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« Winning Eleven | Página inicial | Meu mundo é azul »

15/08/03

O mundo não é uma bola...

Sul-Americana tem futuro, mas começou errada


Não é de hoje que a Confederação Sul-Americana tenta se espelhar na sua colega européia para a criação de competições interclubes. A própria Copa Libertadores da América foi idealizada como uma versão sul-americana da então recém-criada Copa dos Campeões da Europa. Deu certo. Agora, a Conmebol investe em outro torneio, a Copa Sul-Americana, uma nova tentativa de fazer uma Copa da Uefa do Atlântico Sul. A idéia é boa e pode dar certo, mas o início não é promissor. Por culpa da própria confederação daqui.

Tudo está errado desde o momento em que a Conmebol acenou com a intenção de criar a Copa Pan-Americana. A idéia era boa, mas a confederação se precipitou. Não amarrou os acordos com a Concacaf e as principais federações do Norte e acabou sem a adesão de mexicanos e norte-americanos. É importante considerar que a Concacaf vê com inúmeras ressalvas essa aproximação entre as Américas, já que a maior tradição dos países do Sul poderia tirar o poder da entidade do Norte. Aliás, isso já ocorre no instante que os mexicanos priorizam a Libertadores à Copa dos Campeões da Concacaf.

A Pan-Americana afundou antes de sair do porto, mas a Conmebol não desistiu de ter sua versão da Copa da Uefa. Como muitas das federações viram com bons olhos o surgimento de uma segunda competição clubística no continente (substituindo as recém-extintas Copas Mercosul e Merconorte), a entidade adaptou a Pan-Americana, transformando-a em Sul-Americana. A nova Copa já nasceu desprestigiada, pois ficou uma sensação de torneio-tampão, de que essa não era a real vontade da Conmebol.

Como o Brasil estava preso ao tal do calendário quadrienal anunciado com pompa por Ricardo Teixeira, Pelé e o ex-ministro Carlos Melles em 2001, não teria datas disponíveis para participar da primeira edição da Sul-Americana. De qualquer forma, isso já era sabido e não foi surpresa para ninguém. A Sul-Americana foi disputada pela primeira vez em 2002 e foi vencida pelos argentinos do San Lorenzo.

Como ponto positivo, vale registrar que a confederação continental parece dar mais apoio à Sul-Americana do que jamais deu, por exemplo, à extinta Copa Conmebol, que surgiu anônima e morreu sem fazer falta. E imprensa e torcedores aparentam ter percebido um pouco isso. O destaque dado à Sul-Americana não se compara ao da Libertadores, mas dá motivos de otimismo.

Mas as boas intenções da Conmebol nunca são suficientes, já que saber organizar não depende apenas de vontade. Como forma de reduzir custos e, principalmente, evitar que alguns países (no fundo, Argentina e Brasil) dominassem, a entidade montou o regulamento de forma que os times do mesmo país se cruzassem no começo. Assim, as quartas-de-final contariam com uma diversidade relativamente grande de nações.

Grande erro. Para a maioria dos times, a Sul-Americana vai ter cara de torneio amistoso, pois cairão no início e só terão enfrentado compatriotas. Para o torneio "pegar", é importante que a torcida veja que se trata de uma competição internacional. A primeira Sul-Americana já era assim, mesmo com a ausência de brasileiros. E River Plate, Racing-ARG, Boca Juniors, Danubio-URU, Cobreloa, Aucas-EQU, Universitario-PER, Cerro Porteño, Oriente Petrolero e América de Cáli foram desclassificados sem terem um carimbo novo no passaporte. Por isso, é melhor o Atlético-MG encontrar o Defensor Sporting que o Corinthians, mesmo que time paulista seja melhor que o uruguaio e que um vôo para Montevidéu seja mais caro que um para São Paulo.

Além disso, achar que brasileiros e argentinos monopolizarão as fases finais é ignorar a história. A Libertadores acabou com a reserva de mercado do mata-mata em 2000 e, mesmo assim, sempre houve ao menos 3 países representados nas semifinais. Brasil e Argentina são mais fortes, mas colombianos, paraguaios e, eventualmente, chilenos e uruguaios têm condições de fazer frente em determinados momentos. O fato de a Colômbia quase fazer a final da Libertadores desse ano é significativo.

E os erros foram se repetindo. A Conmebol insiste em fazer as suas competições em meses separados. Assim, não evita que um clube entre na Libertadores e na Sul-Americana no mesmo ano. É claro que há interesse nisso. Em tese, os maiores (e mais rentáveis) clubes do continente estão na Libertadores e a entidade não quer perder a audiência desses torcedores na Sul-Americana.

