Nesta terça-feira, o Chile bateu o Peru por 2 x 1 e acabou com um jejum de mais de três anos sem vitórias em Eliminatórias de Copas. E o mais estranho é que a estiagem de triunfos começou justamente após uma das maiores façanhas – segundo os próprios chilenos – do futebol local: uma goleada de 3 x 0 sobre o Brasil. Mas por que uma seleção que ganha com sobras dos então vice-campeões mundiais não consegue, depois, uma vitória em 11 jogos? A resposta, desconhecida de muitos, está exatamente naquela goleada.
Nas Eliminatórias para a Copa de 1998, o Chile começou mal, mas embalou depois de algumas rodadas e conseguiu se classificar com o melhor ataque do torneio e uma dupla de ataque que se mostrava perigosíssima: Marcelo Salas e Iván Zamorano. No Mundial francês, La Roja conseguiu passar de fase, mas sucumbiu diante do Brasil. De qualquer forma, as expectativas para a etapa classificatória da Copa de 2002 eram boas, já que a base se mantinha.
Parecia tudo sob controle. Como em 1996, o início da campanha não foi dos melhores, apesar de ser suficiente para manter os chilenos no grupo dos que almejavam a classificação. Para deixar os transandinos mais otimistas, a garotada do país levou a medalha de bronze nas Olimpíadas de Sydney em 2000. E o metal só não foi prateado ou dourado por causa uma derrota injusta contra Camarões nas semifinais.
Até que chegou aquele 15 de agosto de 2000. O estádio Nacional de Santiago estava apinhado, com 64.671 torcedores. A dupla Za-Sa teve uma de suas melhores atuações, o meio-campo não deixou o Brasil jogar e a defesa mostrou segurança. No final, os 3 x 0 do placar pareciam extravagantes (até hoje foi a pior derrota brasileira em uma Eliminatória de Copa), mas refletiam como foi a partida.

Na realidade, a crise nem esperou os jogadores saírem do gramado para se configurar. O primeiro capítulo ocorreu ainda aos 6 minutos do primeiro tempo, quando o meia Villaseca se contundiu. O treinador Nelson Acosta mandou aquecer Villaroel, oq eu desagradou a torcida. Foi quando Zamorano teve uma rápida conversa com o comandante e “sugeriu” que o substituto fosse Pizarro. E a recomendação do atacante, então na Internazionale, foi aceita. O jogador, já na italiana Udinese, acabou como um dos melhores em campo.
Depois da vitória, já nos vestiários, os chilenos estavam eufóricos e pediram a Miguel Bauzá, vice-presidente da ANFP (Associação Nacional de Futebol Profissional, a CBF chilena), a premiação em dobro. O pedido, que começou como brincadeira, se tornou insistente, até que o dirigente, também eufórico, prometeu dobrar o “bicho” dos jogadores. Assim cada um levaria US$ 18 mil (cerca de R$ 52,2 mil em valores de hoje) por aquela vitória. Nelson Acosta receberia o dobro.
Poderia até ser justo, mas os quase US$ 500 mil (cerca de R$ 1,5 milhão em valores atuais) gastos colocaram a federação chilena em grave crise financeira. Na realidade, até hoje a ANFP não quitou a última parcela (equivalente a um terço da dívida) da premiação de uma partida disputada há 3 anos.

A falta de motivação tomou conta dos jogadores. Primeiro, porque estavam com pendências financeiras com a federação local. Segundo, porque, depois de bater o Brasil por 3 x 0, se encheram de uma auto-suficiência injustificada. O relaxamento foi imediato e os resultados acompanharam essa tendência. Foram três derrotas seguidas. Em casa, o Chile perdeu de Colômbia (0 x 1, foto) e Argentina (0 x 2). Como visitante, o algoz foi o Equador (0 x 1).
O problema é que Acosta não conseguia reverter o processo descendente, até porque perdeu prestígio após o episódio com Zamorano durante o jogo com o Brasil. Assim, o Chile trocou de técnico: agora o selecionador era Pedro García. Mas os problemas continuaram. Foi apenas um ponto (empate em casa com a rival Bolívia) em cinco jogos. Não bastasse o retrospecto ruim, o Chile começou a beirar a humilhação após perder para a Venezuela por 0 x 2 em Santiago. Além de ser a primeira vitória venezuelana fora de casa em Eliminatórias, os três pontos tiraram a seleção vinotinto da última colocação, que passou a ser ocupada pelo Chile.
Nova troca de comando. Jorge Garcés assumiu apenas para tentar tornar o fim de campanha menos constrangedor. Perdeu de 2 x 0 para o Brasil e 3 x 1 para a Colômbia (ambos jogos como visitante) e segurou um 0 x 0 com o já classificado Equador em casa. No final, o Chile ficou com 12 pontos (3 vitórias, 3 empates e 12 derrotas), sendo que apenas dois foram conquistados após aqueles 3 x 0 sobre o Brasil. Venezuela e Peru ficaram logo à frente, com 16.

Torcedores chilenos comemoram após a vitória contra o Peru na terça. Será o início de uma campanha vitoriosa ou o Chile tropeçará sozinho novamente?
FICHA TÉCNICA
Chile 3 x 0 Brasil
Eliminatórias da Copa de 2002
Local: Estádio Nacional (Santiago-CHI)
Público: 64.671 pagantes
Árbitro: Epifanio González (Paraguai)
Auxiliares: Celestino Galván e Miguel Ángel Giacomuzzi (ambos Paraguai)
Chile: Nelson Tapia; Ricardo Rojas, Fuentes e Reyes; Francisco Rojas, Galdamés, Villaseca (Pizarro), Tello e Estay; Zamorano (Héctor Tapia) e Salas (Villaroel). Técnico: Nelson Acosta
Brasil: Dida; Evanílson, Antônio Carlos, Edmílson e Roberto Carlos; Émerson, Marcos Assunção (Djalminha), Ricardinho e Alex (Marques); Rivaldo e Amoroso (Luizão). Técnico: Vanderlei Luxemburgo.
Gols: Estay (25/1º), Zamorano (43/1º) e Salas (29/2º)
Ubiratan Leal
Imagens: El Mercurio (Zamorano), Gazeta Esportiva (Brasil x Chile) e Fútbol Peruano (Chile x Colômbia e torcida chilena)