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« Edição de Esportes do Jornal da Tarde | Página inicial | Gritar não adianta nada »

2/09/03

O mundo não é uma bola...

É preciso ter paciência, muita paciência


Estádio Castelão, em São Luís. Apesar da desconfiança de alguns, o Brasil faz 3x0 na Venezuela e garante uma vaga para a Copa do Mundo de 2002. Era o fim de um itinerário extremamente tortuoso, com derrotas em um terço dos jogos e diversas trocas de técnicos antes de atingir o objetivo na última rodada. Bem, tudo isso está para recomeçar nesse fim-de-semana. E se enganam os que pensam que será mais fácil dessa vez. Pelo contrário. Por isso mesmo, o Brasil deve aproveitar a proximidade das duas campanhas e analisar muito bem o que foi feito em 2000 e 2001. Só assim para não cair nos mesmos erros.

O primeiro obstáculo brasileiro é a memória. As pessoas se recordam dos fatos vividos de forma idealizada. O que passou sem deixar feridas por um longo tempo tende a ser visto como um sofrimento menor. Do contrário, vira trauma. Como o Brasil acabou, enfim, se classificando para a Copa da Coréia do Sul e do Japão, as Eliminatórias de 2002 não foram um trauma. Mas não é por isso que devemos olhar para elas como um sofrimento menor.

As Eliminatórias Sul-Americanas não são as mais difíceis para uma seleção como a brasileira se classificar. Na Europa, um sorteio infeliz pode te colocar em um grupo com Inglaterra e República Tcheca, o que não é agradável a ninguém. No entanto, o apuramento da América do Sul é, sem dúvida, o mais difícil para se jogar. Por que essa diferença?

Simples, na Europa, os grupos são balanceados, com equipes fortes, médias e fracas. Assim, ao mesmo tempo em que uma Inglaterra ou República Tcheca lhe trarão problemas, Liechtenstein e Moldova permitirão um alívio, uma vitória relativamente tranqüila, inclusive, para ter um bom saldo de gols.

Aqui, não. Antes, a Venezuela servia como descarrego. Agora, nem isso. Assim, são 8 seleções se engalfinhando por duas vagas (considerando que Brasil e Argentina, independente de qualquer problema que tenham, já estão garantidos), brigando por cada ponto e tratando toda partida como decisiva (e é mesmo, pois um ponto pode fazer uma diferença enorme no final). Em nenhum continente há um nivelamento tão grande. E para os que gostam de se fiar no nome, é importante lembrar as Eliminatórias para 2002 tiveram o Equador em segundo lugar e o Chile em último.

Carlos Alberto Parreira sabe disso e já trata de montar sua base, pois uma equipe sólida está mais protegida contra as inúmeras dificuldades pelo caminho. Se as convocações dos amistosos indicam alguma coisa, o treinador pretende manter a estrutura do time que conquistou o título no Oriente para, aos poucos, ir acrescentando os jogadores que surgirem. Assim, os 11 titulares de 2002 podem ser completamente diferentes em 2006, mas poucos sentirão essa mudança.

Parece fazer sentido, mas o técnico deve estar consciente de que essa política pode inquietar a torcida se, por exemplo, Roque Júnior não jogar bem e a dupla da Copa Ouro (Alex do Santos e Luisão do Cruzeiro) nem estiver no banco. E a torcida deve estar consciente de que é mais importante ter um time estruturado para ser competitivo em 18 partidas do que mudar a cada instante para tentar ganhar apenas uma.

E daí a importância de controlar a campanha. Em 2000 e 2001, o Brasil não teve em nenhum momento uma folga na classificação. Com isso, qualquer derrota era motivo para desestabilizar a seleção e de se colocar em dúvida a qualidade de técnicos e jogadores. Realmente, perder 6 partidas em 18 é muito, mas não voltar com nenhum ponto do Paraguai, da Argentina e do Uruguai é a coisa mais normal do mundo. Não adianta querer que o Brasil ganhe 14 jogos e empate 4. Isso não acontecerá. Basta, na verdade, acompanhar a Argentina e ter sempre uns 4 pontos de vantagem em relação aos demais perseguidores que tropeços serão relevados mais facilmente por torcida e imprensa. Não se passa por um torneio de dois anos e meio de duração sem ter paciência e admitir que não se vencerá sempre.

Imprensa
Falando em paciência, quem tem de analisar muito bem o que ocorreu na caminhada para o Oriente é a imprensa. Perder do Equador pela primeira vez não foi legal. Mas acontece. Mais importante que alardear a derrota como um vexame nacional era ver a posição dos equatorianos na tabela e, com essa perspectiva, perceber que não era um absurdo perder na altitude de Quito para aquele time.

