O francês reluta porque não tem tanta certeza se quer voltar a cuidar de divisões amadoras. Mas os bascos insistem. Apenas depois de muita conversa é que Denoueix entende: depois de quase ser rebaixada, a Real Sociedad resolvera mudar e o queria como técnico da equipe principal. E aí Denoueix aceita o convite.
Saltemos no tempo, para 22 de junho de 2003. Última rodada da Liga Espanhola. A Real Sociedad goleia o Atlético de Madri por 3x0. No entanto, o Real Madrid vence o Athletic Bilbao por 3x1 e comemora mais um título. A Sociedad, apesar da vitória, não tira os 2 pontos de diferença para os madridistas e fica com o vice-campeonato.
Ainda assim, a torcida donostiarra comemora. Nada mais justo, pois nem ela, nem os jogadores, nem Roberto Olabe (diretor esportivo do clube basco), nem o próprio Denoueix, imaginavam que o resultado daqueles telefonemas seria tão positivo. Afinal, a equipe basca – cujas principais figuras eram o goleiro Westerveld, os meias De Pedro e Karpin e a dupla de ataque formada por Nihat e Kovacevic – tinha liderado mais da metade do Campeonato Espanhol e só perdera o título na última rodada para o Real Madrid de Zidane, Ronaldo, Figo, Raúl e Roberto Carlos. Mas, de onde veio esse técnico francês? Como ele transformara um clube que investiu “apenas” US$ 2 milhões em um concorrente sério ao título?
Raynald Denoueix trabalhou por anos nas categorias amadoras do Nantes, clube francês conhecido por revelar diversos jogadores. O treinador ficou 15 anos nos canarinhos franceses e ajudou revelar, entre outros, atletas como Deschamps, Desailly, Makelele, Loko e Kerembeu. Até que acabou no time principal. Com base nos garotos, o Nantes de Denoueix teve três temporadas regulares, até se tornar campeão francês em 2001. Foi o limite. A temporada seguinte foi um desastre surpreendente. O clube até passou pela primeira fase da Liga de Campeões, mas estava em último lugar no campeonato local. E Denoueix foi demitido ainda no meio da temporada.
O ato falho do treinador ao receber o telefonema da Real Sociedad se deu justamente pela larga experiência acumulada com os jovens. E foi por isso mesmo que os bascos o chamaram. Mas queriam que o francês ajudasse a lançar jogadores na equipe principal. A própria indicação de Roberto Olabe (responsável pelas categorias de base do clube) como diretor esportivo é outro sinal da política donostiarra.
Em San Sebastián, Denoueix montou um time disciplinado, sem estrelas, bastante aguerrido e objetivo. Deu poucos espetáculos em toda a temporada e passava a impressão de que não suportaria o ritmo de La Coruña e Real Madrid. Mas suportou. Meticuloso e discreto, o treinador aproveitou a pré-temporada de nove semanas para aperfeiçoar o preparo físico dos jogadores, inclusive fazendo jornada dupla de treinamento (prática pouco comum na Espanha). Com isso, tirou o melhor de atletas-chave, como o oportunismo e a força do ex-iugoslavo Kovacevic, a inteligência do turco Nihat, a rapidez de De Pedro e a experiência do russo Karpin.
Outra característica de Denoueix que se encaixou bem na realidade do clube basco é o fato de não implementar políticas de rodízio de jogadores. Diversos clubes europeus (principalmente os que têm muitas estrelas) usam esse procedimento, até como forma de contentar a todos os jogadores. Mas Denoueix definiu os 11 titulares e procurou não mudar apenas por exigências técnica, disciplinar ou física. Ótimo para um clube sem condições de ter um elenco com muito mais de 11 jogadores no mesmo nível.
Por contrato, o francês tem mais uma temporada em San Sebastián, com opção de renovar por mais outra. Bom sinal para os bascos, até porque, essa temporada, a Real Sociedad já tem um lugar na fase principal da Liga de Campeões. É a primeira vez em 21 anos que os donostiarras disputam a mais importante competição interclubes da Europa.
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Como jogador, Denoueix foi lateral-direito do Nantes durante 13 anos (toda sua carreira). Conquistou o Campeonato Francês em 1973 e 1977 e a Copa da França em 1979.
Ubiratan Leal
Imagens: Real Sociedad