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5/09/03

Histórias

E o Coventry, não vai cair nunca?

Coventry City 2003.jpg

Essa pergunta a Inglaterra se fez por mais de três décadas. Pode parecer incrível, mas o Coventry City, um pequeno clube da cidade homônima localizada a cerca de 170 km de Londres, ficou 34 anos na Primeira Divisão inglesa. Para um brasileiro, pouco acostumado com o sistema de rebaixamento em prazos longos, pode não parecer nada. Mas apenas Arsenal, Everton e Liverpool não foram para a Segunda Divisão nesse período. Veja bem: nem Manchester United e Tottenham escaparam.

O mais interessante da trajetória dos sky blues é que eles nunca formaram equipes fortes em todo esse tempo na elite, sempre flertando com o rebaixamento, mas nunca caindo. Para se ter uma idéia, o Coventry logrou uma sexta colocação em 1969-70 e uma sétima em 1988-89. De resto, o melhor que conseguiam era o 10º lugar. Pode parecer sorte. No fundo, é. Mas não dá para achar que, por trás de tudo isso, há uma ponta de justiça a um clube pequeno e sem grandes pretensões, mas que inovou o futebol britânico por muitos anos.

Tudo começou em 1961, quando o Jimmy Hill abandonou a carreira e, imediatamente, se tornou gerente do clube, então na Terceira Divisão. Até aquele momento, o Coventry era minúsculo e sua maior “glória” eram dois quartos lugares na Segunda Divisão, ainda na década de 30. A primeira medida foi alterar levemente as cores da equipe. O azul e o branco foram substituídos por azul-celeste com detalhes azul-escuros. Apenas nesse momento é que surgiu o apelido de sky blues.

Coventry City_logo.gif

Junto com o diretor Derrick Robbins, o atacante recém-aposentado introduziu uma série de medidas até aquele momento inéditas. Por exemplo, em 1964, o Coventry (recém-promovido à Segundona) implantou um placar eletrônico, um luxo na época, e ampliou o estádio. No mesmo ano, o clube promoveu apresentações especiais (como concurso de adestramento canino e jogos de netball) antes e nos intervalos das partidas como forma de atrair os torcedores.

Na temporada seguinte, os torcedores do clube de Warwickshire não ficaram sem ver seu time nos jogos fora de casa. Os que ficavam em Coventry iam ao estádio de Highfield Road assistir aos jogos por um sistema de circuito-fechado de televisão. Para os que preferiam acompanhar o time in loco, o Coventry disponibilizava um trem especial apenas para levar seus seguidores Inglaterra afora.

Em 1967, o clube atingia seu ápice: era campeão da Segunda Divisão inglesa, garantindo um lugar na elite. O que parecia um momento de grande felicidade se transformou rapidamente em apreensão. Hill se demitiu para compor a equipe do canal de televisão ITV Sport. Para piorar, a arquibancada principal do Highfield Road foi destruída por um incêndio.

Coventry City_torcida.jpg

Se havia a suspeita de que a aventura do Coventry na Primeira Divisão seria curta, depois desses eventos a sensação ficou mais forte ainda. Mas o clube reagiu. Não só reformou, como colocou assentos em todo o Highfield Road, que, assim, se tornou o primeiro estádio da Inglaterra com cadeiras para 100% dos espectadores. Isso atraiu os torcedores, garantindo uma média público de 34,5 mil torcedores na temporada 1967-68. É importante lembrar que, hoje, a capacidade do estádio é de 23.611.

Mesmo com tanto apoio, os sky blues só escaparam do rebaixamento na última rodada, após um empate fora de casa com o Southampton. Dois anos depois, o Coventry foi 6º colocado no Inglês e ganhou - quem diria? - uma vaga na Copa da Uefa. Na primeira fase, passou pelo Trakia Plovdiv, da Bulgária. Mas não resistiu ao Bayern de Munique na etapa seguinte, perdeu por 6x1.

A criatividade administrativa estava acabando. Mas, em campo, o encanto que mantinha o Coventry na elite parecia ter muita força. Entre 1971 e 86, o clube fez muito pouco de positivo que merecesse ser lembrado. O que impressionava era a habilidade de contrariar os prognósticos e não ser rebaixado. Nesse período, inclusive, os sky blues conseguiram se salvar da Segunda na última rodada em três anos seguidos (de 1983 a 85). Nem o retorno de Jimmy Hill, em 1975 deu novo fôlego ao clube que, sem dinheiro, se desfazia de seus melhores jogadores rapidamente. Além disso, invasões de campo e a queda da média de público fizeram o clube mudar sua política de assentos para todos os torcedores.

Coventry City 3x2 Tottenham 1987.jpg

Até que, em 1987, os torcedores voltaram a comemorar. Contra as previsões (sempre elas), o Coventry se tornou campeão da Copa da Inglaterra, um título mais prestigiado na ilha que o Campeonato inglês em si. Na final disputada em Wembley, os azuis bateram o Tottenham por 3x2. Como nada para o Coventry é tão fácil, a vitória só veio na prorrogação.

Mas, depois disso, tudo voltou ao normal. A troca de treinadores e de jogadores intensificou-se. A briga para fugir do rebaixamento ficou cada vez mais constante. Mas o Coventry não caía. Em 1997, os sky blues só se salvariam se vencessem o Tottenham em Londres. E venceram.

Algumas melhorias no estádio aumentou a média de público em 50%. Com mais dinheiro em caixa, a diretoria voltou a investir. Por £ 6 milhões, o Coventry contratou a revelação irlandesa Robbie Keane. Com as vindas de Gary McAllister e do marroquino Mustapha Hadji, o time cresceu, alcançando a 11ª posição em 2000.

Mas o jovem atacante não ficou muito tempo em Warwickshire, indo para a Internazionale (por £ 13 milhões) na temporada seguinte. McAllister também saiu, atendendo a um chamado do Liverpool. A estrutura do time se perdeu. Com isso, em 2001, após 34 temporadas no topo do futebol inglês, o Coventry City finalmente se rendeu ao chamado da Segunda Divisão.

Coventry City_estadio.jpg
O Highfield Road, cenário de várias mudanças no futebol inglês

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O pior é que, depois de ir para a Segundona, o Coventry pareceu ter se acostumado com o sofrimento. Em 2002, o clube ficou em 11º, no meio da tabela. Nessa última temporada, os azuis terminaram em 20º, apenas duas posições acima da linha de rebaixamento para a Terceira.

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Coventry City_Jimmy Hill.jpg

Jimmy Hill merece um tópico à parte. Antes de revolucionar o futebol inglês na administração do Coventry, o ex-atacante presidira a Associação de Futebolistas Profissionais e fora fundamental na extinção do teto salarial para os jogadores em 1961. Depois da passagem pela ITV Sport, Hill se transferiu para a BBC em 1973, apresentando o programa Match of the Day nas noites de sábado. Em 1987, integrou um consórcio que comprou o Fulham (clube que defendera como jogador antes de ir ao Coventry). Após a Copa de 98, foi para o canal esportivo BSkyB, do milionário australiano Rupert Murdoch.

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Se alguém quiser anotar e decorar, a escalação do Coventry na finald a Copa da Inglaterra de 1987 era: Ogrizovic, Phillips, Downs, McGrath, Kilcline (Rodger), Peake, Bennett, Gynn, Regis, Houchen e Pickering. Os gols foram marcados por Bennett, Houchen e Pickering, esse último no prolongamento.

Ubiratan Leal

Imagens: BBC Sports, KrissTal, Homes of Football e Manchester United site não-oficial

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