Durante a Copa das Confederações, a Fifa determinou que nenhum jogador poderá, em qualquer parte do mundo, tirar a camisa de seu clube para mostrar alguma mensagem por baixo. Essa é uma forma de preservar os patrocinadores que compram espaço nos uniformes e evitar desconforto ou choques culturais por manifestações políticas ou religiosas por parte dos atletas. Pelo menos essa é a versão oficial. Mas o Balípodo descobriu a verdadeira razão para tal proibição.
O uso de camisas com mensagens desmoralizava a indústria de materiais esportivos, afetando, conseqüentemente, a venda de seus produtos. O motivo é simples: para cobrar R$ 100 por uma camisa de futebol, os fabricantes alegam que investem em pesquisas para desenvolver tecidos leves e frescos, que expulsem o suor e dêem mais conforto ao jogador, que teria mais condições de soltar seu talento.
No entanto, isso vai por água abaixo quando todo mundo vê que alguns dos principais jogadores do mundo jogam com uma vestimenta básica de algodão, com uma estampa improvisada, em contato direto com o suor. “Por mais que tentemos, fica difícil explicar os benefícios advindos dos tecidos que empregamos em nossos produtos”, confirma o diretor técnico de uma empresa italiana de materiais esportivos. “O departamento financeiro colocava sempre em dúvida a necessidade de manter a verba para pesquisas em novos tecidos.”
Na realidade, os empresários do setor tentaram tirar proveito da situação em um primeiro momento. Alguns jogadores usaram camisas com mensagens fabricadas pelos seus patrocinadores pessoais. O tecido utilizado era o mesmo dos uniformes. Assim, a empresa poderia justificar o uso de tecidos caros nas vestimentas dos clubes.
Até houve uma tentativa de comercialização de tais vestimentas. Por ser um dos mercados que mais consome artigos futebolísticos, uma empresa do setor escolheu a Inglaterra como campo de treinamento. Em Liverpool, essa marca vendeu uniformes do Liverpool com o nome do centroavante Robbie Fowler nas costas e, por baixo, uma segunda camisa com inscrições a favor do Partido Trabalhista britânico. Foi um fracasso, pois o produto foi rejeitado pelos torcedores que não simpatizam com o primeiro-ministro Tony Blair.
O mesmo ocorreu em Portugal. O fornecedor de material esportivo do Sporting chegou a fabricar camisas do brasileiro Jardel com a inscrição “Será?” por baixo. O uniforme só não foi colocado nas lojas porque a direção da empresa de material esportivo considerou a frase boba e pouco carismática.
Mensagens religiosas
Com a dificuldade de inserção desse produto no mercado europeu, a Fifa já ficara alerta. A última experiência ocorreria no Brasil, país em que a cultura das mensagens nas camisas mais havia se solidificado. Mas foram problemas após problemas. O primeiro surgiu quando um dos maiores astros do País resolveu usar mensagens de apoio ao (agora ex-) Presidente da República. Nenhum fabricante quis vincular seu nome àquele político.
Mesmo assim, a maior dificuldade foi a concorrência entre os próprios fabricantes. Cada empresa quis comercializar camisas com as inscrições de seus principais patrocinados. No entanto, o registro das frases – meio de evitar a pirataria e o plágio – causou diversos impasses. Todos os fabricantes queriam usar as frases “Jesus Salva” e “Deus é fiel”. “Foi ridículo. Cada empresa de material esportivo tinha sob contrato pelo menos 15 jogadores que usavam camisas escritas ‘Jesus Salva’ sob o uniforme”, conta um dos advogados chamados para tentar resolver o litígio e que preferiu permanecer no anonimato.
As negociações foram difíceis porque pouca coisa sobrava além das duas frases de cunho religioso. Nenhum fabricante quis registrar mensagem a esposas de atletas. “E se o cara resolve se separar? O que fazemos com a camisa?”, pergunta o gerente de marketing de uma das empresas brasileiras envolvidas no caso. “Além disso, mensagens a esposas teriam pouca vendagem. Um consumidor que namorasse uma Joana nunca compraria uma camisa com mensagem de amor a uma Fernanda”, completa.
A fabricação de camisas com fotos da família dos jogadores não vingou pelo alto custo. Os advogados das empresas alertaram que quem comercializasse esse produto teria de pagar direito de imagem a todas as pessoas que aparecessem, incluindo bebês recém-nascidos.
De acordo com uma fonte bastante envolvida no caso, mas que não quis se identificar, a empresa norte-americana que mantém contrato com a CBF já tinha modelos prontos com inscrições por baixo. Tais peças seriam utilizadas na Copa do Mundo de 2002. Mas, como não se chegou a um acordo, tiveram de deixar a camisa de baixo lisa, sem nenhuma mensagem. Seria esse, e não uma tecnologia especial, o motivo de os jogadores brasileiros vestirem uniformes duplos no torneio realizado na Ásia. Segundo essa mesma fonte, diretores desse fabricante ficaram furiosos durante a final da Copa, quando Edmílson se confundiu com a dupla camisa e quando Cafu escreveu, em caneta hidrocor, uma mensagem sobre a camada principal do uniforme.
A situação vivida pela empresa que fabrica os uniformes do Brasil esgotou a paciência da Fifa. Percebendo que as mensagens em camisas não trariam lucro e ainda diminuíam a exposição de patrocinadores, a entidade resolveu banir tais peças dos vestuários dos atletas de futebol.
Ubiratan Leal
Obs.: Essa “reportagem” é uma obra de ficção e, portanto, não deve ser levada à sério. Nenhuma das pessoas, empresas, entidades ou associações citadas no texto foi efetivamente entrevistada ou consultada. Ah, e como ninguém aqui tem talento para ler mãos, i-ching, tarô, búzios, mapa astral ou bola de cristal, qualquer semelhança com a vida real foi uma grande coincidência.