Primeiro, afirmam que esse tipo de campeonato só dá certo na Europa. Bem, então ele deu certo pelo menos em algum lugar. Enquanto isso, as dezenas de regulamentos já testados no Brasil nunca deram certo nem lá, nem aqui. E são esses regulamentos que alguns querem ressuscitar. Para deixar esse argumento “antieuropeu” com menos sentido, quase todos os torneios disputados no Brasil até os anos 60 eram realizados em dois turnos diretos.
Realmente, o campeonato desse ano está com média de público baixa. Mas isso é reflexo da forma como fizeram o campeonato. Com 24 clubes e apenas dois caindo, a briga pelo rebaixamento fica menor. Já na ponta, a falta de definição a respeito das vagas para Libertadores e Copa Sul-Americana tira o interesse dos clubes do bloco intermediário. O interessante é que as soluções para esse problema são tão óbvias quanto ignoradas por alguns: reduzir o total de clubes para 20 (no máximo), com 4 sendo rebaixados, 3 ou 4 garantindo vaga na Libertadores e outros 8 ou 12 (ou sei lá quantas vagas a Conmebol dá para o Brasil) com lugar na Copa Sul-Americana. Dessa forma, com a TV ajudando a promover, todos os clubes podem se manter interessados na competição por quase todas as 38 rodadas.
Outro erro que resulta no pouco público é a falta de um marketing específico. Por exemplo, a criação de carnês – poucos clubes fizeram – ou programa de fidelidade, que premie o torcedor que for ao estádio com assiduidade.
Em relação ao fato de alguns times ficarem muito à frente dos outros, isso é conseqüência da falta de planejamento dos demais, não do regulamento. No Brasil, não há nenhuma superpotência financeira como o Real Madrid, o Milan ou – agora – o Chelsea. Assim, quem tem um elenco acima da média é porque se organizou técnica e financeiramente. E a melhor forma de obrigar os clubes a se organizarem (além de regulamentações que evitem corrupção ou mau uso do dinheiro) é ficar para trás duas temporadas.
Na verdade, boa parte dessa imagem positiva do mata-mata é resultado de uma final empolgante entre Santos e Corinthians no ano passado, que mascarou muitos erros e injustiças. Porém, se a final fosse disputada entre os outros semifinalistas (Grêmio e Fluminense), talvez esse tipo de campeonato tivesse menos adeptos. Ou se os pontos corridos fossem implementados um ano antes, após uma final entre São Caetano e Atlético-PR. Aliás, nessas duas situações hipotéticas, a Rede Globo também teria restrições aos jogos eliminatórios. Afinal, a audiência que gremistas e tricolores cariocas teriam e que São Caetano e Atlético-PR tiveram na capital paulista (mercado que importa no final das contas) seria bastante baixa.
Ubiratan Leal
Imagem: Cruzeiro