O ciclo que sempre prevaleceu no futebol era que os títulos traziam torcedores, que traziam boas bilheterias, que traziam dinheiro, que traziam jogadores, que traziam títulos... No entanto, os torcedores estão sumidos das arquibancadas, principalmente em São Paulo. Com isso, o dinheiro passou a vir dos direitos de TV (que ainda prioriza, realmente, os clubes mais populares). Ainda assim, isso não é garantia de bons times ou de, pelo menos, saúde financeira.
Antes do êxodo de jogadores para o exterior, os grandes do Brasil (que, afinal, tinham mais dinheiro) dividiam entre si os craques. Como se reduziu o número de atletas acima da média no futebol nacional, os grandes começaram a usar diversos jogadores medianos. E, assim, a diferença técnica entre Flamengo e Fortaleza ou entre Grêmio e Atlético-PR, só para dar dois exemplos, diminuiu.
Outros itens começaram a fazer diferença, como a saúde financeira. Os grandes insistem em parecer grandes, tratando seus atletas “não tão bons” como estrelas. As despesas continuaram maiores, mas o resultado em campo não é mais proporcional a esse investimento. Claro, muitos se enrolaram em dívidas e tiveram de escolher entre gastar menos (o mais lógico) e não pagar as dívidas (o que a maioria fez). Os desempenho no campo minguou e os torcedores, logicamente, fugiram.
Essa política plena de equívocos, amadorismos e más intenções abriu espaço para que outros clubes surgissem com mais força. Pagando para um atleta mediano um salário condizente com o futebol por esse jogado, times melhor administrados cresceram. A política de pagar em dia apenas o que o jogador realmente merece, funciona. É importante salientar que a questão é apenas de faturamento x despesas, pois a corrupção interna típica das grandes equipes também existe nos menores.
Outro fenômeno decorrente da mudança de realidade é que essas equipes menores acabaram com mais condições de planejar em longo prazo e manter uma base. Com rombo nas contas, os principais clubes do país se desfazem de seus melhores jogadores rapidamente, como forma de tentar equilibrar o caixa. Com pouca exposição e um orçamento menos vulnerável, os pequenos e médios trabalham com mais tranqüilidade.
São Caetano x São Paulo
Isso pode parecer apenas uma análise de fatos quase que históricos e pouco palpáveis, mas já há situações práticas que ilustram essa mudança de relação entre grandes e pequenos. Dois exemplos são as idas do treinador Tite e do atacante Warley para o São Caetano.
Até a década de 90 do século passado, o São Paulo Futebol Clube era famoso pelo trato com seus profissionais, dando totais condições de trabalho e infra-estrutura de Primeiro Mundo. O tricolor paulista também tinha a fama de bom pagador. Era o sonho de mercado de qualquer técnico ou jogador de alto nível.
Pois bem. O São Paulo demitiu de forma bizarra o treinador Oswaldo de Oliveira. Para a vaga aberta, a diretoria do clube mirou para Tite, recém-saído do Grêmio. Negociações foram abertas e, quando parecia certa a ida do gaúcho para o Morumbi, o técnico recusa. Ao mesmo tempo, os tricolores também davam como certa a volta do atacante Warley, que esteve no Morumbi em 1999 e estava na italiana Udinese. E nada de Warley no São Paulo.
E onde estão Warley e Tite? No pequeno São Caetano. O primeiro apareceu subitamente no clube do ABC como reforço para o ataque azulino quando ainda se especulava sobre a possível volta ao São Paulo. Pouco depois, o treinador Nelsinho Baptista se demitiu seduzido por uma proposta japonesa. E Tite foi contratado rapidamente.
É provável (sobretudo no caso de Tite) que a proposta salarial azulina fosse mais baixa que a são-paulina. Mas o São Caetano tem fama de pagar em dia e deixar seus profissionais trabalharem com pouca pressão. Enquanto isso, as confusões políticas, aliadas ao fato de os salários começarem a atrasar, não ajudaram a causa tricolor.
Isso não significa, necessariamente, que os grandes se apequenarão e os pequenos se tornarão potências. Os times mais populares continuam com maiores receitas e salários, atraindo muitos jogadores, tendo uma margem de segurança ainda acentuada com relação aos clubes menores. Além disso, por terem maior exposição, são os preferidos dos que buscam uma boa transferência para a Europa (lembre-se, Ucrânia e Bulgária fazem parte da Europa). Por isso, clubes com uma dose de planejamento um pouco maior como Santos e Cruzeiro lideram o campeonato e o Inter faz uma campanha melhor do que se supunha.
Ainda assim, a desorganização interna pode, em uma situação limite, mediocrizar um clube. É o caso dos cariocas, vítimas de um processo de auto-destruição que já dura anos. Não seria absurdo apostar que, pelo menos, um dos grandes do Rio de Janeiro se transformará em um time mediano se nada mudar nos próximos 10 anos. E, em busca do vácuo que esse fenômeno pode criar no “mercado de torcedores”, clubes como o Coritiba já realizam ações para atrair adeptos fora do Paraná.
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O aumento da Libertadores (de 32 para 36 clubes) tende a reduzir ainda mais o nível técnico da competição, além de bagunçar o regulamento. No entanto, se a CBF for esperta, pode dar essa vaga ao 4º colocado do Brasileirão (na prática, o 5º, já que o Cruzeiro tem uma vaga pelo título da Copa do Brasil) e dar mais fôlego ao campeonato de pontos corridos.
Ubiratan Leal e Gilberto Meazza
Imagens: O Globo, Grêmio, Eurosoccer e Terra.