O problema é que, se o título mundial não apagou o sufoco das Eliminatórias da cabeça da comissão técnica, o fez com parte da imprensa. Só há uma palavra para descrever a atitude de certos jornalistas: preconceito. É isso mesmo, preconceito puro. “Analisam” apenas com base no nome e no histórico, sem olhar com cuidado a escalação dos adversários. Desconhecedores do futebol mundial, também não percebem que o tal de Solano, que joga no meio-campo peruano, defende o Newcastle, um dos principais clubes da Inglaterra, ou que a Lazio fez um esforço danado e só não levou o chileno Pizarro porque anda com problemas financeiros.

E daí ouvimos frases como “o Brasil não pode ter medo da seleção X”, “é o fim da picada o Brasil empatar com a seleção Y” ou, pior, “em 1947, o Brasil enfiou 13 na seleção Z”. É justamente isso que o Brasil não deve pensar. Não é cair no chavão de “respeitar o adversário”. É jogar com autoridade, mas ter consciência de que, diferentemente do que ocorre na Europa, nenhum dos 18 jogos servirá como desafogo.

Abaixo uma análise rápida sobre os 9 adversários do Brasil:

Não há muito o que se falar sobre a Argentina. Tecnicamente, os maiores rivais do Brasil estão tão bem quanto nós. Nas Eliminatórias passada, o treinador Marcelo Bielsa mostrou saber como conduzir um time em uma campanha longa. O problema é que, agora, há uma necessidade maior de renovação. Batistuta já se aposentou da seleção. Ainda assim, sobram jogadores do meio para a frente, como Crespo, Cláudio López, D’Alessandro, Aimar, Saviola e até Riquelme (se voltar à boa fase), Diego Milito e Tevez, desde já xodó dos barulhentos boquenses. Confirmando a fama de teimoso, Bielsa prefere Crespo e López. Mas a torcida argentina confia muito na nova geração, já com vários títulos mundiais em categorias sub-21.

A Bolívia é talvez, a seleção que menos tem algo a mostrar. Erwin Sánchez virou treinador do Boavista, de Portugal, e Etcheverry parou. Assim, os andinos perderam a referência. Da nova geração, os maiores destaques são os atacantes Castillo (20 anos) e Botero (25). Ambos jogam no México e mostraram qualidades na finalização, tanto que já foram os maiores artilheiros do mundo em torneios nacionais. Defendendo o Bolívar, Botero fez 49 gols em 2002, enquanto que Castillo, então no Oriente Petrolero, marcou 42 vezes em 2001. No entanto, o resto da equipe é fraco. Assim, os bolivianos concentram suas esperanças na altitude de La Paz e na experiência do treinador chileno Nelson Acosta. Realmente, o ar rarefeito não costuma desapontar La Máquina Verde. Sobre o técnico não se pode dizer o mesmo. Em 98, Acosta classificou o Chile para a Copa. No entanto, não soube administrar os egos e caiu junto com a seleção de sua terra em 2000.

Em 15 de agosto de 2000, o Chile batia o Brasil por 3x0 em Santiago e se mantinha bem na briga por uma vaga na Copa de 2002. Depois daquela partida, no entanto, foram 11 partidas sem sequer uma vitória dos chilenos. Pior, dessas 11, apenas duas foram empates. De resto, só derrotas. Com isso, até a Venezuela ficou à frente de La Roja. Hoje, os chilenos ainda buscam seu caminho. Em tese, os chilenos têm talento para montar uma boa seleção. Pinilla e Salas são bons atacantes. Tapia dá segurança no gol e Pizarro e Meléndez formam um meio-campo razoável. Mas o problema não é esse. Até hoje os chilenos estão sem rumo. O treinador Juvenal Olmos já experimentou mais de 40 jogadores desde março, quando assumiu, um número extremamente alto para os padrões locais. Sem um líder como Zamorano em campo e com um Salas ainda instável, o comando vindo do banco se torna mais importante. E é isso que o Chile tem de buscar nesse início de campanha.

Na Libertadores desse ano, a Colômbia levou seus 3 times para a segunda fase, sendo que dois desses chegaram às semifinais. Sempre apostando em jovens. Assim, parece que os colombianos buscam a voltar ao grupo de forças secundárias do continente, atrás de Argentina e Brasil e ao lado do Paraguai. No entanto, a seleção local terá de confiar, pelo menos no início das Elminatórias, na geração anterior como forma de garantir um mínimo de experiência. Realmente, uma base com Oscar Córdoba o gol, Ivan Córdoba e Bedoya na defesa e Angel e Aristizábal no ataque merece respeito. Porém, apenas o cruzeirense está em boa fase no momento. Talento e jogo bonito não devem faltar nas apresentações da Colômbia, mas pode haver muita oscilação de uma rodada para outra.

