Após decorrida quase metade das Eliminatórias da Eurocopa de 2004, o País de Gales lidera o grupo 9, com 12 pontos em 4 jogos, dois pontos a mais que a Itália (que já disputou cinco partidas). A equipe do técnico Mark Hughes e estrelada por Ryan Giggs é considerada a melhor que os galeses já montaram. A euforia é tão grande que a revista inglesa The Observer, inclusive, elegeu a vitória de Gales sobre a Itália como o melhor jogo da temporada 2002-03. O jogo foi disputado em Cardiff, no moderníssimo estádio Millennium, outro grande orgulho dos galeses.
O êxtase galês tem suas justificativas. Dentre os territórios que se abrigam nas ilhas Britânicas, o País de Gales foi sempre o que colecionou resultados futebolísticos mais modestos. A Escócia, desde o estabelecimento das regras do jogo, sempre rivalizou com a Inglaterra. Perdeu mais do que ganhou, mas teve seus bons momentos. Os irlandeses, por sua vez, priorizaram o desenvolvimento dos esportes gaélicos como forma de afirmar o nacionalismo. Ainda assim, disputaram várias Copas (três vezes a Irlanda e outro tanto a Irlanda do Norte). E os futebolistas galeses ficavam em segundo plano, até porque o país conta com certa tradição no rúgbi.
Para piorar a sensação de inferioridade, há seis clubes galeses que jogam pelo Campeonato Inglês. E a disparidade técnica é tão grande que Cardiff City, Swansea City, Wrexham e os amadores Colwyn Bay, Merthyr Tydfil e Newport estão radicados nas divisões inferiores, longe dos gloriosos Manchester United, Arsenal, Tottenham Hotspur e Liverpool.

Mas nem sempre foi assim. O Cardiff City já disputou 15 temporadas na Primeira Divisão inglesa, entre 22 e 29, 53 e 57 e 61 e 62. Nesse período, o melhor resultado se deu em 24, quando os bluebirds foram vice-campeões, perdendo apenas no goal average para o Huddersfield Town. A história poderia ser outra se o Cardiff não desperdiçasse um pênalti no empate em 0x0 com o Birmingham City na última rodada. Ainda assim, a campanha que mais marcou a história do maior clube da capital galesa foi a da Copa da Inglaterra de 1927.
Entrando na terceira fase, o City – como é conhecido – passou pelo Aston Villa, ganhando de 2 x 1 no Ninian Park, em Cardiff. Na fase seguinte, os galeses tiveram de ir à Inglaterra para bater o Darlington por 2 x 0. Pelas oitavas-de-final, nova viagem ao território vizinho, nova vitória por 2 x 0. Dessa vez, contra o Bolton Wanderers.
O drama começou nas quartas-de-final. Em Londres, Chelsea e Cardiff não saíram do 0 x 0. O jogo-desempate foi programado para o País de Gales. O City fez 2 x 0, mas os ingleses empataram e ainda perderam um pênalti. No final, os bluebirds fizeram o terceiro gol, em outro pênalti. A semifinal foi relativamente tranqüila, 2 x 0 sobre o Reading. Com essa vitória, os galeses iriam a Wembley se intrometer na final da chamada Copa da Inglaterra, a principal festa do futebol britânico. Seria a segunda vez em três anos. Em 1925, o Cardiff perdera por 1 x 0 para o Sheffield United.
Dificilmente eles poderiam ter um adversário mais inglês: o Arsenal. Os gunners estavam pela primeira vez na história disputando uma final da Copa e jogaram com Lewis, Parker, Kennedy, Baker, Butler, John, Hulme, Buchan, Brain, Blyth e Hoar. O técnico era o lendário Herbert Chapman, criador do esquema tático conhecido por WM. Os bluebirds alinharam com Farquharson; Nelson, Watson, Keenor, Sloan, Hardy, Curtis, Irving, Ferguson, Davies e McLachlan.

