Após passadas três rodadas da Liga Apertura mexicana, a artilharia é dividida pelo argentino César Delgado, do Cruz Azul, o mexicano Everaldo Begines, Irapuato, o paraguaio José Saturnino Cardozo, Toluca, e o chileno Raúl Muñoz, do Real San Luís. Na lista, o nome mais surpreendente é o último, já que o sanluisino é um recém-chegado à liga azteca e sequer é atacante. Ainda assim, o ex-meia colocolino já ganhou notoriedade. E não foi pelos 3 gol marcados, mas por uma entrevista dada a um jornal de Monterrey.
Muñoz disse ao Diário Milenio que gostaria de processar Augusto Pinochet. Segundo ele, o ex-ditador é um “personagem detestável” envolvido diretamente em casos de desrespeito aos direitos humanos e que ainda há muita coisa a ser descoberta. O meia conta que desde pequeno topou com pessoas que sofreram as conseqüências do golpe militar e que, por isso, viveu na própria carne as detenções e torturas ordenadas por Pinochet depois do golpe que derrubou Salvador Allende, em 1973. “Isso me influenciou muito, alimentou um ódio muito grande por esse homem.”
Pode parecer algo óbvia a intenção de enquadrar um ex-ditador suspeito de ordenar a morte de diversos opositores. Ainda assim, esse assunto é delicado no Chile, como um fantasma que persegue o país. Lá, ainda há uma considerável parcela da população que nutre simpatia pelo líder do governo militar. E, mesmo entre os que não o apóiam diretamente, há os que proferem frases como “ele matou gente, mas deixou muita coisa boa no país todo”. Claro que há um forte movimento que busca a punição dos responsáveis pelo sumiços de diversas pessoas durante o regime militar.
Assim, a declaração não foi vista como uma obviedade a mais dita por um futebolista. Houve um certo destaque na imprensa chilena, em alguns casos com desdém. De qualquer forma, o meia pode, no futuro, realmente fazer algo mais efetivo, já que iniciou o curso de Direito em seu país. Parou no meio desse ano, quando se transferiu para o México, mas pretende continuar depois de encerrar a carreira. Como já está com 28 anos, a volta às aulas não deve tardar muito.
É difícil saber se Raúl Muñoz realmente entrará na Justiça contra Pinochet, mas seria mais um caso em que golpe militar e futebol chileno se cruzam. Os dois momentos mais conhecidos ocorreram nos anos 70. Um, trágico: quando o estádio Nacional de Santiago (o mesmo que sediou a final da Copa de 62) foi utilizado para prender e torturar presos políticos.
O segundo, tragicômico. A tabela das Eliminatórias da Copa de 74 previa que o 3º país da América do Sul disputaria uma repescagem com uma seleção européia. Assim, chilenos e soviéticos ficaram de decidir a 16ª vaga na Copa da Alemanha Ocidental. Em Moscou, empate sem gols. Aí começaram os problemas. Semanas antes da partida de volta, marcada para o mesmo estádio Nacional de Santiago, ocorre o golpe militar que derrubou o presidente de esquerda Salvador Allende. Como protesto, a União Soviética não aparece no estádio. O Chile estava na Copa, mas ainda teve tempo de proporcionar uma das cenas mais bizarras da história do futebol. A equipe cisandina e o árbitro entraram devidamente uniformizados em campo. O jogo foi iniciado. Sem adversário em campo, os chilenos trocam passes até fazer um gol. Aí sim, o árbitro deu a vitória aos sul-americanos.
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Além de processar Pinochet, Muñoz disse que, como advogado, pretende defender os jogadores de futebol no Chile, “muitas vezes pisoteados”.
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Na mesma semana que disse que pretende processar Pinochet no futuro, o presidente chileno Ricardo Lagos anunciou um plano de direitos humanos que prevê o perdão de colaboradores do regime militar que derem informações sobre o paradeiro de desaparecidos. Os familiares das vítimas não gostaram da solução, muito amena.
Ubiratan Leal