Esporte esquisito lá não é o que normalmente se conhece por esquisito, como rúgbi ou críquete, comuns em países que foram colônias britânicas (menos nos Estados Unidos, é claro, já que eles criaram versões bastardas conhecidas como “futebol americano” e “beisebol”, pois não podiam aceitar que sua cultura foi criada pelos ingleses). Sequer são os mais exóticos esportes gaélicos, como o hurling. Nããããããããão, eles tiveram que criar algo diferente: o Australian rules football ou, simplesmente, footy.
É um esporte estranho, fazendo jus à pátria onde surgiu. Parece uma mistura de futebol e rúgbi. Joga-se num campo circular gigantesco (o diâmetro deve dar o comprimento de uns dois campos de futebol), 18 para cada lado. O objetivo é chutar a bola entre dois postes que ficam nos extremos do círculo (existe “extremos do círculo”? Ah, dá para entender), marcando 6 pontos. Se errar o chute, há ainda chance de fazer um ponto, isso se o jogador acertar entre os postes “marginais” aos 2 centrais (são 4 postes). Ou pode-se ainda arremessar, passar correndo com a bola nas mãos, assoprar a bola (acho que deu pra pegar o espírito) entre os 2 postes mais extremos, o que vale 1 pontinho.
A partida é dividida em 4 tempos de 20 minutos, não contando tempo de bola parada. Porém, relógio não pára, o que faz os “quartos” ficarem com tempos como 28:53, 31:47 etc. Durante o “show do intervalo”, o campo é dividido em três campos menores e times de crianças representando os clubes que protagonizam a partida principal entram em campo e disputam três partidas simultâneas. Os menorzinhos ficam em um campo preparado com cones, os intermediários jogam mais próximos a um dos gols e os mais crescidinhos (e que conseguem, portanto, correr mais) ocupam a faixa central do círculo.
Há duas regras básicas: se um jogador chutar a bola para frente e outro (não importando o time) pegá-la antes que toque o solo, esse último pode avançar correndo ou tem direito a um chute sem que ninguém o atrapalhe. É dessa norma que nasce o pouco de estratégia do jogo. A outra regra é que, a cada 15 metros, a bola tem de tocar o chão, não interessa como. Ela pode quicar, ser abaixada e encostar na grama etc. De resto, só não vale dedada no olho e chute nos órgãos sexuais. Ah, e também não vale simplesmente jogar a bola com a mão: tem que dar um “soco” nela, então os passes ficam parecendo saques de vôlei.
Quando alguém deixa a bola cair, porque foi empurrado por um adversário, porque o vento mudou de direção ou porque é ruim mesmo, formam-se os famosos montinhos de gente popularizados pelo futebol americano. Aí vale tudo: chutar a bola para um lado, empurrar o adversário, distrair o outro enfiando a mão em orifícios corporais, puxar o cabelo etc, etc, etc, até que o juiz decida que deve parar a jogada e fazer o “bola ao alto”. Totalmente subjetivo. Até porque, se o juiz não quiser fazer nada, pode deixar a jogada seguir até todo mundo se matar, enquanto a torcida fica berrando “ball!, ball!”.
A bola ao alto parece um arremesso de críquete: o juiz joga a bola ao chão, com força, para que ela quica e suba. Quando a bola sai pela lateral (tem lateral em círculo?) um outro árbitro a arremessa de volta ao gramado, de costas.
Estranho o suficiente? Durante a partida, a “equipe técnica” do time tem duas participações: a primeira é composta por uns indivíduos correndo para lá e para cá com garrafinhas de água. A outra é protagonizada pelos auxiliares técnicos dos times, que, vestidos com roupas amarelo-limão fosforecentes, correm pelo gramado dando instruções para os jogadores. Detalhe: tudo isso enquanto a porrada come solta, quer dizer, enquanto a bola está rolando. Não que ela role muito bem, já que é uma bola ovalada, parecida com a de rúgbi.
No geral, o jogo parece um tanto quanto aleatório. Não parece existir estratégia, mesmo quando você observa o jogo e pensa “se o cara fizer isso e jogar a bola pra lá, fica um enorme espaço aberto pra avançar”. Nãããão, a tática nunca passa de pegar a bola e dar um chutão pra frente (o mais longe possível), ou pegar a bola e sair correndo. Mas, apesar de tudo, é um jogo legal de assistir. O problema é que é muito fácil marcar pontos – normalmente os jogos acabam com marcadores perto dos 100 para os dois times.