Os londrinos dominaram o primeiro tempo, mas o nervosismo de ambas as partes segurou o placar no 0x0. A segunda metade do jogo seguiu no mesmo tom, com domínio inglês e desorganização ofensiva galesa. Até que, aos 25 minutos, Ferguson chutou despretensiosamente. Lewis, goleiro do Arsenal (que coincidentemente defendia também a seleção de Gales), saltou para a fácil defesa. Mas, pressionado por Davies e Irving, deixou a bola escorregar em seu peito e entrar. E assim ficou até o fim: Cardiff City 1 x 0 Arsenal. Foi a primeira e, até hoje, única vez na história que os ingleses tiveram de ver uma festa galesa em sua competição mais tradicional. As comemorações seguiram por mais dois dias em Cardiff. Nada mais justo.
*
Mais dois dados sobre o Arsenal x Cardiff City de 1927. 1) Essa foi a primeira final da Copa da Inglaterra (depois renomeada de FA Cup) transmitida ao vivo pelo rádio. 2) A Escola de Jornalismo, Mídia e Estudos Culturais da Universidade de Cardiff elegeu a vitória do City na Copa da Inglaterra de 1927 o 6ª maior proeza do esporte galês, ficando atrás da campanha do país na Copa de 58, de dois feitos do atletismo e de outros dois do rúgbi.
*
Por vencer a Copa da Inglaterra, o Cardiff City foi disputar o Charity Shield, jogo que inaugura a temporada do futebol inglês e que, hoje, equivale à Supercopa da Inglaterra. Os galeses voltaram a ganhar. Dessa vez, o placar foi 2 x 1 contra os amadores do Corinthians, o mesmo que inspirou a fundação do homônimo paulistano e que, nos anos 20, ainda era forte.
*
Depois da gloriosa década de 20, o Cardiff entrou em um ciclo de promoções e rebaixamentos entre segunda, terceira e quarta divisões. Mesmo sem condições técnicas de disputar os títulos na Inglaterra, o clube ainda participava da Copa de Gales contra todas as equipes galesas. Nesse torneio, o City foi campeão em 22 oportunidades. Essas conquistas deram direito ao Cardiff de entrar na Recopa européia. Na competição continental, o melhor resultado dos galeses foi uma semifinal em 1967-68. O City foi desclassificado pelos alemães do Hamburgo após passar por Shamrock Rovers (Irlanda), NAC Breda (Holanda) e Torpedo Moscou (União Soviética).
*
Dedicamos esse texto ao passado do Cardiff City. Mas o presente não é ruim. Atualmente, os torcedores do City estão eufóricos. E o motivo não é apenas a boa fase da seleção de Gales. Terceiros colocados na Division Two inglesa (o equivalente à Terceira Divisão), os bluebirds disputaram a repescagem contra o tradicional Queen’s Park Rangers, antepenúltimo da Segundona. Os galeses venceram por 1 x 0, gol de ouro de Campbell. Agora, o principal clube do País de Gales se prepara para a Division One (na prática, a Segunda Divisão) da Inglaterra após 18 anos. A estréia será em 9 de agosto na casa do Rotherham United. Os principais destaques são o goleiro Neil Alexander (que já disputa suas primeiras partidas pela seleção escocesa), o experiente defensor australiano Antonio Vidmar, o inglês Andy Campbell e os galeses Gabbidon e Earnshaw.
*
O último clube galês a conseguir destaque nas ligas inglesas foi o Swansea City, que disputou a First Division (como isso foi antes da criação da Premier League, equivalia realmente à Primeira Divisão) em 81-82 e 82-83. Na primeira temporada, os swans ficaram com uma histórica 6ª colocação.
Ubiratan Leal
Imagens: Cardiff University (bandeira), High Quality Football Logos (distintivo Cardiff City) e The Football Association (Arsenal x Cardiff City)