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28/07/03

Variedades

Da Mooca para Osasco


Há alguns anos (gozado como essa história está cruzando a linha entre o “alguns anos atrás” e indo para o “muitos anos atrás”), o Fluminense estava disputando a segunda divisão do Brasileiro. A tabela previa um encontro com o Juventus em São Paulo e um amigo levantou a lebre de irmos ao jogo.

Para quem não sabe, o Juventus (famoso Moleque Travesso) é um dos times de futebol mais tradicionais de São Paulo, localizado no não menos tradicional bairro da Mooca, reduto italiano em São Paulo e local provável da origem de expressões paulistanas como ‘belo’, ‘mina’, ‘meu’ e sua variante ‘ôrra meu’. Enfim, um dos bairros mais bacanas da cidade (eu creio que tenha sido italiano em outra vida, não é possível).

Bem, após mais um momento de divagação, voltemos à história. O problema de se ver Juventus x Fluminense era que o jogo não aconteceria mais na Rua Javari, no simpático estádio do clube paulistano, e sim, em Osasco. O motivo era estranho: a falta de espaço no estádio dos juventinos (como se alguém esperasse que fosse muita gente ver aquele jogo).

Era para ser um problema, mas o Juventus disponibilizou dois ônibus para a torcida viajar pra Osasco. E lá fomos nós. Desnecessário dizer que a torcida do Moleque Travesso mal ocupa um ônibus (quanto mais dois), mas ambos fizeram a viagem, para impor o respeito que o time merece e proporcionar a devida pressão psicológica no adversário (que só tinha levado um ônibus, veja só).

O melhor dessa história reside nas viagens de ida e de volta. Lá, conhecemos o responsável pela Ju-Jovem, torcida uniformizada do Juventus, um cara chamado de Serjão (Sérgio Mangiullo). Um paulistano não levaria dois minutos de conversa para ter certeza que ele vinha da Mooca. O gestual, o jeito de falar, tudo nele transpirava suor italiano (confere o figura aí na foto do lado).

Da Rua Javari até Osasco, ele soltou uma série de discursos contra diretoria, contra jogador e contra técnico, com a autoridade de quem se mata pelo time. Foram criados alguns cantos de guerra para esquentar os ouvidos desses citados, outros de louvor à Mooca e alguns reclamando do fato de a partida ser realizada em Osasco. Porém, o mais legal é que todos eram de uma educação impressionante: sem palavrões, sem palavras chulas, como se eu estivesse em 1950, quando se ia ao estádio com chapéu e briga na torcida era algo que não existia.

Bom, um milhão de ‘nego’, ‘belo’, ‘ôrra’ depois, chegamos em Osasco. O estádio era municipal, mas tenho dúvidas se era o principal da cidade. Hmmmm, parecia mais a sede de um time amador, pois estava em obras, com partes inacabadas e improvisadas.

No lado de fora do estádio, os mooquenses se encontraram com a organizada do Flu. Cada juventino exalava tensão. Os grenás vinham de um lado da rua, enquanto os tricolores se aproximavam do outro. Parecia um duelo de faroeste. Mas, ao invés de tiros ou ofensas, as torcidas se abraçaram. As condições e a localização do estádio não passaram em branco na conversa. A tensão juventina diminuiu bastante, tanto que todos compraram seu ingresso com a torcida carioca. Inclusive eu.

O jogo passa normalmente, os cantos antijogadores e técnico foram substituídos por pura paixão ao grená juventino, o que foi muito bom de se ver. Fim de jogo, 1x0 para o Juventus. O Serjão, que teve comportamento exemplar durante o jogo, se altera de uma hora para outra, gritando para todos:

– VAMO EMBORA QUE OS CARAS DO FLUMINENSE QUEREM PEGAR A GENTE!!!!

O mais engraçado é que eu via a torcida do Fluminense saindo tranqüilamente pela saída oposta àquela onde estava nosso ônibus esperando. Tudo bem, em nome da diversão, entrei no clima de desespero. Eu vi velhinhos, crianças, todo mundo correndo loucamente para o ônibus, e ao chegar lá, o Serjão foi taxativo:

– TOCA AÍ, VAMO EMBORA LOGO!!!!

Nada é como nos filmes, e o motorista ainda esperou algumas pessoas entrarem no ônibus antes de dar partida e sair tranqüilamente (parecia estar acostumado com a paranóia da saída de jogo). Então, indo embora, o Serjão intervém mais uma vez:

– CADÊ O VICENTE?????? ELE NÃO ENTROU NESSE ÔNIBUS?????

Ele desce correndo, parte para o front e traz de volta um senhor idoso, que estava pacientemente esperando o ônibus encostar após o jogo. Eu não consegui agüentar, ri loucamente no fundo do ônibus, em um volume seguro, até porque não queria ser largado lá. A cena mais uma vez se repete, e entram no veículo uma menina e o pai dela.

Na volta, foi só passeio e mais discurso. Ainda falamos com um jornalista que cobre os jogos do time e que apresenta um programa do Juventus em uma rádio de São Paulo (não lembro do nome, desculpem-me). Dessa forma, fechamos o passeio nesse túnel do tempo que é o Clube Atlético Juventus...

*

O jogo Juventus x Fluminense ocorreu em 9 de agosto de 1998. Válido pela 2ª rodada da Série B, o Juventus ganhou por 1x0 em um gol irregular. A bola passou no meio das pernas do goleiro Ronaldo (ex-Corinthians), que ainda se recuperou e a pegou antes de cruzar a linha do gol. Mas não foi dessa forma que a equipe de arbitragem viu. Houve alguns incidentes com a torcida do Fluminense, que reclamou da diretoria e chegou a invadir o gramado para protestar. Nada contra os juventinos. Ao final daquele campeonato, tanto Fluminense quanto Juventus estavam rebaixados para a Série C. Como pode ser visto na foto acima, as obras no estádio Municipal José Liberatti, de Osasco, já foram concluídas. De qualquer forma, apenas 1.518 pessoas presenciaram aquele jogo. Na Rua Javari cabem cerca de 4 mil espectadores.

Rodrigo Leme

Imagens: Portal da Mooca e Prefeitura de Osasco

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