Para as Eliminatórias que começam agora, o Equador mantém boa parte da equipe que garantiu uma vaga no Mundial de 2002. Até o treinador, o colombiano Hernán Dario Gómez, ficou. No entanto, os resultados dificilmente serão os mesmos. A equipe continua dependendo muito do meia Aguinaga o único jogador acima da média no grupo. O problema é que Aguinaga já está com 35 anos e já não tem tanta capacidade física para carregar o time nas costas. Outro fator negativo é a falta de experiência européia. Kaviedes teve uma passagem rápida por Itália e Espanha, mas voltou. Assim, só o lateral De la Cruz, do inglês Aston Villa, joga do outro lado do Atlântico.

Nos últimos anos, o Paraguai se estabeleceu como terceira força no continente, tanto que, nas últimas Eliminatórias, foi a única seleção que não perdeu da Argentina. Para isso, os paraguaios contaram com excelentes defensores, como o goleiro Chilavert, o lateral Arce e os zagueiros Ayala e Gamarra. Realmente, a força do grupo continua atrás, mas há sinais de decadência. Gamarra e Arce já não correm como antes e Chilavert se aposentou da seleção, se bem que Tavarelli é um bom substituto. A proteção à zaga também é boa com o ex-Internacional Enciso e Paredes, atualmente na Reggina, da Itália. No ataque, Cardozo, do Toluca do México, e Roque Santa Cruz, no Bayern de Munique, parecem ter resolvido o problema crônico dos paraguaios: a falta de finalizadores. O que falta, agora, é um meia de criação. Se os guaranis não encontrarem alguém terão de insistir em cruzamentos, chutões ou outras formas menos adequadas de levar a bola ao ataque.

Já faz tempo da última vez que o Peru foi visto como sério candidato a uma das vagas sul-americanas para a Copa. E não será dessa vez que a história vai mudar. O que não quer dizer necessariamente que o Peru só deve cumprir tabela. Comandados pelo brasileiro Paulo Autuori, os peruanos têm alguns bons jogadores e podem complicar. Os principais destaques são os meias Solano (Newcastle, Inglaterra), Palacios (Atlas, México), além dos atacantes Pizarro (Bayern Munique, Alemanha) e Mendoza (Brugges, Bélgica). O ponto fraco é a defesa, que até conta com atletas em países como Argentina, México e Rússia (isso mesmo, os peruanos também estão indo para lá), mas não convence a torcida, que ainda tem saudades dos anos 70.

Se dependesse apenas dos jogadores, o Uruguai só perderia para Brasil e Argentina, pois talento não falta aos vizinhos do extremo sul. Porém, já é assim há anos e os uruguaios continuam perdidos nas confusões e brigas internas. Agora, de novo treinador, o ofensivista Juan Carrasco, a expectativa é que os chutões e entradas com vigor excessivo dêem espaço a um time mais insinuante. Ainda bem, pois é justamente no ataque que estão os melhores jogadores do Uruguai hoje. Forlán joga no Manchester United, Recoba está na Internazionale e Chevantón não pára de fazer gols pelo Lecce. Mas em todas as demais posições há jogadores com passagens por grandes centros como Itália e Espanha, calro que sem tanto destaque como o trio de frente.

A Venezuela é o único país filiado à Conmebol que não tem o futebol como esporte mais popular, já que beisebol, boxe e basquete atraem mais o venezuelano. Por esse motivo, o futebol nunca se desenvolveu muito lá. Mas isso está mudando. De saco de pancadas, a Venezuela virou um adversário perigoso para o Brasil no jogo decisivo das últimas Eliminatórias. Por isso, a seleção local decidiu entrar nessa campanha com pinta de candidato. Manteve o treinador Richard Páez, comandante da façanha de tirar a Venezuela da última colocação do continente. Em campo, o goleiro Angelucci, ex-San Lorenzo da Argentina, o lateral González, do Colón da Argentina, e o meia Urdaneta, do Kriens da Suíça dão o toque de experiência para um time que ainda conta com maioria de jogadores que atuam no próprio país.

Ubiratan Leal

Imagens: Gazeta Esportiva, IstoÉ Fútbol Peruano, El Espectador, Vive Fútbol, Montevideo e Olé.

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