Tratando o assunto de forma bipolar, parece haver uma Guerra Fria no futebol mundial de acordo com o livro. É claro que essa não envolve soviéticos e, muito menos, norte-americanos. A disputa por espaço se daria entre sul-americanos e europeus. Segundo Yallop, os dirigentes do hemisfério sul seriam responsáveis por tramóias, subornos e compra de pessoas visando se estender no poder, ganhar dinheiro e, claro, manipular o resultado de Copas do Mundo.
Até aí, tudo bem. As denúncias contra Havelange e demais dirigentes do futebol brasileiro e sul-americano não são novas. Tanto que houve duas CPIs no Congresso se dedicando ao esporte. Mas o autor do livro não considera que a corrupção futebolística não é exclusividade latino-americana. Os europeus também “roubam o jogo”, como gosta de definir o jornalista inglês. Para citar um exemplo, as brigas na Justiça Européia entre atletas e dirigentes por direitos trabalhistas.
No entanto, Yallop passa reto pelos dirigentes do Velho Mundo, os considerando quase como cavalheiros que procuram o bem do jogo como nobres desportistas. Com isso, o leitor europeu do livro pode pensar que todas as agruras enfrentadas no futebol do continente são causadas por sul-americanos conspiratórios. Com certeza, o anti-clímax do livro é a tentativa do autor em convencer o leitor que um gol da Inglaterra, na final da Copa de 66, foi legítimo, o que faria parte de um argumento mais elaborado de que o Mundial organizado pelos ingleses foi ilibado. Até a Universidade de Oxford já usou recursos gráficos que atestaram que a bola não entrou no gol da Alemanha Ocidental.
Mas aí se vê como verdades e mentiras se camuflam mutuamente. Os equívocos acima citados parecem sérios a ponto de atingir a credibilidade da obra, mas podem passar incólumes por serem secundários. No que interessa – as ações de Havelange – foi feita uma investigação elogiável. O jornalista entrevistou diversas fontes brasileiras e européias. Deixa bem claro ao escrever em primeira pessoa que esteve no Brasil, em Zurique (sede da Fifa) e nas Copas do Mundo. Suas fontes vão desde José João, organizador de peladas públicas no Rio de Janeiro, até o próprio Havelange, passando pelo jornalista Juca Kfouri. A linha é basicamente cronológica, mas as viagens rápidas ao passado ou futuro do momento narrado mostram como os fatos se sucedem e acontecimentos têm reflexo por mais de 20 anos.
Talvez o melhor momento do livro seja a investigação a respeito da fortuna do dirigente brasileiro. De acordo com Havelange, seu dinheiro é resultado do sucesso na administração da Viação Cometa, de sua propriedade. Vasculhando o organograma da empresa, o autor revela que o ex-presidente da Fifa é apenas diretor de honra, com participação acionária pequena. Ou seja, a riqueza de Havelange não tem origem comprovada...
O inglês também aborda aspectos conhecidos, mas pouco esclarecidos, como o envolvimento do dirigente esportivo com as ditaduras militares da América Latina. É de senso comum que havia acordos nessa área, evidenciados pelas aparições públicas do brasileiro com Jorge Rafael Videla, ditador argentino no final dos anos 70. O que não se fala é que Havelange é dono de uma fábrica de armamentos fornecedora do Exército da Bolívia.
Outro ponto positivo do livro é a atualidade do tema. Escrito em 1998, o autor vai dos primórdios da carreira esportiva de Havelange, como jogador de pólo aquático nos anos 30, até a final da Copa da França, procurando respostas a respeito da crise convulsiva de Ronaldinho e da escalação na partida final.
Para compreender o comportamento dos dirigentes do futebol, o livro faz diversas incursões psicológicas nas personagens, sobretudo o dirigente brasileiro. “Para um homem nascido em um lar em que só o francês era falado, (...) o Rei-Sol (Havelange) é surpreendentemente hostil à Europa.” Ou ainda: “uma das características evidentes quando conversamos com o presidente da Fifa é sua obsessividade, que se manifesta na narração minuciosa e extravagante de suas realizações”. De acordo com o jornalista, a personalidade de Havelange é a de um perfeito político inescrupuloso, que não tem pudor em comprar eleitores em busca de poder e dinheiro. Até porque, segundo Yallop, o brasileiro nada mais é que um político inescrupuloso.
“Eles Roubaram o Jogo” e seu autor acabam se incluindo no contexto que retrata, de afirmações e negações que se misturam. Por isso, tão perigoso quanto não enxergar verdades entre tantas mentiras é não detectar mentiras no meio de verdades.
Mais informações
"Como Eles Roubaram o Jogo" foi publicado no Brasil pela editora Record e conta com 365 páginas. A versão original, em inglês, se chama "How They Stole the Game".
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Depois de publicado o livro, Yallop foi acusado de apropriar-se indevidamente de informações apuradas por outro jornalista. No caso, o que se refere ao passado de Havelange estaria em uma matéria de Roberto José Pereira publicada na Playboy brasileira em 1994. O problema se agrava pelo fato de o inglês não preservar os devidos créditos, tomando para si a glória da investigação.
Ubiratan Leal
Imagem: Livraria Siciliano