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18/08/03

Variedades

Meu mundo é azul


Numa fria tarde de inverno de 1999, decidi ir ao hoje já conhecido estádio Anacleto Campanella para assistir in loco a minha primeira partida do Azulão no ABC. Não pormenorizando, vinha acompanhando pelo noticiário a evolução desta equipe do ABC que havia logrado 2 acessos no ano anterior, na Série A-3 do paulista e na Terceira Divisão do Brasileiro e algo aconteceu comigo que me despertou a vontade de ao menos checar o porquê disso.

Então, chamei um amigo que acompanha muito futebol como eu e ele topou prontamente a idéia. O jogo era entre São Caetano x Desportiva-ES, opa, melhor dizendo Ferroviária-ES. Naquele tempo, já começamos a descobrir os nossos futuros ídolos como Magrão, Márcio Griggio, Sílvio Luis, Dininho e Daniel, que formavam a espinha dorsal e eram nomes constantes na escalação até tempos mais recentes. Além de Márcio Griggio, mais conhecido por passagens em Juventus e Portugesa, o elenco tinha o lateral esquerdo Wágner, ex-Palmeiras. O Adhemar, canhão do Campanella, era reserva, onde ficou até a Copa João Havelange em 2000.

Mesmo fazendo ótima campanha - era o líder na fase de classificação com sobras - o futebol não foi um primor e o resultado, um magro 1x0. Enfim, eram mais 3 pontos. Após esse dia, comecei a voltar jogo a jogo, na seqüência formada por Ceará, ABC e Santa Cruz. Contra os pernambucanos, já valia pelo playoff melhor de 3, com o time de melhor campanha mandando os dois últimos jogos em casa. O Azulão tinha mais ou menos uns 10 pontos a frente do segundo colocado e se classificavam os 8 melhores e no caso, o oitavo seria a equipe pernambucana. Quem fizesse mais pontos estava classificado.

Primeiro jogo, vitória do clube nordestino no Arruda, 1x0. Estava de bom tamanho, a confiança era tanta que o estádio começava a esboçar melhor ocupação, um fato raro até então.

Segundo jogo, uma loucura, vitória construída com facilidade no primeiro tempo e apertada no final com o placar final de 4x3. No último jogo, com um empate já bastando, o Azulão é derrotado em casa pelo Santa Cruz. Uma tristeza e tanto, mas tínhamos a consciência que faltava camisa e não pegamos no pé da equipe, mesmo com a frustração e a certeza de que éramos infinitamente melhores. De qualquer forma, sabíamos que a equipe ia amadurecer e precisava de mais experiência.

No campeonato da série A-2 do Paulistão, uma alegria tomava conta e irradiava por todos os cantos da cidade, estávamos subindo para a Primeira Divisão. Era a confirmação da perspectiva que iríamos conquistar nosso espaço e se tornaríamos grandes.

Nesse momento, começa para valer a curta história do Azulão, o Pequeno Gigante. O time chega na final da Copa João Havelange. Mais frustração, porém, havia a certeza (pelo menos da minha parte) de que havíamos perdido para uma equipe superior. No ano seguinte, nova final de Brasileiro. E nova derrota, dessa feita diante do Atlético-PR. Já se começa a especular a síndrome do Azulão-amarelão e o trocadilho com o nome do treinador Jair Vicerni, ops, Picerni. Quando imaginava que nunca mais ganharíamos um campeonato expressivo, chega a decisão da Libertadores e justamente com o adversário que era o menos temido dos outros semifinalistas (América-MEX e Grêmio).

Era um dia chuvoso e a partida havia sido marcada para o tradicional estádio do Pacaembu. Mesmo dormindo pouco de domingo até quarta por causa do excesso de trabalho, decidi assistir o jogo, mesmo sabendo que os ingressos já estavam esgotados. Afinal, nada poderia me impedir de estar presente no momento que seria o mais glorioso de nossa história, além do otimismo, conseqüência natural da vitória conquistada no Estádio Defensores Del Chaco. Coisa que não é para qualquer um (não foi para Grêmio e Boca Juniors nas fases anteriores, por exemplo).

Para piorar, fiquei incumbido de transportar um protótipo a um cliente em Santana às 17h da tarde de ontem. Baita azar! E, como o trânsito estava ruim e tinha que passar pelo centro no caminho, resolvi dar uma parada bem cronometrada na Galeria do Rock e pegar o DVD novo do Judas Priest, Live in London.

Cheguei no Pacaembu por volta das 20h40. Procurei um estacionamento seguro. Só achei um estacionamento com vaga quase na avenida Paulista. Tive de descer à pé na chuva, me encharcando todo.

