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6/08/03

Brazil

Foxtrot


Cruzeiro, 47 pontos. Santos, 44. São Paulo, 42. Coritiba, 39. A classificação ao final do turno já dá conta de como o primeiro Campeonato Brasileiro de pontos corridos não deve contar com muitos candidatos ao título. Pior que isso. Até agora, parece haver poucos sinais de que alguém incomodará Santos e, sobretudo, Cruzeiro. Mesmo o São Paulo pode ser visto com alguma desconfiança. A principal razão é que o torneio em turnos diretos valoriza o planejamento ou, ao menos, a estabilidade.

O amante de futebol mais atento já sabia disso desde o dia em que o formato do campeonato foi divulgado, ainda no começo do ano. É tão óbvio que me custa acreditar que dirigentes e, em alguns casos, treinadores também não tenham percebido esse fato. Deve ser má vontade ou incompetência. De qualquer forma, metade dos jogos já se foi e o Cruzeiro parece liderar com folgas. Se não na pontuação, nas perspectivas técnicas.

É planejamento. Os mineiros estão com Vanderlei Luxemburgo desde 2002, contataram diversos jogadores de bom nível e se mostraram cientes das exigências de um campeonato sem fase final. Assim, souberam repor prontamente os atletas que saíram (caso específico do atacante Deivid, já substituído por Alex Alves e Márcio) e não têm momentos de turbulência interna, como crises bobas ou atraso em salários. Além disso, usaram os três meses de campeonato estadual como forma de arredondar a equipe. Parece lógico, mas poucos fizeram isso. Por fim, claro, o Cruzeiro teve Alex. O meia paranaense foi decisivo na Copa do Brasil e vai pelo mesmo caminho no Brasileirão.

Mas o Cruzeiro também tem seus pontos de interrogação. Nem Luxemburgo, nem a diretoria, nem o próprio elenco sabem como manter a qualidade do futebol da equipe quando o meia Alex está ausente. A queda de desempenho dos azuis é brutal, o que nos faz perguntar como o Cruzeiro ficará se Alex tiver uma contusão grave ou se entrar em má fase. Outra dúvida a respeito dos mineiros é a forma física e técnica. Os cruzeirenses têm se mostrado acima da média desde o início do torneio e é importante considerar que dificilmente não haverá uma queda de rendimento, mesmo que seja temporária. Ainda assim, o Cruzeiro está com alguma folga e jogará em Minas contra os três seguidores mais próximos: Santos, São Paulo e Coritiba.

O maior candidato a aproveitar um deslize cruzeirense é o Santos. Apesar de ficar desfalcado por longos períodos e ter de priorizar outra competição (a Libertadores) por um bom tempo, os santistas conseguiram acompanhar os mineiros. E as campanhas só não foram idênticas porque, no confronto direto, a raposa foi melhor. A vantagem do time treinado por Leão é a de não jogar tanto em função de um jogador como o Cruzeiro depende de Alex. Prova disso é que o rendimento da equipe do litoral não caiu no período em que Diego, Robinho, Paulo Almeida e Alex estiveram na seleção sub-24 para a disputa da Copa Ouro. Mas ter de pegar o Cruzeiro no Mineirão pode pesar contra.

O terceiro time que conta com boas possibilidades é o São Paulo. E vale dizer que o tricolor paulista é um fenômeno nesse campeonato. Tirando o pagamento de salários em dia e o fato de ter mantido Kaká, Rogério Ceni e Luís Fabiano, o São Paulo fez uma força enorme para passar anonimamente no Brasileirão.

Primeiro, a diretoria desestabilizou o trabalho do treinador, até então Oswaldo de Oliveira. Depois, demitiu-o na concentração, na noite anterior a um jogo. Colocou um técnico provisório. Demorou para definir quem seria o substituto ideal de Oliveira. Não achou ninguém, mas, como os resultados do tal provisório eram bons, trataram de efetivá-lo. Além da confusão diretiva, a dupla Rojas-Milton Cruz mudou muito o estilo de jogo da equipe. O mistério de tudo isso é que deu certo. Após uma série de 7 vitórias em 8 jogos, o São Paulo estava em condições de assumir a liderança isolada. Mas, nas últimas três rodadas do turno, só fez um ponto. Seria muito ruim para o campeonato, mas talvez esteja acabando o gás são-paulino, já que o elenco não é tão completo quanto o cruzeirense e o santista.

E só. Há alguns outros clubes que se planejaram adequadamente, mantiveram a equipe desde o começo do ano e mostram consistência. É o caso de Coritiba, Internacional e Criciúma. Principalemtne dos dois primeiros, que lançaram bons jogadores das categorias amadoras e souberam explorar o estadual. No entanto, há uma limitação evidente dessas equipes, que podem até conseguir uma vaga para a Libertadores, mas não devem suportar o ritmo de Cruzeiro e Santos.

