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16/07/03

Brazil

Lições da Libertadores


É curioso como, quando fala de futebol, o brasileiro vai do êxtase total à mais profunda das depressões em segundos. Antes e durante a primeira fase da Libertadores, falava-se do domínio brasileiro na competição, de como os clubes dos países vizinhos estavam enfraquecidos, da possibilidade de uma semifinal 100% nacional e por aí vai. O pior é que boa parte dos autores de tais comentários não colocaram na Fox para ver os jogos da Libertadores que não envolviam clubes nacionais.

Bem, terminado o torneio, os brasileiros fracassaram. Não foi um insucesso retumbante como em 87, em que Guarani e São Paulo ficaram na primeira fase, atrás de Cobreloa e Colo Colo. Mas ficou longe do que esperavam. O Paysandu, que surpreendeu na primeira fase e na partida de ida das oitavas-de-final, não suportou a superioridade do Boca Juniors. O Corinthians foi humilhado pelo River Plate. Não pelo marcador (1x2 nos dois jogos), mas pelas circunstâncias. O Grêmio só foi convincente no confronto contra o Olímpia. Mesmo na primeira fase os gaúchos tiveram dificuldades. Só o Santos se salvou. Em parte.

A decepção brasileira – inflada por uma expectativa desproporcional – acabou gerando o efeito contrário. As atuações de River e Boca contra Corinthians e Santos foram marcantes a ponto de muitos considerarem os argentinos superiores, quase imbatíveis. Não é bem assim. É inegável que os dois times portenhos venceram os alvinegros paulistas com sobras, mas reduzir a análise a eventuais superioridades é raso e pode criar mitos.
Se os argentinos fossem tão superiores, o América de Cáli não passaria por Racing e River Plate (ganhando desse último por 4x1) e o Gimnasia y Esgrima de La Plata não ficaria na primeira fase em um grupo vencido pelo Cobreloa. Na verdade, os brasileiros perderam pela soberba. Uma soberba que só caía depois que cada a derrota já estava irreversivelmente configurada.

Autoconfiança exagerada
Quer dizer que Santos, Grêmio, Paysandu e Corinthians perderam porque jogaram de “salto alto” contra Boca Juniors, Medellín e River Plate? Não. A soberba que acometeu os brasileiros não resultou em menosprezo, mas em excesso de autoconfiança. É fácil perceber como isso realmente ocorreu.

Quando ganhou do Boca Juniors em La Bombonera, muitos já falavam que o Paysandu estava nas quartas-de-final, pois os argentinos iriam sentir o calor (da torcida e do clima belenense) do Mangueirão e ainda teriam de buscar o resultado. Por mais neutras que fossem as declarações dos atletas do clube paraense, é difícil acreditar que eles próprios não tivessem certeza da classificação. E o Boca ganhou de 4x2.

Nessa mesma etapa, o Corinthians se defendeu de forma exagerada no Monumental de Núñez e perdeu, mas quase logrou uma vitória sobre o River Plate. Era um discurso corrente que a superioridade técnica dos corintianos seria suficiente para reverter o resultado de Buenos Aires. E os millonarios brincaram no Morumbi, tamanho o domínio.

Da mesma forma, houve quem acreditasse que o Medellín tinha um estilo de jogo bom para atuar como visitante (o que seria a causa do empate em 2 gols com o Grêmio em Porto Alegre), mas que, como anfitrião, os colombianos teriam problemas e que, se repetissem as atuações contra o Olímpia pelas oitavas-de-final, os gaúchos passariam. Realmente, o Medellín só garantiu a classificação no último minuto, mas o otimismo brasileiro tinha contra-argumentos fáceis. Por exemplo, em casa, o Medellín havia vencido o Boca Juniors – também no último minuto – na primeira fase. Além disso, a campanha do Grêmio como visitante não era das melhores (1 vitória, 1 empate e 2 derrotas).

