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21/07/03

Brazil

Êxodo não é gratuito


É difícil saber o que é mais desconcertante: o fato de alguns dos principais jogadores do Brasileirão saírem no meio do campeonato, a rapidez com que essas transações são anunciadas ou os clubes que estão provocando tal debandada. De qualquer forma, não é fácil entender a ida de Fábio Luciano para o Fenerbahçe da Turquia, de Liédson e Alessandro para o Dynamo Kyiv da Ucrânia, de Léo Lima para o CSKA Sófia da Bulgária e de Nádson para o Samsung da Coréia do Sul. Isso se considerarmos que Alex, Tinga e Gustavo Nery foram sondados e que, entre o momento que esse texto é escrito e o momento que você o lê, alguém já pode ter se transferido.

Bem, analisando de forma resumida, os clubes europeus e asiáticos têm dinheiro em moeda forte (dólar ou euro), originários de empresários que atuam como mecenas ou que usam dinheiro de origem suspeita no esporte. Como o Hemisfério Norte está se preparando para uma nova temporada, esse é o momento ideal de reforçar os elencos. Quer dizer, não é só na Europa e na Ásia que os clubes estão de folga, pois Argentina, México, Chile, Uruguai e outros tantos países já adequaram seus calendários aos europeus. O Brasil não. Por isso, se um clube estrangeiro for contratar um jogador brasileiro, terá de tirá-lo no meio do campeonato nacional. E é isso o que está acontecendo.

Porém, ainda é difícil entender como jogadores com perspectivas de atuar na seleção brasileira resolvem ir para países menos conhecidos, onde o risco de sumirem é muito maior e a possibilidade incompatibilidade cultural é enorme. Em defesa dos jogadores, é correto argumentar que, estando na Europa, o atleta pode se destacar em alguma Copa Européia e chamar a atenção de algum clube espanhol, italiano ou alemão.

No entanto, essa lógica só é aplicável a Liédson e Alessandro, já que o Dynamo Kyiv é um freqüentador assíduo da Liga dos Campeões, sempre com boas campanhas (por exemplo, foi semifinalista em 1999). para a próxima temporada, o campeão ucraniano já está garantido na terceira rodada classificatória, a última antes da fase em grupos. Se tudo der certo para os brasileiros, eles poderão repetir a trajetória de Shevchenko, Rebrov e Kaladze.

O problema é dar certo. Além da comida diferente, do frio intenso, da língua exótica e até do alfabeto (os ucranianos usam o cirílico), há o lado técnico. É ingênuo pensar que os europeus são "cintura-dura" e que qualquer brasileiro mais habilidoso se destaca com facilidade. Realmente, muitos brasileiros estão bem no Leste Europeu, mas poucos conseguiram transformar esse desempenho em contratos com mais cotados por aqui.

Dos clubes que compraram atletas brasileiros nas últimas semanas, outro com perspectivas européias é o CSKA Sófia. Como campeão búlgaro, assegurou um vaga na segunda rodada classificatória da Liga de Campeões. A esperança de Léo Lima (além do jovem zagueiro João Carlos, outro ex-Vasco, e do atacante Agnaldo) é que o clube alcance a fase de grupos. É importante lembrar que foi em uma Copa da Uefa que o Barcelona descobriu Stoichkov, então um atacante do próprio CSKA. Mas, sendo realista, são poucas as possibilidades. Os clubes búlgaros nunca conseguiram vaga nas fases mais importantes da Liga de Campeões. Ficam embolados com equipes de países como Romênia, Hungria, Polônia, Eslováquia e Bósnia. Até chegam perto, mas raramente confrontam os grandes do continente.

Resta Fábio Luciano e o Fenerbahçe. Nesse caso, o motivo da transferência é financeiro, a nãos er que o ex-corintiano tenha um pleno de médio ou longo prazo na Turquia, o que não parece ser o caso. A temporada passada foi das piores para o clube mais popular de Istambul. Mesmo com Rüstü, Ortega, Rebrov e Beschastnykh, os auri-azuis não se encontraram no torneio doméstico e terminaram na 6ª colocação, atrás de Besiktas, Galatasaray, Genclerbirligi, Gaziantepspor e Trabzonspor. Assim, ficaram de fora de qualquer competição continental. De qualquer forma, diminuíram as possibilidades de o zagueiro defender o Brasil nas Eliminatórias.

O caso de Nádson é o menos compreensível de todos. A chance de despontar no futebol sul-coreano é mínima, o que pode ser definitivo para suas pretensões na seleção brasileira. A não ser que o atacante já tenha planos de voltar ao basil em um ou dois anos. Nesse caso, ele teria juntado um dinheiro e não renunciaria à seleção. Mesmo assim, sair já pensando em voltar é o primeiro passo para não ter sucesso no exterior.

Essas cinco transferências são mais chamativas por provocarem desfalques nos clubes brasileiros no meio do campeonato, mas não é um fenômeno completamente novo. No último ano, saíram daqui os “russos” Robert (atacante, ex-Botafogo-SP), Alberto, Géder, Da Silva, Roni e Bóvio, os “sul-coreanos” Magno Alves, Itamar, Tuta, Dodô e Botti, os “japoneses” Ramón e Robert (meia, ex-Santos) e os "mexicanos" Kléber e Alex Mineiro. Além desses, há muitos outros atletas de relativo destaque que se espalharam pelo mundo.

Em alguns casos, é até correto pensar em assegurar bons contratos antes de abandonar a carreira. Nos outros, fica evidenciada como a falta de segurança e estabilidade esté influenciando o comportamento dos jogadores. Entre tentar uma carreira vitoriosa e ter a certeza salários vultosos no final do mês, muitos estão preferindo a segunda opção. Mesmo que, para isso, tenham de jogar por equipes pouco conhecidas.

Com a desvalorização do real, os clubes brasileiros raramente pagam salários de nível internacional. Aliás, ter insistido na política de contratos generosos é um dos motivos da crise do nosso futebol. Para piorar, poucas equipes pagam a cada 30 dias. Além dessa insegurança, há a influência de empresários nas negociações. Nem sempre o jogador tem escolha. Afinal, muitas vezes, quando percebe o que está acontecendo, a transferência já está acertada e nada mais pode ser feito.

Para reverter esse quadro, o futebol brasileiro deve ter um programa financeiro definido. Hoje, as decisões são feitas de forma pouco sistemática e clubes com boa saúde financeira contraem dívidas consideráveis com grande rapidez. Tudo falta de habilidade administrativa ou de honestidade. Com isso já seria possível manter os pagamentos em dia, o que faria um grande diferença. Talvez já seja o suficiente para que os atletas resolvam esperar mais um tempo para se transferirem apenas para os principais países da Europa.

A segunda ação é óbvia, mas não custa repetir (já que nada foi feito ainda): compatibilizar o calendário brasileiro com o europeu. Ninguém deixará de sair, mas, pelo menos, o fará ao final de cada temporada, evitando desmanches como o ocorrido com o Corinthians nas últimas duas semanas.

Ubiratan Leal

Imagens: Dynamo Kyiv, Fenerbahçe e Uefa

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