O homem está com sua namorada. Eles conversam sobre banalidades, mas a cabeça dele está no futebol, mais precisamente no jogo que deu ao Arsenal o título inglês de 89. Percebendo seu companheiro meio aéreo, ela pergunta em que ele está pensando. Ele, claro, desconversa. Depois, admite (aos leitores, não a ela) ser obsessivo e que mente nessas situações para conseguir manter relacionamentos com pessoas normais. Por fim, uma confissão: “durante trechos alarmantemente grandes de um dia normal, sou um retardado”.
Essa passagem sintetiza o espírito do livro “Febre de Bola”, do inglês Nick Hornby. Na obra, o autor faz uma espécie de autobiografia futebolística, mostrando como o futebol o acompanhou desde criança e se entrelaçou com sua vida pessoal. Namoros, separação dos pais, escolha de uma nova casa, estudos, carreira, tudo andou junto ao Arsenal (ou, na época da faculdade, ao Cambridge United). Tudo com a (nem sempre compreendida) ironia inglesa.
O autor separou os capítulos em jogos, sempre em ordem cronológica. Assim, a história começa com o pai do pequeno Nick (em inglês isso ficaria Little Nicky, argh!) o levando a uma partida do Arsenal pela primeira vez. Com o passar do tempo, o próprio Hornby constata o desenvolvimento de uma dependência das visitas a Highbury (estádio do Arsenal), como um vício. Para piorar, ele se mostra consciente da imbecilidade de determinadas ações, o que provoca uma série de questionamentos a respeito de si próprio.
Nesses momentos, o autor usa toda a sua capacidade de discorrer sobre assuntos e temas cotidianos de forma agradável. Essa habilidade pode ser verificada em obras como “Alta Fidelidade”, “Um Grande Garoto” e na recente “Como Ser Legal”. Assim, a temática puramente inglesa do livro se torna facilmente absorvível por qualquer um. E esse ponto é de grande importância para os leitores que só pensam na parte esportiva: não precisa ser um ávido amante do futebol britânico. Pelo contrário.
O livro é mais que interessante, é didático. Por um motivo muito simples: mostra como a paixão pelo futebol é universal e atinge todos os homens de forma parecida. Por mostrar isso com a visão masculina, mas sensível como raramente se vê, uma pessoa indiferente ao futebol pode compreender melhor os fanáticos que o rodeiam (isso vale principalmente para namoradas e esposas). Para o amante do esporte, é possível se identificar em diversas passagens (como a citada no primeiro parágrafo), ver como a loucura dele é compartilhada por pessoas conhecidas. Afinal, “Alta Fidelidade” e “Um Grande Garoto” tiveram versões cinematográficas bem-sucedidas. Aliás, o próprio “Febre de Bola” virou filme.
O filme
Li “Febre de Bola” enquanto estava em um vôo para Los Angeles, onde faria uma conexão para Las Vegas para cobrir uma feira de negócios (podem acreditar, não é divertido como parece). Fiquei 12 horas sem tirar a cara daquelas páginas. Só parei, claro, para comer aquelas refeições sem gosto do avião. Ganhei uma dor no pescoço e minha vista ficou meio estranha de tanto olhar para o branco, mas me envolvi de tal forma que até tive uma certa simpatia pelo Arsenal e uma grande vontade de me tornar um daqueles torcedores que compram carnês e assistem a todos os jogos de seu time.
Isso já passou (um pouco), afinal, não sou louco a ponto de deixar minha mulher de lado por causa de futebol. Mas, quando soube que havia uma versão cinematográfica de “Febre de Bola”, me dei mais um objetivo: tinha de ver o tal filme. Por sorte, passou no Cinemax.
Não decepciona, mas deveria ter visto “Febre de Bola” antes de lê-lo, pois a comparação com o livro é injusta. Pode-se dizer que o longa-metragem dirigido por David Evans e estrelado por Colin Firth – mais conhecido pela participação em “O Diário de Bridget Jones” – foi apenas inspirado no livro. O roteiro para cinema usa uma parte do livro, mistura com outras passagens e dá um fundo de comédia romântica. Não fica ruim porque o próprio Hornby ficou a cargo da adaptação, tratando de preservar parte do espírito da versão original. Mesmo assim, perdeu-se um dos elementos mais interessantes da obra escrita, o desenvolvimento do fanatismo jogo a jogo desde a infância.
Com o sucesso editorial e cinematográfico de “Alta Fidelidade” e “Um Grande Garoto”, “Febre de Bola” ficou ofuscado. Mas fazer filme de uma obra de Nick Hornby está meio na moda. Assim, os estúdios de Hollywood não podiam deixar a primeira obra do escritor sem uma versão norte-americana. Ainda em fase de filmagem, o remake de “Febre de Bola” tem direção de Brian Robbins e será estrelado por Gwyneth Paltrow. Pelas informações divulgadas, deve ser uma versão do filme (e não do livro) inglês e usa o beisebol e o Boston Red Sox como tema. Não boto muita fé. Já imagino que o fanatismo vai ser ofuscado mais ainda pela tentativa de fazer uma comédia romântica. Sem contar que o Arsenal tem muito mais charme que as “Meias Vermelhas” de Boston.
Mais informações
O livro “Febre de Bola” foi publicado, no Brasil, pela Editora Rocco e tem 245 páginas. Quem se interessar pela versão original, em inglês, deve procurar por “Pitch Fever”.
O filme “Febre de Bola” não é distribuído no Brasil. Assim, há duas formas de vê-lo: comprar alguma versão importada (para quem tem vídeo-cassete ou aparelho de DVD compatível com o padrão do país de origem) de “Pitch Fever” ou torcer para o canal a cabo Cinemax recolocar a produção na sua grade de programação.
Ainda não há previsão da data de estréia da versão norte-americana.
Ubiratan Leal
Imagens: Livraria Siciliano e Scream & Yell