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29/08/03

Histórias

Bang-bang à italiana

Tem-se falado muito sobre a virada de mesa na Série B italiana. Mas não é de hoje que o futebol italiano acaba em confusão e tribunais. O caso mais notório é o do Milan, rebaixado em 1980 por envolvimento na máfia da loteria esportiva da Bota. Mas como esse site prefere falar de assuntos menos conhecidos, vamos contar uma história de ocorrida em 1974, em que 3 clubes se revezaram no tribunal por apenas uma vaga na Serie A da temporada seguinte.

Primeiro, é importante saber como foi o campeonato italiano de 1973-74. Com 43 pontos, a Lazio surpreende e conquista seu primeiro título. Na rabeira, Foggia (24 pontos), Sampdoria (20) e Genoa (17) são rebaixados. Com 25 pontos, o Verona escapara por pouco. Pelo menos em tese.

Verona_Garonzi.jpg

Acontece que, na 26ª rodada, os veroneses receberam o Napoli, então com alguma esperança de ser campeão. O time da casa venceu por 1x0. No entanto, um jornal napolitano noticiou que o presidente do Verona, Saverio Garonzi (foto), havia telefonado para o atacante brasileiro Sérgio Clérici – que defendera os gialloblù três temporadas antes – na concentração do clube celeste. Era o argumento que o Foggia precisava.

Com o campeonato já encerrado no campo, o clube da Puglia pediu uma investigação sobre o tal telefonema. A intenção era óbvia: tirar os dois pontos conquistados pelo Verona naquela partida e, assim, sair da zona de rebaixamento. O jogador napolitano confirmou que teve contato com o dirigente veronês, mas disse que era uma conversa de “velhos amigos”. Clérici contou que pretendia voltar ao Brasil quando encerrasse a carreira e Garonzi sabia disso. Assim, o dirigente teria oferecido ajuda caso o atacante quisesse abrir uma concessionária da Fiat aqui.

Foggia_logo.gif

Perguntado sobre a suposta conversa, Garonzi negou ter mantido contato com o brasileiro. Sem condições de sustentar sua posição, voltou atrás, mas alegou que não pretendia corromper o atacante. Mas a situação do Verona já estava comprometida. O tribunal considerou que um dirigente ligar para um jogador adversário horas antes de uma partida para fazer promessas financeiras não era uma atitude, digamos, apropriada. Assim, o clube do Vêneto perdeu os dois pontos, caindo para 23, um a menos que o agora salvo Foggia.

Porém, essa história ainda teria novos protagonistas. Na última rodada, Foggia e Milan haviam empatado sem gols. No relatório da partida, o árbitro Menicucci afirmou que um dirigente do Foggia o havia abordado antes do jogo e oferecido três relógios Rolex, com o conselho de escondê-los para que os objetos não fossem vistos pelo inspetor da federação. Mais um processo no tribunal esportivo.

Verona_logo.gif

O Foggia disse, sem ser convincente, que era apenas um gesto de cortesia. Um novo problema se instala. A punição ao Verona seria inócua sem o rebaixamento. No entanto, levar os vênetos para a Serie B favoreceria o Foggia, o que também não parecia adequado devido às circunstâncias.

Assim, o tribunal decide manter os resultados do campo, com Verona na Primeira Divisão e Foggia na segunda. A punição viria apenas na temporada seguinte, quando ambas equipes começariam com menos 3 pontos os respectivos torneios. Os dirigentes envolvidos nas tentativas de suborno foram afastados por 3 anos.

Aí aparece mais um descontente. A Sampdoria decide apelar da decisão alegando que o Verona deveria ser punido no mesmo torneio em que cometeu a irregularidade. Como o Foggia não poderia ser o beneficiado, a honra deveria caber ao clube de Gênova, penúltimo colocado no campeonato.

E assim foi. O Verona foi declarado último colocado e caiu. O Foggia perdeu 6 pontos, passando de 24 para 18 e também foi para a Serie B. A Samp com 20 unidades, se salvou.

Sampdoria_logo.gif
No final das contas, a Sampdoria ficou na Serie A

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Hoje, os três clubes envolvidos na confusão de 74 estão em situações diferentes. A Sampdoria viveu seu auge no final dos anos 80 e início dos 90, mas foi rebaixada em 99. Na última temporada, foi vice-campeã da Serie B e conseguiu voltar à primeira divisão. Deve estrear nesse fim-de-semana contra a Reggina.

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O Verona passou por grandes momentos em meados dos anos 80. Depois, revezou temporadas nas duas principais divisões do calcio. Na última, quase caiu para a Serie C1. Agora, é um dos 19 clubes da Segundona que ameaçam boicotar o campeonato se Genoa, Salernitana, Catania e Fiorentina não forem para a C1. Coincidentemente, tem uma partida em casa com o Napoli programada para esse domingo.

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Comandado pelo tcheco Zdenek Zeman, o Foggia montou uma equipe ofensiva que assustou a Itália no início dos anos 90. Depois, colecionou rebaixamentos até chegar à C2, a quarta divisão. Em 2003, foi campeão do grupo 3 e garantiu acesso à C1. Como não é um clube grande, não teve a regalia da Fiorentina, de pular uma divisão.

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Outra famosa decisão judicial no futebol italiano ocorreu na temporada 1989-90. Em Bérgamo, o Napoli perdeu da Atalanta a 4 rodadas do final do campeonato. Porém, a torcida local atirou uma moeda na cabeça do meia brasileiro Alemão, então no clube celeste. O tribunal deu os pontos da partida aos napolitanos. Dois pontos que deram o título ao time de Maradona na corrida contra o Milan.

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No noticiário sobre o imbróglio no calcio, vê-se um ar de satisfação por parte de alguns, certamente loucos para mostrar como desorganização no futebol não é exclusividade brasileira. É uma atitude mesquinha, de preferir que o mal se espalhe a buscar uma auto-avaliação.

Ubiratan Leal

Imagens: Hellastory (Saverio Garonzi), Conifoggia (Foggia), Wikipedia (Verona) e Sampdoria (Sampdoria)

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