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28/08/03

O mundo não é uma bola...

Como Iarley conquistou a torcida do Boca


São passados 25 minutos do segundo tempo e o Boca Juniors vence o Rosario Central por 2x0 em La Bombonera. Nesse instante, o autofalante do estádio anuncia: “cambio en Boca. Entra Donnet, sale Iarrrrrrrrrrrrrrrrrley”. Os cerca de 42 mil boquenses presentes no estádio aplaudem a atuação do brasileiro. Os 3 mil centralinos, claro, silenciaram. Foi a primeira (e, por enquanto, única) partida do meia cearense no mítico estádio da caixa de bombom. E foi aprovado pela exigente torcida local.

Mais que agradar aos torcedores no primeiro contato direto, Iarley ainda apagou a má impressão deixada na estréia. Jogando em La Plata contra o Gimnasia, o brasileiro mostrou muita disposição e se apresentou para o jogo, mas ficou perdido em campo. O problema é que Carlos Bianchi colocou a dupla Tevez e Guillermo Schelotto mais avançada, deixando praticamente toda a responsabilidade de armação com o ex-Paysandu. Não deu certo, pois o meia cearense ficou preso entre os volantes laplatenses. Com isso, os xeneizes tiveram dificuldades e ganharam apenas por 1x0, com um gol nos minutos finais.

Contra o Rosario Central, Bianchi resolveu mudar. Iarley ficaria mais pela direita, se aproveitando dos espaços criados pelo rápido e habilidoso Guillermo Schelotto. Para barrar os portenhos, centralinos destacaram seu defensor mais experiente – Horacio Carbonari – para marcar Tevez individualmente. Funcionou tanto que o atacante pouco apareceu no primeiro tempo. Com isso, todos os ataques do Boca nesse período passaram pelos pés do brasileiro. O cearense buscou espaços, foi para a esquerda, driblou, se desmarcou, rodou a bola e tentou abrir o jogo. Porém, contra uma defesa bem posicionada, não havia por onde entrar. Iarley estava bem, mas isolado.

O segundo tempo começou na mesma toada. A diferença é que Tevez já vencia a marcação canalla (como o Rosario Central é chamado, veja notas no final do texto) em alguns momentos. E foi em uma dessas oportunidades que o meia brasileiro mostrou que merecia a confiança da torcida. Tevez se livrou dos defensores e se enfiou pelo meio. Com um lançamento perfeito, Iarley deixou o atacante diante do goleiro, que acabou cometendo um pênalti (foto reproduzida da TV). Guillermo Schelotto converteu.

A partir daí, tudo mudou. A defesa centralina se abriu mais. Tevez trabalhou com mais tranqüilidade e Iarley conseguia criar com mais facilidade. Em alguns momentos, até foi para a esquerda, ocupando o espaço em tese de Cagna, para se aproximar de Tevez. E as jogadas foram saindo. Dos pés do brasileiro saíram também o segundo gol boquense, outro de Schelotto. Com a vitória garantida, o cearense pôde sair tranqüilo e aplaudido. Antes que perguntem porque, então, Iarley foi substituído, o próprio admite que não está em plena forma física.

O jogo seguinte não foi em La Bombonera, mas pode-se dizer que foi diante da torcida do Boca. Era o importante clássico portenho contra o Vélez Sarsfield. O clube azul e branco está com um time jovem e renovado, mas que se mostrou bom o suficiente para disputar o título do Torneo Clausura (realizado no primeiro semestre) até as últimas rodadas. Por isso, um bom resultado era importante para as duas equipes.

O time da casa foi melhor em todo primeiro tempo, dominando o meio-campo e não deixando o Boca usar a velocidade de seu trio de baixinhos (Iarley, Guillermo Schelotto e Tevez). Em uma falha de Burdisso, Obolo colocou o Vélez na frente.

No segundo tempo, Iarley voltou a ser importante. Usando sua habilidade para buscar espaços, foi desorganizando a defesa local. Um sinal disso é a quantidade de vezes que o meia esteve com a bola nos pés. Claro que o principal jogador boquense era o atacante Tevez, realmente acima da média. E foi esse quem empatou o jogo em uma jogada individual. A virada veio de forma mais simples e improvável (levando-se em conta que a média de altura do ataque do Boca é de 1,70 m): pelo alto. Em cobranças de falta, o zagueiro Schiavi fez dois gols de cabeça. Era a terceira vitória consecutiva do Boca e a segunda partida convincente de Iarley em Buenos Aires.

O desempenho contra Central e Vélez (duas equipes de respeito no cenário argentino) foi suficiente para que Iarley ganhasse a confiança dos xeneizes. Bianchi o elogia a todo momento e a torcida se sente tranqüila com o atual ocupante da camisa 10, usada por Maradona.

Antes de terminar, é importante lembrar que a história de Iarley e Boca não começou bem. E isso não tem nada a ver com o jogo contra o Gimnasia La Plata. Na Libertadores desse ano, o meia, então no Paysandu, fez o gol da vitória paraense em La Bombonera. O resultado quase desclassificou os argentinos, que reagiram e venceram 5 partidas em seqüência para levar o 5º título continental. Mas o gol e a atuação do meia naquela partida das oitavas-de-final fizeram a diretoria do clube portenho a buscá-lo em Belém. Parece que Iarley gosta do gramado do estádio em forma de caixa de bombom.

*

Iarley é o 22º brasileiro a atuar pelo Boca Juniors. Mas apenas 3 são lembrados entre os principais jogadores da história do clube: Orlando Peçanha, Domingos da Guia e Paulo Valentim.

*

Esse fim-de-semana Iarley tem mais uma oportunidade de ganhar pontos com a torcida xeneize. O Boca enfrenta em casa o Chacarita Juniors. Os tricolores do bairro de Chacarita lutam apenas para fugir do rebaixamento, mas, hoje, são vice-líderes do Torneo Apertura.

Ubiratan Leal

Imagens: Boca Juniors, Rosario Central e Olé

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