Um outro clube que merece uma análise à parte é o Corinthians. Levando em conta o time titular, o alvinegro até teria condições de encarar cruzeirenses e santistas. Tanto que empatou os confrontos diretos contra essas duas equipes. Mas o clube é um dos exemplos mais claros de como um planejamento equivocado é fatal em um torneio de pontos corridos.

É evidente que o Corinthians se planejou para 6 meses, tanto que teve grandes atuações nas finais do Campeonato Paulista (aliás, outro erro corintiano foi dar tanta importância ao Paulistão, tratá-lo como um fim, não como um meio). De acordo com os planos da diretoria e da comissão técnica, seria suficiente para ganhar a Libertadores. Não ganhou e a equipe, com vínculos contratuais frágeis, se desmanchou. Jogadores saíram e a diretoria se mostrou despreparada para recompor o elenco. Até trouxe reforços razoáveis, mas criou um período de vácuo em que o time perdeu vários pontos e se colocou fora (mais do que já estava) da briga direta. Pode até ser que André Luiz, Jamelli e Robert dêem certo. Mas vai ser muito duro descontar os 14 pontos de dianteira que o Cruzeiro já tem.

Quem também paga por ter se preparado para seis meses foi o Grêmio. Na realidade, o desastre gremista vem se desenhando desde o ano passado, quando havia sinais claros de desgaste e erros na preparação da equipe. No entanto, uma arrancada final no Brasileiro de 2002, com a classificação para a segunda fase e, posteriormente, para a Libertadores, mascarou os problemas. A equipe é fraca e está sem dinheiro, nem comando. Só acho que não cai porque os gremistas ainda estão melhores que alguns times. Como o Fluminense.

O tricolor carioca só não está entre os rebaixados porque teve algumas boas vitórias no meio do campeonato. No entanto, reuniu apenas um ponto nos últimos 7 jogos, somando 5 gols feitos e 19 sofridos. E o elenco do Flu não dá indicações otimistas para os torcedores. A Série B é um risco real. E o Botafogo mostra que não quer esperar o Fluminense lá embaixo. Na realidade, a situação tricolor é apenas uma versão piorada do que se passa nos outros dois cariocas.

O Flamengo até que teve um bom início, quando Nelsinho arrumou um pouco a equipe. Mas não dá para segurar erros administrativos por tanto tempo. O elenco é fraco e desmotivado e se sustenta em poucos jogadores realmente bons. O Vasco é mais ou menos a mesma coisa. A vantagem dos alvinegros é que o elenco ainda é um pouco mais forte. A desvantagem é que é muito mais instável. E o futebol do Rio de Janeiro afunda mais um pouquinho.

*

Hoje começa o returno. Se o torcedor e a mídia entenderam a lógica de um torneio de pontos corridos, vão saber dar a devida importância a Santos x Atlético-MG, Internacional x Coritiba e, principalmente, Cruzeiro x São Paulo e Fortaleza x Fluminense. Um palpite: não darão a importância devida. De qualquer maneira, se o São Paulo vencer no Mineirão, abre uma perspectiva muito interessante ao campeonato. Até porque os azuis de Minas perderiam a aura de invencíveis em casa.

*

A CBF também poderia dar uma esquentada no campeonato. Bastaria definir que colocações asseguram vagas na próxima Copa Sul-Americana. Se forem 6 clubes brasileiros (acho difícil e injusto que mantenham os 12 desse ano): estariam classificados, hoje, Internacional, Atlético-MG, Criciúma, Paraná, Corinthians e São Caetano. Guarani, Ponte Preta, Flamengo, Figueirense e Vasco estariam na briga. Cruzeiro, Santos, São Paulo e Coritiba estariam na Libertadores e os demais já se preocupam com o rebaixamento. Nada mal.

*

O Flamengo emprestou o lateral Alessandro ao Palmeiras em troca de Lopes. Depois, o rubro-negro repassou Lopes para o Fluminense e ficou com Fernando Diniz. Daí, Alessandro entrou na Justiça, se desvinculou do Flamengo e saiu do Palmeiras, com rumo a Kiev. Quer dizer, o Flamengo não deu nada para o Palmeiras, levou Lopes e o trocou por Fernando Diniz. Pela lógica, Lopes ou Fernando Diniz deveriam voltar ao Palmeiras e o Flamengo deveria ficar sem ninguém.

Ubiratan Leal

Imagens: César Trópia e Beto Magalhães / Cruzeiro, Rubens Chiri / São Paulo, Pelé.net e O Globo

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