Apesar de ter passado por altos e baixos, a cobertura esportiva do Jornal da Tarde sempre esteve entre as melhores dos diários paulistanos. Por isso, não surpreende a decisão do jornal de investir justamente no esporte para ter novo fôlego. Assim, o segundo diário do grupo Estado de São Paulo desenvolveu a Edição de Esportes, um caderno que circula apenas às segundas-feiras com cerca de 40 páginas em formato tablóide e cobertura especial dos eventos do domingo.
Em primeira instância, a direção do JT tenta tornar a publicação a mais vendida nas bancas paulistanas às segundas-feiras, como foi por vários anos nas décadas de 70 e 80. Tanto que, naquele período, a diretoria do grupo nunca fez muita força para que o principal produto da casa, o tradicionalíssimo Estado de São Paulo, tivesse uma edição no primeiro dia útil da semana. Não precisava. Mas, no fundo, o antigo vespertino busca é mais um argumento na briga pelo mercado de jornais de cobertura local, também composto por Agora São Paulo (do grupo Folha) e o Diário de São Paulo (do grupo Globo e com um caderno esportivo de respeito).
A estréia do novo caderno ocorreu na última segunda-feira (25 de agosto). Aparentemente, os resultados são positivos. Segundo a empresa, houve um aumento de 57% das vendas em bancas e de 266% no número bruto de páginas em publicidade. Mas ainda é cedo para tirar conclusões, pois o fato de ser a primeira edição pode ter despertado a curiosidade de muitos leitores. Além disso, uma vitória do Corinthians no dia anterior (no caso, os 3x1 sobre o Internacional) costuma aumentar a venda de jornais esportivos. Também é bom considerar que, se a Edição de Esportes tiver boa aceitação, as vendas podem subir depois de algumas semanas.
De qualquer maneira, se as vendas dependerem exclusivamente da qualidade do produto editorial (e, infelizmente, nem sempre é assim), há motivos para otimismos. Primeiro porque o JT decidiu preservar sua tradição de abordar o futebol e demais esportes de forma diferente da tradicional. Foi essa política que deu nome ao diário nos anos 60 e o JT até hoje é visto pelos paulistanos como uma publicação alternativa e leve.
Por isso, detalhes que passam despercebidos ganham espaço. É o caso das seções “Repórter de Campo” e “Replay”. Na cobertura dos principais jogos do domingo, o quadro “Opinião JT”, com o comentário da partida, é bem-vindo. Afinal, permite uma fuga das reportagens que se limitam a descrições de lances. Essa forma burocrática de cobertura é tão tradicional quanto desnecessária para quem viu a partida.
Outro ponto positivo é o visual. O projeto gráfico limpo e discreto dá espaço para os textos sem tornar a leitura cansativa. Nesse caso, por exemplo, a Edição de Esportes do JT se coloca em vantagem com o especializado Lance, que, por ter uma paginação cheia de ícones, letras garrafais e outros elementos, confinou os textos a poucas linhas. Por fim, o “Tabelão” também merece elogios por ser organizado e fácil de consultar.
Porém, há pontos que podem melhorar. O público do Jornal da Tarde é, claramente, o paulistano. Conseqüentemente, os grandes clubes do estado dominam a maior parte das páginas. Ainda assim, poderia haver mais espaço para o futebol do resto do Brasil e do exterior. Na edição nº 1, o futebol europeu teve apenas 3 das 44 páginas, isso se contarmos uma matéria que trata da repercussão da estréia de Kaká no Milan. O mesmo vale para os outros esportes. Excetuando o automobilismo (modalidade que, depois do futebol, conta com o maior número de leitores fiéis nos jornais), os demais tiveram pouco espaço para um jornal de segunda.
As reportagens que fugiram da cobertura de eventos cumpriram seu papel. Nessa primeira edição, falou-se de Elano, Muñoz, Pelé e Mazzola, além do aumento de faturamento do Palmeiras na Série B. Tudo bem. Mas o JT deve tomar o cuidado de não exceder na quantidade de personagens. Eles são necessários em um caderno de esportes, mas o exagero se torna cansativo. O fato de a Edição de Esportes contar com uma equipe (encabeçada pelo editor-executivo Sidney Mazzoni) já acostumada com esse tipo de cobertura é uma boa indicação de que não deve haver problemas nesse aspecto.
De qualquer forma, eventuais adequações devem estar nos planos do jornal. Afinal, a resposta do público só está chegando agora. E, depois de consolidar o projeto, o diário deve se preparar para um segundo passo: fazer o leitor de esportes comprar o JT nos demais dias da semana.
Mais informações
A Edição de Esportes vem encartada no Jornal da Tarde toda segunda-feira. Um exemplar do jornal custa R$ 1,30.
Ubiratan Leal
Imagens: Jornal da Tarde