Segundo passo: tinha que encontrar um cambista que se dispusesse a negociar o ingresso a um preço mais razoável. Fiquei das 21hs até as 21h20 tentando convencer um que não queria vender por menos do que (acreditem!!!) R$ 40, quatro vezes mais que o valor original. O cara estava totalmente LOUCO, fora de si. Como ele viu que morreria com uns 5 ingressos na mão, vendeu-me por "apenas" R$ 20. Momento de entrar. Por ser em cima da hora, já não havia mais fila. Tudo corria às mil maravilhas, havia até um programa (simples, mas é alguma coisa) do jogo sendo distribuído, assim como já fora feito na semifinal contra o América-MEX. Fiquei no tobogã.

O estádio estava cheio. A bem da verdade, havia uns clarões no estádio, mas isso acontecia porque alguns torcedores ficavam em pé na escada ao invés de sentar na cadeira. Antes do jogo teve, ao som do hino da Conmebol (nem sabia que existia isso), a cerimônia de encerramento da Libertadores. Enquanto o auto-falante do estádio anunciava a escalação das equipes, entra, do nada, um microfone com alguém, do gramado, dando uma de "mestre de cerimônias" do evento. A atravessada foi ridícula, porque todos queriam celebrar os jogadores mencionados na escalação. O MC se tocou e parou de falar, deixando o locutor oficial do estádio continuar. Depois, ficou um silêncio. O MC entra e solta: "agora acho que vão me deixar falar". Imediatamente, o cara do estádio anuncia o trio de arbitragem, hahaha.

Em seguida, entram em campo 32 garotinhos, cada um com a bandeira de um time que disputou a Copa desse ano. O MC anunciava a entrada de cada um, errando o nome da metade. Por exemplo, o San Lorenzo (se lê "sán lorénço") da Argentina virou "São Lorenrro", como se o "z" tivesse som de "j" no espanhol.

Depois soltaram bexigas coloridas de gás, que voavam para o céu. Seria melhor se as bexigas vermelhas voassem também. Elas ficaram no chão. Imagino que tenham sido enchidas com ar normal, não hélio. Uns carinhas da organização ficaram jogando as bexigas para cima, na esperança de, enfim, voarem. Em vão, já que elas, imediatamente, caíam. Um outro apareceu com uma idéia mais brilhante: estourou todos os balões.

Fim das medidas protocolares, o MC tratou de "incendiar" a torcida. Ele falava: "o Pacaembu está lindo, Está todo azul, É o Pacaemzul!!!!!!". Argh!

Começa o jogo. Quase surtei nos primeiros 20 minutos. Com bolas raspando a trave. Mas eis que Ailton abre o marcador e explodo de alegria. Nem liguei para a expulsão de Picerni já que pensava que o pesadelo tinha acabado. Ledo engano. O Azulão se acovardou no segundo tempo e, jogando muito defensivamente, chamou o Olímpia que parecia uma tribo de índios guaranis furiosos e dispostos a matar ou morrer na defesa contra os homens brancos.

No início do 2º tempo, em cerca de 12 minutos, o Olímpia já tinha feito o que queria. Sério, nunca vi um time tão frouxo, tão covarde e tão apático em uma decisão histórica como essa. Ainda mais para um time como esse, que dificilmente terá outra oportunidade. Seria a máxima glória e eles botam tudo para perder.

Bem, virada por 2x1 e uma disputa por pênaltis. Já tinha jogado a toalha. Quando o cara do rádio disse que Marlon, Serginho e Daniel se encarregariam das cobranças, já sabia que não daria. Sem contar que o momento do Olímpia era melhor psicologicamente. Dito e feito. Deu Olimpia de maneira justa. E tem gente que ainda fala que tinha esquema para o Olimpia ganhar no ano do centenário (juro que ouvi isso na saída do Pacaembu). Piada.

Logo que saía, ainda de cabeça baixa, chovem telefonemas ao meu celular com uns amigos tirando sarro. Fui a chacota do dia. Mas relembrei a minha escolha pelo Azulão há 4 anos. Os mesmos amigos também deram risada da minha opção na época. Pois bem, serviu para dar gargalhadas às custas deles também e já recebi o reconhecimento pela minha visão em relação a esta equipe do ABC.

E mais: sou paulistano, mas sinto orgulho desta equipe, mesmo nos dias de hoje. É uma pena que nem na cidade ela tenha adeptos tão devotos como eu. Merecia se espalhar por todos os cantos deste país todo.

Gilberto Meazza

Imagens: Fan-Geht e El Colombiano

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