Fui assistir a um jogo no Telstra Dome, em Melbourne, capital do esporte e sede de 11 dos 16 times da liga. É o estádio mais novo da cidade, com capacidade para 50 mil pessoas sentadas (todos os lugares com cadeiras), totalmente coberto e com teto retrátil sobre o gramado. Há todo o tipo de serviço dentro do estádio: internet cafés, bares, restaurantes, lanchonetes, massagistas, salas para reunião, espaço para banquetes, o que der para imaginar. Dificilmente os jogos lotam, pois, mesmo após estarem esgotados os ingressos para as cadeiras, ainda são vendidos ingressos “standing room only” Aí, tem-se de achar algum lugar para assistir o jogo em pé, normalmente perto das lanchonetes. Os telões ajudam a ver as partes do gramado que ficam fora do campo de visão. E não dá pra ficar nas escadarias ou áreas de escape das áreas com cadeiras, pois há seguranças que conferem os ingressos.
O Telstra Dome não é o maior estádio da cidade, título que pertence ao Melbourne Cricket Ground, que recebe jogos da AFL (Australian Football League, a CBF do footy) durante o inverno e abrigou algumas partidas do torneio de futebol nas Olimpíadas de Sydney em 2000. Nele, cabem 72 mil pessoas (68 mil sentadas) e, se forem adicionados os lugares da área atualmente em reforma, a capacidade bate na casa dos 100 mil.
Fui assistir a um jogo de meio de campeonato, entre um time local não muito bem posicionado, o Essendon Bombers, e um time de Brisbane, terceiro colocado. O público anunciado chegou perto de 48 mil pessoas. Não tive problema nenhum para adquirir o ingresso na hora. Não houve filas e ainda tive desconto de estudante mostrando minha carteirinha da Isic (nada de horário e local marcado para estudantes adquirirem ingressos. Era só ir à bilheteria e comprar).
Os poucos vendedores que são vistos em volta do estádio são ligados à AFL, normalmente vendendo revistas da entidade. Não há filas para entrar no estádio. Basta passar o ingresso no leitor de código de barras e ir ao seu setor (no meu caso, o infame “standing room”). Não há revista, detector de metais, nada. E há toda a infra-estrutura de transporte disponível aos torcedores: desde uma estação de trem na porta do estádio a paradas de ônibus e bondes do outro lado da estação.
A torcida é formada pelos mais diferentes grupos: famílias inteiras, incluindo esposa e filhas (havia um grupo na nossa frente de 3 ou 4 meninas de não mais de 10 anos, acompanhadas somente da mãe), casais de namorados (que nem sempre ficam assistindo ao jogo e às vezes buscam refúgio nas lanchonetes entre os intervalos), as cheerleaders (perto dos gols, normalmente) e os torcedores de sempre, gritando pelo time. Assim como na Europa, é muito comum os torcedores portarem gorros e cachecóis dos times, principalmente no inverno (época em que ocorrem os jogos da AFL), quando as temperaturas em Melbourne se assemelham bastante às encontradas no sul do Brasil. Não é difícil encontrar vendedores pelas ruas da cidade com todo o tipo de parafernália dos times – ainda mais facilmente encontrados entre as barracas do Queen Victoria Market.
Ao final do jogo, os alto-falantes tocam o hino do time vencedor (no caso, o time local, Essendon Bombers) e a torcida canta junto. A saída do estádio flui da mesma forma que a entrada, apesar do volume de pessoas. É só pegar o bonde na porta do estádio e voltar pra casa.
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Além dos jogos que ocorrem durante toda a semana pela Austrália afora, os fãs têm a chance de acompanhar o campeonato da AFL pela televisão. Há dois canais especializados no esporte (o Fox Footy Channel, e o Fox Footy Extra), que transmitem jogos da liga 24 horas por dia, 7 dias por semana. Quer dizer, se você não entendeu alguma jogada na hora do jogo, vai ter bastantes oportunidades para rever a jogada durante a semana seguinte.
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A coisa é tão violenta que a ficha técnica do jogo, além de dar o marcador, o público presente, o nome do árbitro e, claro, a escalação dos times, informa quais jogadores saíram machucados.
Marcelo Vanzin
Imagens: World Stadiums, AFL e Essendon Bombers