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19/08/03

Cultura & Mídia

Loucos por futebol

Entre as atrações que a ESPN Brasil montou para a programação especial da Copa de 2002, uma chamou a atenção por buscar um público fiel, mas que nunca fora atendido devidamente. O "Loucos por Copa" atingia em cheio os fanáticos, aqueles que decoram dados, colecionam artigos e acordam às 3 da manhã para ver Rússia x Tunísia pelo Mundial. Deu tão certo que o programa virou permanente, mas com o novo nome de "Loucos por Futebol".

E não é difícil de entender o porquê do sucesso. É o caso clássico do bom e barato. Quatro jornalistas (Marcelo Duarte, Paulo Vinícius Coelho, Cláudio Arreguy e Roberto Assaf, esse último substituído recentemente por Roberto Porto), conhecedores de detalhes absurdamente pequenos do futebol, ficam na bancada discutindo curiosidades e o passado do esporte. Parece simples, mas cuidados de produção dão uma linha lógica, evitando o erro fácil de transformar o programa em uma descontrolada conversa de bar.

Um fator importantíssimo é a existência de uma pauta. Os assuntos levantados têm, de alguma forma, relevância no momento (é aniversário de algum acontecimento, por exemplo). Isso impede exibições aleatórias de conhecimento, como enunciar a escalação do Bonsucesso dos anos 30 como um dado puro, sem conexão com nada. Ainda é importante lembrar que São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro são representados na mesa. Assim, as curiosidades do Atlético-MG não são preteridas pelas do Palmeiras. Dessa maneira, pode-se dizer que o programa realmente informa, de um jeito diferente do noticiário cotidiano, mas informa.

Para ajudar nesse papel, a apresentadora Adriana Saldanha conduz a turma, evitando que certas discussões se prolonguem demais e chamando as reportagens. Como o programa foi crescendo (de provisório para permanente, depois, de quinzenal para semanal), cada vez há mais reportagens e quadros, muitas vezes falando sobre coisas que nem os próprios "loucos" sabiam. Sobram personagens interessantes, de pessoas diretamente envolvidas na história do esporte a torcedores fanáticos que se matam por uma coleção.

Como o formato privilegia a objetividade sem muita invencionice, é difícil apontar erros graves no programa. Um quadro que poderia ser repensado é o que uma personalidade faz uma pergunta para os "loucos" responderem. Como a pessoa escolhida nem sempre é um fanático, o que ela considera uma informação complexa pode ser algo trivial para os membros da mesa. Assim, muitas das questões são facilmente respondidas e acabam acrescentando pouco. Talvez fosse melhor selecionar perguntas enviadas pelos telespectadores.

Outro ponto que merece uma observação é a insistência grande na idéia da "loucura". Se pensarmos bem, é a mais pura verdade, todo mundo (na bancada e diante da TV) é louco para se apegar a esse tipo de informação. Além disso, o fato de os integrantes se definirem como "loucos" ajuda a descontrair a atração em muitos momentos, permitindo brincadeiras bobas, mas engraçadas. Ainda assim, o programa perde um pouco o ritmo em alguns momentos pela, digamos, interpretação do papel de loucos. Mas isso não é nada grave. Talvez eu seja o louco de ficar teorizando em cima de um programa que deu certo por ser simples e eficiente.

Ubiratan Leal

Imagem: ESPN Brasil

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