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11/07/03

O mundo não é uma bola...

O dilema alemão


Em 6 de julho fez 3 anos que a Alemanha foi escolhida sede da Copa de 2006, batendo a concorrência sul-africana e inglesa. E, desde então, muitos já colocaram os alemães como candidatos ao título. Historica e tecnicamente, fazia sentido. Mas, depois de três anos e com um vice-campeonato mundial a mais no currículo, a Alemanha ainda não deu qualquer indicação sobre a equipe que tentará justificar esse favoritismo.

Essa falta de indentidade alemã, patente nos últimos anos, é reflexo de um processo que dura mais de 10 anos. A última grande geração da Alemanha jogou no início da década passada. Com Mathäus, Klinsmann, Völler, Brehme, Kohler e Hässler, os germânicos conquistaram a Copa da Itália com sobras. Com o time de 90 amadurecido e o aparecimento de algumas promessas, a Alemanha era apontada como a seleção mais forte para o Mundial de 94.

Em números, a campanha nem foi tão ruim (3 vitórias, 1 empate e 1 derrota), mas a baixa qualidade do jogo marcou o início de uma fase obscura do futebol alemão. Para a Euro 96, apostou-se na mistura de alguns campeões mundiais com representantes de uma nova geração, como Sammer, Möller, Babbel, Ziege e Scholl. Era pouco se comparado com a Alemanha que disputou a Copa da Itália, mas a política adotada, somada à fragilidade dos adversários, foi o suficiente para dar o 3º título continental ao país.

Porém, não era possível seguir dessa forma sem que os resultados em campo caíssem. A geração campeã européia não era talentosa como a anterior e, conseqüentemente, não teria condições de manter o nível de competitividade exigido pelos torcedores. Como (quase) todos os campeões de 90 já abandonaram o futebol (alguns, aliás, muito tarde), não havia nomes de peso no futebol alemão. Para piorar, os clubes passaram a se encher de jogadores estrangeiros. Até o poderoso Bayern de Munique chegou a ter sete não-alemães em campo durante partidas da Bundesliga. Não precisa ser um especialista em futebol para perceber que isso dificultou ainda mais o processo de revelação de novos atletas nacionais.

Com apresentações preocupantes na Euro 2000, em Eliminatórias e em amistosos, a Alemanha decidiu testar jovens como solução para a falta de grandes jogadores. Esse trabalho começou em agosto de 2000, quando o agora treinador Rudi Völler assumiu o comando da equipe. Houve uma grande reformulação na seleção, o que gerou situações inusitadas, como garotos de 18 anos que começaram a integrar o time principal e a convocação de jogadores da Segunda Divisão do país para amistosos. O objetivo era claro: descobrir uma base sólida e, como segunda etapa, descobrir um novo kaiser, um sucessor de Fritz Walter, Beckenbauer e Matthäus no comando da seleção.

A procura por um novo kaiser
O processo provocou uma série de resultados assustadores. No entanto, surgiram nomes interessantes, quase sempre vindos de times médios, já que a política dos grandes privilegia estrangeiros mais experientes em detrimento de trabalho de base.

O primeiro candidato a líder foi Kehl, garoto que apareceu no Freiburg e só foi contratado pelo Borussia Dortmund após uma disputa acirrada com o Bayern de Munique. Depois de um ano e meio no clube e amargando a reserva em vários jogos, percebeu-se que o meia não passava de um bom jogador. Talvez até tenha espaço na seleção, mas não seria ele quem conduziria os alemães ao quarto título mundial.

A segunda aposta foi o meia do Hertha Berlin, Sebastian Deisler. Habilidoso, rápido e com bom chute, foi comparado a Matthäus. Estava nos planos de Völler para a Copa de 2002, mas uma sequência de contusões durante um ano e meio provocou seu corte da lista de convocados para o torneio asiático. Hoje, já no Bayern de Munique, ainda sofre as conseqüências de tantos infortúnios. Sem recuperar seu melhor jogo, luta por uma vaga de titular no clube bávaro. Por ser novo, tem 23 anos, deve receber novas oportunidades.

A última tentativa – e a única que vem dando um certo resultado – é Michael Ballack (foto). No Mundial realizado na Coréia do Sul e no Japão, o meia do Bayern Munique carregou, com o goleiro Kahn, a Alemanha em boa parte da campanha até a final. Apesar de toda planificação famosa dos alemães, descobrir Ballack teve uma dose de sorte. Volante sem destaque de Kaiserslautern e Bayer Leverkusen por algumas temporadas, ele só chamou a atenção quando avançou um pouco mais e ganhou funções mais ofensivas. Assim, o senso defensivo se somou à solidez no jogo aéreo e à precisão de chutes de fora da área. Em 2002, Ballack conseguiu conduzir os alemães. Mas ainda não se sabe se poderá fazer o mesmo daqui três anos.

Com tantas incertezas a respeito da identidade de um novo kaiser, vale indagar: a seleção alemã precisa mesmo de um grande líder em campo para ter sucesso? Por melhor que tenham sido as prestações de Kahn e Ballack em 2002, não dá para dizer que um deles fazia o papel de comandante. O desenvolvimento de uma base uniforme e entrosada poderia ser a saída para os anfitriões da próxima Copa. No entanto, manter a estratégia atual de atirar para todo lado, testando diversos atletas diferentes em cada convocação, não permite a criação dessa base.

Esse é um dos principais dilemas dos alemães na preparação para o Mundial que sediarão. Até agora, os resultados não são bons. A campanha nas Eliminatórias da Euro 2004 não convence, a existência de um kaiser ainda é incerta (por enquanto é Ballack) e a equipe não tem um desenho definido. Ainda assim, o pensamento que se tinha a três anos, logo após a eleição da sede da Copa 2006, permanece: a Alemanha lutará pelo título. Nem os próprios alemães sabem como farão até lá, mas com certeza farão algo. Como em 2002, quando estavam desacreditados e chegaram à final.

Maurício Aires

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