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8/09/03

Brazil

A nacionalização dos clubes


O número de clubes grandes no Brasil tende a diminuir. Apesar de contribuir muito, a decadência de alguns por problemas administrativos não é o único motivo. Na verdade, parte do processo é natural e já se desenvolve há alguns anos, mas deve se acelerar com o aumento do Campeonato Brasileiro e a conseqüente diminuição dos estaduais.

Fala-se muito que a torcida de grandes clubes cresce em momentos de estiagem de títulos. Essa lógica se baseia no fenômeno ocorrido com o Corinthians nos anos 60 e 70, mas não parece ir além desse exemplo. Basta ver as pesquisas que apontam um aumento de os são-paulinos, nos anos 80, ultrapassando os palmeirenses em quantidade de adeptos. A freqüência de títulos também teria aproximado os cruzeirenses dos atleticanos e os gremistas dos colorados. Charme e apelo sentimental também são importantes, mas dá para verificar que o torcedor brasileiro gosta de times que conquistam campeonatos. Até por isso que habitantes de cidades pequenas, ao invés de serem fiéis aos clubes locais, escolhem um grande clube para dividir sua atenção.

E o que o novo calendário tem a ver com isso? Tudo. Imaginando que os estaduais não sejam argumento suficiente para atrair torcedores, os clubes devem ganhar Copas do Brasil e Brasileiros para conquistar as novas gerações. Os torneios internacionais como a Libertadores e o Mundial são conseqüências de vitórias prévias em território nacional e podem ser desconsiderados em primeira análise. Assim, só há dois títulos em disputa por ano no Brasil. Só duas (ou uma, se um time levar os dois campeonatos) torcidas comemorarão algo. E só dois clubes terão argumentos fortes para aumentar seu contingente de seguidores.

Contando que há, historicamente, 12 grandes clubes no Brasil (Corinthians, Palmeiras, São Paulo, Santos, Flamengo, Vasco, Fluminense, Botafogo, Grêmio, Internacional, Atlético-MG e Cruzeiro), cada torcida só comemoraria um título a cada 6 anos se houvesse uma distribuição democrática dos troféus. Até que seria suficiente para manter uma quantidade razoável de seguidores. No entanto, essa conta desconsidera a possibilidade de algum clube fora desse grupo (como Atlético-PR, Coritiba, São Caetano ou Bahia) ganhar algum título. E, pior, certamente dois ou três clubes do G-12 se destacarão e levarão mais de uma taça nesses 6 anos (enquanto, logicamente, outros ficarão sem nenhuma).

Quando os estaduais eram mais importantes, não havia esse fenômeno. Afinal, a cada 10 anos, em média, a torcida de cada clube grande de São Paulo e Rio comemorava um título. Em Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do Sul e Bahia, esse período era ainda menor. Só assim para um país ter tantos clubes populares.

É óbvio que esse processo é longo e demora, no mínimo, uma geração para ser percebido. Ainda assim, os próximos anos devem mostrar uma mudança hierárquica no futebol brasileiro. Os clubes que se mantiverem entre os primeiros do país em longos períodos devem se destacar, se tornando grandes nacionais. Os outros grandes, que conseguirem, no máximo, boas campanhas no Brasil e títulos apenas nos esvaziados estaduais, tendem a se tornar populares apenas em sua cidade. Pode parecer pouca coisa, mas não é. Torcedor é consumidor, é mercado e, claro, é dinheiro. Por isso que tem tanto flamenguista preocupado em manter o posto de maior torcida do Brasil, vigiando atentamente o avanço corintiano.

*

Falando em bom português, clubes grandes em longos períodos de decadência como Fluminense (foto) e Botafogo devem tomar muito cuidado para não ficarem para trás. Internacional e Santos também, mas já há sinais claros de melhoras. Grêmio, Vasco e Palmeiras estão em baixa, mas conquistaram títulos importantes recentemente e ainda têm algum crédito. As últimas diretorias do Flamengo fizeram (e fazem) uma força danada para apequenar o clube, mas o apelo sentimental do rubro-negro é enorme e só uma hecatombe reduzirá significativamente o número de flamenguistas. Por mais que não vejam títulos nacionais há um bom tempo, o fato de Atlético-MG e São Paulo estarem sempre entre os primeiros e levarem um ou outro estadual garante a massa de torcedores. No fundo, só corintianos e cruzeirenses podem dizer que seus times estão em dia com o desempenho em torneios nacionais, apesar da fraca campanha do Corinthians nesse Brasileiro.

*

Esse texto é a segunda parte desse aqui.

Ubiratan Leal
Imagens: Flamengonet, Coxanautas e O Diário.

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