Não dá certo. Por mais interessante que seja a Sul-Americana, a Libertadores sempre será o principal torneio do continente. Um clube que disputou a Libertadores vai tratar a Sul-Americana como algo secundário. O ideal é fazer como na Europa. Em terças e quartas se joga a Liga de Campeões, quinta é dia de Copa da Uefa. Um clube não disputa as duas ao mesmo tempo. Assim, um clube que está na Uefa trata de jogá-la bem, pois é tudo o que tem. Esse erro da confederação daqui não é novo. Foi assim com Supercopa Libertadores, a Conmebol, a Mercosul e a Merconorte. Não por acaso todas foram extintas.

Outro erro, esse mais grave e capaz de implodir a Copa Sul-Americana, é a falta de critérios técnicos. Quer dizer, dizem que há um, mas é tão estapafúrdio que está na cara que não há nenhum. Cada país tem sua forma de classificação, o que é normal se pensarmos que já é assim com a Libertadores. Mas o que sempre deve prevalecer (e na Libertadores ainda é assim) é que uma equipe ganha no campo o direito de disputar a copa. Por exemplo, um dos representantes chilenos é o Provincial Osorno, um pequeno clube da segunda divisão local. Mas o time do sul do Chile passou em um torneio classificatório e eliminou alguns dos grandes em seu caminho. E, inclusive, estreou na chave chilena da Sul-Americana batendo, em Santiago, um dos grandes do país, a Universidad Católica.

Nesse caso, a CBF tem uma participação grande. Os outros 9 filiados à Conmebol definiram seus representantes segundo critérios relativamente claros. Mas os brasileiros preferiram barganhar essas vagas, usando-as como ferramenta de manobra na política interna. Eram 6 vagas, mas aumentaram para 8.

O problema é que, tecnicamente, clubes como São Caetano, Atlético-MG e Juventude deveriam ter espaço. A CBF preferia Cruzeiro e Flamengo. Para justificar a inclusão desses times, a Conmebol criou - de forma absurdamente tosca - um "ranking" continental e afirmou que tal ranking que definiriam algumas das vagas. O pior é que, de acordo com o ranking, o Palmeiras (rebaixado no Brasileiro) merecia uma das vagas mais que Flamengo e Cruzeiro. Logo, o Palmeiras também estava na Sul-americana. O Atlético-MG chiou e ganhou sua vaga, junto com o São Caetano. Com essas movimentações políticas recheadas de argumentos que uma criança rebateria, o Brasil já tinha 12 representantes.

Isso tira a credibilidade da competição no resto do continente. O Brasil realmente é o país com mais glórias no futebol. Mas não é proporcional ter 12 vagas enquanto a Argentina se limita a 7.

Se esses pontos forem sanados (e isso é imperativo, algo para resolver já para a edição de 2004), a Sul-Americana pode se tornar um torneio bastante interessante. Ela vai dar uma vida nova aos campeonatos nacionais a partir do momento que ela justifica a briga por posições intermediárias, além de permitir que clubes que dificilmente estão na Libertadores (como, no caso do Brasil, Coritiba, Fluminense, Paraná, Bahia, Vitória...) tenham oportunidade de medir forças com rivais sul-americanos.

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Errar é humano, mas tem limite. Para reforçar o critério de ranking histórico, a Conmebol elaborou um de forma mais cuidadosa, dividido por países. E esse ranking é critério de desempate no caso de empate nos grupos brasileiros! Quer dizer, o Palmeiras, que está na Série B, já partiu com vantagem contra o Cruzeiro, líder isolado da Série A.

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Um ranking seria útil para definir quantas vagas cada país deveria ter, como já faz a Uefa para a Liga de Campeões e a Copa da Uefa. Daí eu gostaria de ver que exercício matemático eles fariam para mostrar que o Brasil merece quase o dobro de vagas da Argentina.

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A Sul-Americana já garante o direito de disputar a Recopa Sul-Americana com o campeão da Libertadores. Não vale muita coisa. O que seria importante é se sair o acordo de cruzar o campeão da Sul-Americana com o vencedor da Copa da Uefa.

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Não é só no Brasil de pontos corridos que há uma necessidade de se dar importância às posições intermediárias. Vários países já seguiram o exemplo argentino e declaram dois campeões ao ano como forma de manter o interesse do campeonato nacional por mais tempo. Já se vê casos também de competições que voltaram à fórmula de mata-mata.

Ubiratan Leal

Imagens: Conmebol, Futbol Peruano e A Gazeta Esportiva

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