Apesar de chegar na final, o Santos não pode ser considerado isento dos pecados da autoconfiança. Contra Nacional de Montevidéu e Cruz Azul, os santistas só passaram porque eram absurdamente superiores tecnicamente e nem uma eventual soberba seria suficiente para tirá-los do caminho. Mas foi por pouco. Uma vitória nos pênaltis contra os uruguaios não é justificável depois de um empate no Centenário na partida de ida. Da mesma forma como as dificuldades em se impor diante da “máquina cimenteira” mexicana. Nas semifinais, finalmente, o Santos jogou como deveria. Não goleou o Medellín na Vila Belmiro por acidente e levou a sério a partida na Colômbia. Não por acaso ganhou os dois jogos.

Na final, houve respeito, a ponto de o Santos não buscar o jogo em Buenos Aires como faz normalmente. Ainda assim, e com um 0x2 nas costas, muitos confiavam que a técnica daria a terceira Libertadores aos santistas. Nada disso aconteceu. Nova vitória xeneize.

O que aconteceu?
Por que os argentinos sempre desmentiam a autoconfiança brasileira? Simples: conhecedores dessa soberba, armaram esquemas de jogo que quebrassem a base desse sentimento. Trocando passes pacientemente quando estavam com a bola, não davam oportunidade para os rivais mostrarem seu jogo supostamente superior. Quando defendiam, a marcação forte reduzia o espaço dos habilidosos adversários. Além disso, o jogo catimbado, mas leal, não confirmava o estereótipo de apelativos e violentos que os argentinos têm por aqui, o que irritava os brasileiros por diminuir ainda mais os argumentos de que a técnica está sempre por aqui.

Nossa autoconfiança era grande a ponto de os times não terem alternativas táticas para esses tipos de armadilhas. Não havia uma opção que previsse o combate à troca de passes com mais troca de passes ou que chamasse o adversário para desfigurar um pouco o desenho tático dele. Não havia nada disso. Assim, Corinthians, Paysandu e Santos ficaram presos na organização de River Plate e Boca Juniors.

Ponto para Carlos Bianchi e Manuel Pellegrini, os treinadores de Boca e River. Provaram que, se não são superiores aos brasileiros, foram mais espertos nos confrontos diretos na Libertadores. Estavam preparados taticamente para as diversas situações que uma partida apresenta e, assim, souberam aproveitar nossas deficiências e vencer com autoridade. Por isso, houve profissionais por aqui que já pensam em adotar o esquema de jogo de Bianchi ou em adotar o próprio Bianchi. Pode dar certo, mas é uma atitude precipitada. Mais importante que isso é mudar a mentalidade. É pensar em como anular o adversário e não apenas em se impor como se isso fosse algo natural. Dessa forma podemos voltar a bater os argentinos. Eles não são invencíveis.

Dizem que os jogadores posam para uma foto que nunca é publicada. Pois aí está o Paysandu que ganhou do Boca Juniors em La Bombonera

*

Mais duas lições que o Boca Juniors nos deu nessa Libertadores. A primeira é que, como já defende Tostão há tempos, brasileiro confunde técnica com habilidade. Técnica é uma junção de diversos fatores, como passe, marcação, senso tático, posicionamento em campo, arremates e, inclusive, habilidade. Temos centenas de jogadores habilidosos. Mas poucos técnicos.

*

A segunda lição foi dada uma semana depois da Libertadores. Precisando manter a qualidade do elenco para o torneio Apertura e, principalmente, o Mundial de Clubes, o Boca Juniors contratou o brasileiro Iarley do Paysandu e o colombiano Perea, do Medellín. E fica a pergunta: porque os times brasileiros raramente vão buscar reforços na América do Sul? Qualquer olheiro mais atento verá como há muitos jogadores na Colômbia, no Paraguai, no Chile ou no Uruguai que seriam extremamente úteis no Brasil. Argumentar que há casos de sul-americanos que não deram certo aqui é ignorar o fato de que muitos desses jogadores foram contratados com base em fitas de vídeo ou na lábia de um empresário bem relacionado. Quem adotar uma política séria de busca de atletas na América do Sul pode se colocar um pouco a frente dos rivais.

Ubiratan Leal

Imagens: Boca Juniors e Conmebol

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