vocação em empatar. Após ficar no 0 x 0 com o Avellino em casa, o Perugia perdeu a ponta para o Milan. Mas uma derrota rossonera para a Juventus na 6ª rodada colocou os umbros na liderança isolada. Na décima jornada, os milanistas receberam os peruginos. Àquela altura, os dois clubes dividiam a liderança. Era a oportunidade ideal para “desmascarar” a zebra vinda da Úmbria. No entanto, o Perugia marcou seu gol logo aos 4 minutos por meio de Vannini. A partida foi equilibrada e o gol do rossonero Antonelli fez justiça ao que se fez em campo. O 1 x 1 mantinha ambos times na liderança.
Era o último contato do Perugia com a ponta. O Milan venceu as 5 partidas restantes no turno, enquanto que os grifoni empataram três jogos no mesmo período. Durante todo o returno, a diferença de pontos variou entre três e quatro pontos. Apenas nas 24ª e 25ª rodadas é que o Perugia ficou a duas unidades do Milan. Nada que tirasse a tranqüilidade dos milaneses.
Na realidade, o que prejudicava os peruginos era a quantidade enorme de empates. Foram 19 em 30 jogos. Muitos não tinham justificativa, como os dois 1 x 1 conseguidos diante do Verona, o último colocado com 15 pontos e dono de uma campanha sofrível. Assim, o Milan foi campeão com uma rodada de antecedência e três derrotas. O Perugia, invicto, ficou com o vice. Mas a falta do título não tirou o lugar dos grifoni na história do calcio. Até hoje, aquele time é conhecido como o “Perugia dos Milagres”.

O meia Salvatore Bagni foi o integrante do “Perugia dos Milagres” que mais se destacou após a temporada 1978-79. Ele estava ao lado de Maradona, Ferrara e Carnevale no Napoli campeão italiano de 1987.
*
O time-base daquele Perugia histórico era: Malizia; Ceccarini, Della Martira, Nappi e Frosio; Dal Fiume, Redeghieri, Butti e Bagni; Casarsa e Speggiorin (Vannini)
*
O Perugia passou os 30 jogos invicto em 1978-79, mas a invencibilidade, na realidade, foi maior. Começara na última rodada da temporada anterior, com a vitória em casa sobre o Pescara e continuaria nas 6 primeiras rodadas do campeonato de 1979-80. Veja a série invicta do Perugia:
1977-78: Pescara (2 x 1); 1978-79: Lane Rossi Vicenza (2 x 0 e 1 x 1), Internazionale (1 x 1 e 2 x 2), Fiorentina (1 x 0 e 1 x 1), Juventus (2 x 1 e 0 x 0), Avellino (0 x 0 e 1 x 0), Atalanta (2 x 0 e 2 x 0), Ascoli (2 x 0 e 0 x 0), Roma (0 x 0 e 1 x 1), Torino (0 x 0 e 0 x 0), Milan (1 x 1 e 1 x 1), Napoli (1 x 1 e 2 x 0), Catanzaro (1 x 0 e 1 x 1), Verona (1 x 1 e 1 x 1), Lazio (0 x 0 e 2 x 0) e Bologna (3 x 1 e 2 x 2); 1979-80: Catanzaro (0 x 0), Bologna (1 x 1), Udinese (2 x 0), Lazio (1 x 1), Milan (1 x 1) e Napoli (1 x 1)
*
E quais foram as derrotas que demarcaram tal invencibilidade de 37 jogos? Na penúltima partida de 1977-78, o Perugia perdeu de 1 x 3 do Lane Rossi Vicenza (dois gols de Paolo Rossi). Em 1979-80, a série imbatível dos grifoni acabou em casa, com uma derrota de 0 x 2 para o Torino. Naquele ano, o Perugia contava com Paolo Rossi. Foi a última temporada disputada pelo centroavante antes de ser suspenso por participação na máfia da loteria esportiva italiana.
*
Mas a invencibilidade não foi o único fato que deu destaque ao Perugia. Na temporada 1975-76, os vermelhos venceram a então líder Juventus por 1 x 0 na derradeira rodada e deram ao Torino seu último título nacional. O curioso é que, em 1999-2000, o clube da Úmbria repetiu o feito. Bateu a quase campeã Juventus, novamente por 1 x 0, e deu o título à Lazio.
*
Atualmente, o Perugia se destaca mais pelas maluquices de seu presidente, Luciano Gaucci. Depois da Copa de 2002, ele demitiu o sul-coreano Ahn Jung-Hwan por marcar o gol que desclassificou a Itália do Mundial. Voltou atrás, mas, daí, foi o atacante que não quis saber do Perugia. Outros factóides criados por Gaucci: a contratação do atacante líbio Al-Saadi Khaddafi, filho do ditador Muamar Khaddafi, e a declaração de que contrataria uma mulher para compor o elenco. Vale lembrar que, em 1978, o presidente do clube era Franco D’Attoma.
*
O treinador Serse Cosmi também merece uma nota, essa positiva. Poucos achavam que Cosmi sobreviveria ao temperamento de Gaucci, até porque não tinha experiência em clubes da primeira divisão. Já comanda o clube da Úmbria pela a terceira temporada seguida, sem jamais deixar o time perto do rebaixamento.
*
Em 1991-92, o recorde do Perugia foi igualado. O Milan passou as 34 partidas daquela temporada sem perder. E os milaneses têm mais argumentos em um eventual desempate: conquistaram efetivamente o título daquela temporada, jogaram mais partidas (já que o Italiano de 79 tinha apenas 16 equipes) e ficaram mais 23 jogos sem perder no campeonato seguinte. E o interessante é que, como a do Perugia, a invencibilidade milanista também caiu em casa, na derrota de 0 x 1 contra o Parma, gol de Asprilla.
Ubiratan Leal
Imagens: Perugia (time) e Portalino