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11/09/03

E se...

E se houvesse o Estatuto da Bola?

Além de amargar a última posição no Campeonato Brasileiro, ver a Série B cada vez mais perto e conviver com uma enorme dívida, o Grêmio sofre, agora, mais uma ameaça. Um grupo de profissionais está analisando diversas partidas do tricolor gaúcho e pretende enquadrar o clube no recém-aprovado Estatuto da Bola. Motivo: maltratar o esférico. A punição vai de uma simples multa à uma suspensão de 12 meses, período no qual a equipe deveria passar por cursos de reciclagem até voltar a respeitar os direitos da bola.

A notícia surpreendeu a todos no Olímpico. Afinal, ninguém sequer sabia da existência de tal lei. Por ter sido sancionada na mesma época do Estatuto do Torcedor, mesmo a imprensa pouco falou do Estatuto da Bola. “Sabia que não devíamos jogar mal, mas nunca imaginei que pudesse virar caso judicial”, admite um jogador do elenco gremista. “Agora, se maltratar a bola é crime, admito que estamos com a ficha suja” completa. Mas nem todos no Olímpico estão resignados. “Essa lei é um absurdo porque não respeita diferenças culturais”, brada um integrante da comissão técnica. “Não maltratamos a bola, só jogamos no estilo gaúcho, como sempre fizemos.”

Mas as reclamações gremistas não têm base legal. O Estatuto da Bola não fala nada a respeito de jogar bonito e aberto, pois não abrange a qualidade das partidas em si. O Estatuto apenas busca proteger a bola de futebol de agressões como furadas, divididas, erros no domínio, chutões para a arquibancada, passes tortos e gramados esburacados.

A idéia partiu do Sindibola (Sindicato das Bolas de Futebol) depois da quantidade enorme de reclamações de seus associados. Os números da entidade, realmente, assustam. Em 2002, mais de 500 bolas de futebol passaram por tratamento psicológico após os traumas. Outras 600 pediram licença médica. “As companhias de seguro saúde já estão cobrando muito alto para fornecer o plano que o sindicato acha justo para seus associados”, conta Tricolore, presidente do Sindibola. A dirigente sindical comenta que uma bola sofre muito durante a partida, porém, ninguém se importa. Por exemplo, quando um jogador não acerta um chute em cheio, o esférico anda lentamente e pingando. “Ninguém percebe, mas a bola está mancando de dor”, revolta-se.


Como o Estatuto ainda é desconhecido da maioria, pouca coisa mudou nesse ano. Ainda assim, já se vê sinais de evolução. Após a ameaça de multa, o Goiás resolveu se enquadrar no estatuto. O mesmo ocorreu com o Fluminense há duas semanas. “Até mandamos uma carta agradecendo a jogadores e à comissão técnica do Goiás pela forma como entenderam perfeitamente o espírito do Estatuto da Bola”, afirma a sindicalista. “Só o Grêmio que ainda desrespeita a lei, com a alegação vazia de diferenças culturais.”

Mas não é só o tricolor gaúcho que está confrontando o Sindibola. Nos bastidores, diversos jogadores se dizem contrários à lei, afirmando que o exercício da profissão fica cerceado e que futebolistas não podem responder penalmente por jogar mal o esporte. Em comunicado oficial, o sindicato dos atletas profissionais do Rio de Janeiro diz que “em muitos casos, os erros de passe e domínio são de responsabilidade das bolas, que não atendem às especificações da Fifa”. Mas, se isso for verdade, a culpa recai sobre as federações, que autorizam jogos com bolas despreparadas para participarem de um jogo profissional.

A FBA (Futebol Brasil Associados, entidade que reúne a maior parte dos integrantes da Série B) também se movimenta. “Nas Séries B e C há muito jogador ruim. Se aplicarem o infeliz estatuto com rigor, será impossível fazer qualquer partida nesses campeonatos”, brada o presidente de um clube integrante da Série B. “Estão querendo acabar com o espírito do futebol, transformá-lo em espetáculo para uma elite que poderá pagar por 22 jogadores tecnicamente bons.”

Mas o Sindibol se defende afirmando que, nessa primeira fase, poupará a Série B para permitir uma adaptação mais cuidadosa. Inclusive, observadores e advogados da entidade estiveram no Parque Antárctica para assistir ao jogo Palmeiras x Botafogo. A idéia era estudar as condições de trabalho das bolas na Segundona. “Escolhemos um jogo de dois grandes porque pensamos que teríamos bons resultados”, conta Precision, diretor jurídico do sindicato. “Ficamos horrorizados com a maneira como botafoguenses e palmeirenses machucaram nossas companheiras.” Se foi assim a Segunda Divisão, é bom a entidade ficar preparada, pois em 17 desse mês começa a Série C.


Palmeiras e Botafogo maltrataram a bola e assustaram os observadores do Sindibola. Mas as punições só virão em 2004.

Rodrigo Leme e Ubiratan Leal

Imagens: 3D Online; Grêmio e Rogério Lorenzoni; Terra

Obs.: Essa “reportagem” é uma obra de ficção e, portanto, não deve ser levada à sério. Nenhuma das pessoas, empresas, entidades ou associações citadas no texto foi efetivamente entrevistada ou consultada. Ah, e como ninguém aqui tem talento para ler mãos, i-ching, tarô, búzios, mapa astral ou bola de cristal, qualquer semelhança com a vida real foi uma grande coincidência.

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