Alemanha e Itália se enfrentam. Análise do jogo: os veteranos alemães tentam seu jogo pragmático, com cruzamentos na área e o regulamento debaixo do braço. A Itália, por sua vez, apostará na tradicional retranca e tentará a sorte em algum contra-ataque. Se o jogo for Inglaterra x Holanda, dá para dizer que é o jogo de chuveirinhos contra a técnica. Argentina x Nigéria? Fácil: catimba x futebol alegre, mas irresponsável. Com certeza você já deve ter ouvido comentários assim antes de algum jogo internacional. Pois saiba que você pode ter sido mais uma vítima dos comentaristas do óbvio.
O que são os comentaristas do óbvio? Os créditos ficam para meu falecido pai que, até onde sei, criou esse termo ao se indignar com comentários durante jogos de seu Corinthians. Segundo sua definição, levam a alcunha “analistas” que se especializam em só falar o óbvio, restringindo as opiniões a estereótipos. Mas é só o torcedor acompanhar com um senso crítico maior o que ocorre em campo para ver que tais comentaristas não têm o menor preparo e falam sobre seleções e clubes sem assistirem a outros jogos ou, ao menos, lerem algo sobre os times.
Quando o “analisado” é um jogador, a coisa é pior. Já ouvi coisas como “a Alemanha não tem opções de ataque e tenta apenas nos chuveirinhos para o grandalhão Scholl”. Se o tal comentarista tivesse, ao menos, atentado à ficha do jogo, veria que Scholl é meia e tem 1,76 m. Outro chavão surge no momento de “desmascarar” uma estrela mundial, algo como “falam muito, mas nunca vi esse tal de Zidane jogar nada”. Provavelmente o comentarista nunca viu Zidane jogar nada porque nunca viu uma partida do meia francês. Se tivesse visto, não falava essas coisas.
E o pior é que não são poucos os “especialistas em futebol internacional” que, na falta do que dizer por ausência de preparo, se limitam a essas frases vazias. Vejam os chavões mais comuns (lembre-se, se ouvir ou ler algo desse tipo, desconfie):
Alemanha: “seleção de veteranos, não renovou”
Mentira! A seleção alemã renovou, e muito. Há uma quantidade enorme de jogadores com idade olímpica no time comandado por Völler. Na realidade, a Alemanha está enfraquecida justamente porque boa parte da seleção é jovem e inexperiente demais.
Itália: “retranca”
Realmente, a azzurra não pratica um futebol dos mais vistosos. Mas reduzir a cultura do futebol italiano à palavra “retranca” é leviano. Retranca tem uma conotação covarde, coisa de time pequeno que bota todo mundo na pequena área e reza para a bola não entrar. Em geral, a Itália conta com esquema tático que dão um papel importante à defesa, mas não se limitam à defesa. É uma grande diferença.
Argentina: “catimba e malandragem”
Tanta gente bateu nessa tecla que muito treinador acreditou. Como resultado, na Libertadores, os brasileiros ficam provocando os argentinos, tentando ser mais malandros que o adversário. No final das contas, os argentinos ficam passivos, os brasileiros se irritam e perdem sozinho. Sem comentários.

Inglaterra: “chatos chuveirinhos”
Achar que a seleção inglesa é só Beckham cruzando e algum trombador botando a cabeça é tão errado quanto achar que o Brasil de 70 só era bom porque tinha Pelé. A Inglaterra não é um paraíso para o toque de bola, mas há jovens que respeitam o esférico. Como Owen e Wayne Rooney (foto).
Países escandinavos: “grandalhões que apelam para o chuveirinho”
Primeiro: Suécia, Noruega, Islândia e Finlândia não são a mesma coisa. Segundo: quem acompanhou a Suécia na última Copa viu uma equipe com recursos técnicos mais ricos que o simples cruzamento na área. Ah, e o principal atacante sueco – Henrik Larsson – tem 1,78 m de altura. Por fim, vale lembrar que, etnicamente, a Finlândia não é escandinava.
Dinamarca: “seleção habilidosa e com grande toque de bola”
A Dinamarca é o único país escandinavo que escapa da definição “grandalhões + jogo aéreo”. Até aí, tudo bem. O problema é que ainda pensam que a Dinamarca é aquela seleção de 1986, que com Michael Laudrup, venceu a Alemanha Ocidental e fez 6x1 no Uruguai de Francescoli. Hoje, os vermelhos formam uma equipe normal.
Seleções orientais em geral: “correria”
A Coréia do Sul não foi semifinalista porque correu. Quer dizer, a correria ajudou, mas o que foi decisivo em toda a caminhada sul-coreana foi a valorização da posse de bola, trocando passes para não deixar o adversário jogar. É verdade que as arbitragens também foram importantes, mas isso nada tem a ver com correria. Quanto ao Japão, há vários jogadores nipônicos com relativo sucesso na Europa. Nenhum está se notabilizando pela capacidade de correr.
Seleções africanas em geral: “futebol moleque”
Os jogadores da África negra já estão tão enraizados na Europa (muitos vão para o velho Mundo ainda criança) que nem têm a famosa habilidade. Assim, já jogam com esquemas táticos na cabeça e a preocupação no jogo coletivo. Nada contra, mas não condiz com a fama de futebol alegre e descompromissado. Por fim, vale lembrar que as seleções africanas estão entre as mais violentas de qualquer Copa.
Seleções com atletas naturalizados: “tiveram de naturalizar porque não têm mais jogador lá”
Essa foi muito falada quando o principal destaque alemão na Copa era Klose, polonês de nascimento. Mas tais “analistas” não procuram ver a história de vida do jogador em questão. Klose (como o germano-ganês Asamoah) foi para a Alemanha quando era criança. Ele é muito mais alemão que polonês. Da mesma forma como o Fernando Meligeni é mais brasileiro que argentino.
Ainda bem que há jornalistas que acompanham verdadeiramente o futebol internacional e fazem comentários pertinentes. É fácil identificar algum: eles não usam tais comentários a cada 10 minutos. E, quando o fazem, explicam o porquê da análise, baseando a opinião em dados e informações ao invés de apostar no perigoso senso comum. Sinal de que se informam periodicamente em revistas, internet ou outros meios de comunicação. Há vários comentaristas que mostram essas qualidades, como Paulo Vinícius Coelho, Paulo Calçade e Cláudio Carsughi.

O meia Mehmet Scholl, da Alemanha e do Bayern de Munique. Grandalhão?
Maurício Aires
Imagens: DFB (Alemanha x Itália), BBC Sport (Rooney) e Bayern (Scholl)