“Pega! Pega! Pega!” A ordem emitida pelo técnico Geninho para Roger marcou a partida de volta contra o River Plate pela Libertadores da América deste ano, pois, imediatamente depois, o lateral pegou o meia D’Alessandro sem bola e praticamente definiu a sorte corintiana na competição. Na realidade, Geninho pode nem ter pedido para seu comandado “pegar” o jogador adversário, mas a bola. Ainda assim, esse tipo de situação põe em dúvida a eficácia de passar instruções ou simplesmente motivar mediante a gritos e berros durante as partidas.
Antes de tudo, gritar de maneira exarcebada é ruim para a saúde dos próprios comandantes. Se o esforço ainda tivesse efeito prático... Mas jogadores tensos e concentrados têm poucas condições de ouvir os berros dos treinadores no meio dos milhares de torcedores barulhentos. Aliás, nem os próprios companheiros, que estão ali ao lado, consegue-se ouvir sempre. Quanto mais aquele senhor que está na lateral do campo.
O curioso é que essa prática é muito comum nos técnicos brasileiros. Esse costume está tão enraizado que as televisões até colocam microfones de captação próximos aos bancos de reserva, o que é desagradável por ser mais uma fonte de ruído na transmissão e pelos inúmeros palavrões gratuitos proferidos a todo momento. Isso tudo faz até parte de uma estratégia de marketing de gosto duvidoso, uma forma de o comandante mostrar – para a torcida – que se importa com o time e que, se possível, entrava em campo para ajudar. O pior é que muitas vezes dá certo, já que treinadores “passivos” como Oswaldo de Oliveira são alvos constantes de vaias e outras formas menos delicadas de expressar descontentamento.
É bem verdade que o palavrão faz parte da cultura do futebol. Afinal, de nada adiantará o treinador falar “por obséquio, Evinho, passai a bola com mais calma, eficiência e capricho, pois nós precisamos muito que vossa senhoria entenda e cumpra isso devidamente. Desculpe-me por ter de chamar a vossa atenção e muito obrigado”. Mas não é soltando “baralho” e “filha da p...” a todo momento que vai mudar alguma coisa, a menos que isso seja um código secreto que signifique alguma coisa que ninguém saiba. Aliás, seria uma idéia diferente, apesar de pouco educada.
O que deve ficar bem claro é que não é durante a partida que uma equipe aprende a se adaptar às condições da partida. É para isso que servem os treinos durante a semana. Veja que muitos técnicos consagrados como Ottmar Hitzfeld (foto), Alex Ferguson, Giovanni Trappatoni, Fábio Capello e Carlos Bianchi não têm o perfil “gritador”. Eles mudam o panorama de um jogo mediante pequenos gestos e poucas palavras. Qualquer problema é para isso que servem o intervalo e as substituições.
É evidente que há treinadores brasileiros com capacidade de mudar o resultado de uma partida. Mas boa parte desses, contaminados pela cultura do palavrão e querendo mostrar serviço, grita. Sem motivo. Se o trabalho é bem feito, por mais que o técnico grite com os jogadores durante a partida, foi nos treinos da semana que ele preparou seu time para as diferentes situações em que o jogo se apresenta.
Quero deixar bem claro que prego que o treinador seja um poste e permaneça emudecido. Porém, não acredito que seja viável e eficaz ficar berrando coisas banais para jogadores que muitas vezes precisam do equilíbrio emocional vindo do comando técnico. Transmitir mais destempero pode, na verdade, pôr tudo a perder. Afinal, treinador competente é aquele que prevê as necessidades e possibilidades da equipe durante a semana, aprimora as qualidades, minimiza as deficiências e, com isso, tira o melhor possível do grupo. Como já diz um provérbio árabe: “o homem fala, o sábio cala e o tolo discute”.
Obs.: só para deixar claro, a crítica não é personalizada no técnico corintiano Geninho. Ele apenas protagonizou o episódio que motivou o artigo.
Gilberto Meazza
Imagens: Tricolormania e Bayern-fan