Entra competição, sai competição, e Luxemburgo continua estagnado. O pequeno país encravado entre Bélgica, França e Alemanha raramente consegue vitórias. E, quando as consegue, em geral é contra seleções tão pouco expressivas quanto a luxemburguesa. Mas, por um curto momento na história, quase como uma lenda, a seleção de Luxemburgo alçou vôos mais altos e assustou a Europa.
Foi na Eurocopa de 1964. Naquela época, a competição continental era disputada em jogos eliminatórios de ida-e-volta. Apenas quando se apurassem os 4 semifinalistas é que se partia para um país-sede. Como haviam 29 seleções inscritas, a Uefa deu passagem automática para três países, enquanto os outros 26 fariam 13 chaves. Nas oitavas-de-final, os 3 sorteados se juntariam aos 13 classificados.
Luxemburgo começou sua campanha mais histórica sem entrar em campo. Junto com União Soviética e Áustria, recebeu uma vaga direta na segunda etapa. Nas oitavas, os luxemburgueses enfrentaram o vencedor de Holanda e Suíça. Os laranjas venceram por 3 x 1 em casa e conseguiram empatar em um gol fora. Já prevendo a derrota e, talvez, em busca de maiores arrecadações, a federação de Luxemburgo pareceu jogar a toalha ao abdicar do direito de jogar em seu território. Assim, as duas partidas foram realizadas na Holanda.
Nada melhor para os holandeses. Na época, a equipe laranja não era forte e respeitado como hoje, mas era considerada a melhor seleção ainda amadora da Europa (excluindo as que estavam sob o falso amadorismo da cortina de ferro). Para reduzir ainda mais o risco de surpresa, a Holanda escalou sua formação principal para as partidas, prática pouco comum contra pequenos adversários regionais.
O primeiro jogo ocorreu em 11 de setembro de 1963, em Amsterdã. Passados apenas 5 minutos e Nuninga já colocara o time da casa na frente. A goleada estava anunciada. No entanto, May empatou para Luxemburgo meia hora depois. Descontentes com o resultado, os holandeses pressionaram em busca da vitória. Não funcionou. Luxemburgo arrancou um empate histórico na capital holandesa.
Mas havia ainda a partida de volta, um mês e meio depois, em Roterdã. A expectativa laranja era maior ainda para esse jogo, já que tinham como base a equipe do Feyenoord. Isso porque, em tese, o time da casa era Luxemburgo. A disputa começou quente, com Luxemburgo acertando o travessão adversário. A Holanda reagiu e também disparou uma bola na barra luxemburguesa. Aos 20 minutos, Dimmer surpreendee e colocou o time da “casa” (Luxemburgo) na frente. Empurrada pela torcida, a Holanda partiu para cima e empatou aos 35, com Kruiver.

Os holandeses insisitiam em busca da virada. Os luxemburgueses se seguraram graças à grande atuação do goleiro Nico Schmitt, que impediu que Keiser, Giezen e Kruiver desempatassem. A Holanda começou a entrar em desespero quando, em um lance isolado, Dimmer marcou o segundo de Luxemburgo. A pressão aumentou, principalmente depois que Schmitt deslocou o ombro (na época não havia substituições). Mesmo contundido, o goleiro luxemburguês permaneceu em campo e é fundamental na manutenção do placar.
Jogando fora de casa, Luxemburgo acabara de desclassificar a Holanda da Eurocopa. Mais surpreendente que isso, os luxemburgueses estavam entre as 8 melhores seleções da Europa. Para se ter uma idéia do feito, eles já estavam na frente de Inglaterra (que seria campeã mundial dois anos depois), Portugal (terceira colocada na Copa de 66), Tchecoslováquia (então a vice-campeã do mundo), Itália e Iugoslávia (quarta do mundo em 62).
O próximo adversário era a Dinamarca. Dessa vez, Luxemburgo resolveu mandar sua partida em território amigo, na cidade de Luxemburgo. E parecia que a medida havia dado certo, já que Pilot colocou o time da casa na frente logo no primeiro minuto. Madsen empatou para os escandinavos, mas Klein colocou os luxemburgueses novamente à frente. Quando o fantasma parecia atacar de novo, a Dinamarca virou, com mais dois gols de Madsen. Mas a seleção da casa voltou à carga e Klein selou o 3 x 3 final.
Em Copenhague, a Dinamarca não teria problemas para fazer valer sua superioridade. Em tese, já que Leonard colocou a surpresa luxemburguesa na frente logo no início do jogo. Ainda no primeiro tempo, Madsen empatou para os dinamarqueses e, com 25 do segundo tempo, virou. Perdendo por 2 x 1, Luxemburgo tentou um improvável empate. A partida ficou dura, com muitas faltas e jogadas ríspidas. Aos 39 minutos, Schmidt igualou o marcador.
Não bastava ter eliminado a Holanda fora de casa, o time de Luxemburgo arrastava a Dinamarca para uma partida-desempate. Para não haver favorecimentos, a Uefa escolheu um país neutro para abrigar a partida. Curiosamente, esse local foi a Holanda. Era 18 de dezembro de 1963 e nevava em Amsterdã. Foi um jogo difícil, mas, com um gol do inevitável Madsen, a Dinamarca ganhou por 1 x 0 e acabou com o sonho de Luxemburgo.

Eliminatórias da Euro 2004. Em 12 de outubro de 2002, a Dinamarca venceu Luxemburgo por 2 x 0. Não houve mais surpresas
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A fase final daquela Eurocopa foi realizada na Espanha. Em Barcelona, a Dinamarca não resistiu à maior força dos soviéticos e perdeu por 0 x 3. A disputa pelo terceiro lugar também foi na capital catalã. Com um time misto, os escandinavos empataram em um gol com a Hungria. Na prorrogação os húngaros fizeram mais dois gols.
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Dois anos depois, Luxemburgo ficou com Noruega, França e Iugoslávia no Grupo 3 das eliminatórias européias para a Copa de 66. O encanto já havia acabado e o pequeno país perdeu todos os 6 jogos.
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Luxemburgo já jogou 14 vezes com a Holanda. Perdeu 11, empatou 2 e venceu uma. Ou seja, tirando os confrontos das Eliminatórias da Euro 64, o máximo que os luxemburgueses conseguiram dos laranjas foi um empate.
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O histórico de Luxemburgo contra os dinamarqueses não é melhor. Foram 10 partidas, com 2 empates (ambos nas quartas-de-final da Euro 64) e 8 vitórias dos escandinavos.
Ubiratan Leal
Imagens: FLF e Uefa