Que fique bem claro que o calendário europeu não é perfeito, tanto que motiva diversas discussões por lá. O número de jogos aumentou, as seleções nacionais perdem espaço e se coloca em dúvida, inclusive, a validade de campeonatos nacionais menos badalados, como o Escocês, o Holandês e o Belga. Mesmo assim, o poder econômico do futebol e os principais atletas estão lá.
Mas que não se interprete o uso do calendário como uma imposição imperialista. Na verdade, é apenas pensar racionalmente. Por exemplo, se estivéssemos em uma fase de pré-temporada agora, os clubes brasileiros não estariam se desfigurando no meio do campeonato. Os jogadores continuariam a migrar para a Europa, mas os efeitos desse êxodo seriam menos nocivos.
Inclusive, poderia haver, em um primeiro momento, um aumento nas transações entre os continentes, já que os jogadores brasileiros que fossem para lá estariam no mesmo estágio físico do resto do time europeu. Todos voltando de férias. Não haveria o risco de um jogador perder suas férias, ser obrigado a se adaptar em dias para estrear logo e fazer uma primeira temporada européia ruim. Pode não ser o sonho do torcedor brasileiro, mas os clubes certamente teriam mais tranqüilidade financeira dessa forma.
Além disso, verificando a folhinha européia antes de elaborarmos a nossa, seria possível marcar amistosos da seleção brasileira sem provocar choque com os grandes clubes europeus. A idéia é tão simples e traria resultados tão rápido que a própria Fifa se disse interessada na criação de um calendário mundial. É louvável, mas a causa não é tão nobre. Controlando melhor as datas do futebol europeu (por exemplo, a Fifa já disse que gostaria de ver campeonatos nacionais com apenas 16 clubes), a entidade mundial teria mais condições de emplacar seus torneios, principalmente os que envolvem seleções e o Mundial de Clubes.
Falando em Fifa, o presidente da CBF, Ricardo Teixeira, disse semana passada que o Brasil vai entrar em um processo de adaptação para compatibilizar o calendário. Já não era sem tempo. Mas dá para ter sérias dúvidas a respeito disso, até porque Teixeira não é, digamos, muito apegado a seus ideais. De qualquer forma, o dirigente brasileiro tenta uma aproximação da cúpula da Fifa, se mostrando simpático às idéias de Blatter de unificar o calendário. Se o Brasil aderir, a América do Sul vai junto, isso é evidente. Com o apoio de todo o continente, o suíço teria mais argumentos diante dos europeus.
No entanto, Teixeira terá de enfrentar problemas internos. As federações estaduais, já desprestigiadas, vão pedir por mais datas. Alguns clubes grandes que fazem uma força para se apequenarem também vão brigar. Aliás, já brigam. Afinal, se o desempenho em campo não justifica a presença do torcedor, que pelo menos haja muitos jogos para compensar. Inclusive, esse é o princípio dos regulamentos estapafúrdios que inventam: transformar qualquer joguinho em algo decisivo para atrair o público. E, como CBF, federações e clubes grandes têm relações cheias de lances obscuros, é difícil saber que cartas serão apresentadas nessas negociações. E o risco de o Brasil seguir com unidades de medidas próprias continua.
Ubiratan Leal
Imagens: Quero Brazil e L'Équipe