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O Tubo de Colostomia Eles curtiam o marasmo dos mortos. Juntavam entre colchas e assistiam a vida passar, com a calma melancólica dos zumbis. Aos domingos sentavam em frente à TV, e ficavam vendo talk shows. Pra eles não fazia muita diferença, viam a novela e fornicavam depois. A foda era fria, ela não sentia nada faz tempo. Ele subia em cima dela feito um animal, nunca a chupara. Uma vez ela pediu, ele ficou ofendido. "Só me faltava essa agora, não me casei com uma puta". Alzira resignou-se, como sempre fazia. Embora Marcos fosse um panaca, daqueles que nunca são notados aonde vão. Na escola foi de poucos amigos, quando um ia se afastando, devido à falta de um qualquer coisa no colega, deixava que fosse. "Melhor só do que mal acompanhado", dizia com desdém e uma patética melancolia. Alzira fora diferente, uma menina alegre. Nem bonita nem feia, mas tinha aquele brilho nos olhos, que só quem ainda não viveu tem, com exceção dos santos e políticos populistas. Contentava-se com pouco, um sorriso já a fazia feliz. Era a menina dos olhos de seu pai, que a amava, ou algo parecido. Casou cedo. Conheceu um Marquinho apalermado, com um pouco de dinheiro sobrando. Era caixa de banco, esperava uma promoção pra gerente. Ainda tinha vinte e três anos, o pai da moça se empolgou. "Esse Marcos é um rapaz de futuro". Resultado: casaram-se depois de dois meses. A promoção nunca saiu, disseram que precisavam de alguém mais dinâmico. E foram-se os anos, o brilho dos olhos de Alzira também. Ela se virava, fazia docinhos pra festas, pra complementar o orçamento apertado. No mais, vivia bem, a seu ver. Tinha tudo que queria, menos um filho. Marcos era estéril, ele sempre quis ter um filho. Culpava Alzira o tempo todo, "Porque fui casar com o diabo de uma mulher que não pode nem sequer ter um filho!" Ela fez o exame, era normal e não contou nada ao marido. Ficou sendo um segredo só dela, tinha pena do coitado. "Tantos dissabores". Como nunca veio o filho, compraram um cão. Era o bebê da casa, o husky chamado Afonso, nome do pai de Marcos. Mas a alegria durou pouco, Afonso morreu estraçalhado por um caminhão na frente dos dois, só ia fazer xixi. O caminhoneiro nem parou. Diante deles sobrou só um amontoado de carne, ficou lá, criou moscas, os vizinhos reclamaram. Ainda sobrara uma lágrima no olho de Alzira, em Marcos havia a preocupação com o jogo do Corinthians. Uma semana depois, tudo como antes. A TV continuava lá, o emprego no banco ia e Alzira continuava não sabendo como é o tal do orgasmo, que vira e mexe aparece nas revistas femininas. Veio o câncer, Alzira não ficou triste, resignou-se. Marcos disse que tudo correria bem, tinha um bom convênio médico. Não ia haver quimioterapia, o tumor era nos rins e logo seria operado. Enquanto isso, dores lancinantes cortavam o corpo de Alzira. No hospital, fez uma amiga. Uma hipocondríaca de sessenta anos, sempre aparecia por lá. Já tinha pego até Aids segundo suas contas, mas uma romaria a Aparecida livrou-a do mal que a perseguia. Alzira se empolgou com a história da velhinha, tinha sido curada de Aids. Pediu a Marcos que fosse em romaria pedir pra santa ter misericórdia de sua esposa. Ele disse que ia, não foi. Nunca acreditou nessas coisas. Mas no fundo estava preocupado com sua mulher, ele tinha medo de não conseguir arrumar outra. Jamais teve competência com as mulheres, poucas passaram em sua vida, e só havia se deitado com Alzira. Ela ficou seis meses no hospital, recuperando-se da cirurgia. Pelo que os médicos disseram, a cirurgia foi um sucesso. E ela voltou pra casa, para acabar de recuperar-se. Voltou sem poder andar, e sem poder cagar direito. Tinha uma sonda que lhe atravessava as carnes, na altura do baço. Ali ficava um compartimento, que tinha por função armazenar tudo que viesse do intestino. Era o tal do tubo de colostomia. O que era colostomia é que ninguém nunca perguntou. Marcos cuidava de Alzira, como se fosse sua avó doente. Mas em um mês ela já sabia se cuidar, lavava o compartimento com sua fezes, andava, foi até à feira. Ela tinha se acostumado com aquele buraco no seu baço, ele já estava cicatrizado, e Alzira simpatizou-se com o novo orifício do corpo. Lavava-o como lavava as genitálias, com cuidado e carinho. Contou até vantagem na vizinhança. "Meu tubinho de colostomia". E as mulheres assentiam diante de tamanha bizarrice. Um dia Marcos resolveu que já era hora de transar, Alzira resignou-se. Ele estava meio bêbado, tinha tomado umas duas cervejas e era fraco pra bebida. Já foi pulando em cima dela, e começando a copular, parecia um cão. Mas parou, quando outra idéia passou-lhe pela cabeça, iria experimentar aquele buraco novo. E lá foi ele, sem cuidado nenhum, já foi enfiando o pau naquele "buraquinho apertado". Alzira levantou o compartimento das fezes, e resignou-se. Entregou-se a ele, achou que ia morrer. Seu estômago chacoalhava, sentiu enjôo no início. E lá estava seu marido acertando todos seus órgãos com a pontaria de um arqueiro. Ela torcia pra que ficasse no estômago, estava se acostumando, de repente sentiu-lhe um calor subindo. Sua alma estava em chamas, como nunca estivera, sentia pequenas contrações. E quando Marcos estava perto de jorrar aonde nenhum esperma havia chegado antes, Alzira começou a gritar feito louca. "Vai! Vai! Me rasga inteirinha! Assim! E ia ficando cada vez mais voraz, sentia seus órgãos sibilantes e sua vagina encharcada, era isso. A vida prestava agora pra ela, Marcos urrava, sentia o verdadeiro calor humano. Por entre fluidos, fluidos e fluidos, a vida se fazia interessante. A luxúria tomou conta da vida dos dois. E a cama nunca mais fora à mesma, havia ali uma enorme mancha de sangue, era a castidade de Alzira que fora quebrada. Junto ao tédio que ficou impregnado no lençol, o suor dos dois, aquele sono, bocejos, abraços e finalmente um sonho em comum. Marcos levou café na cama da esposa, deu-lhe um beijo carinhoso, e foi trabalhar. Não conseguia parar de pensar na mulher, queria viver profundamente. Conhecera o amor, só agora, depois de vinte anos de casamento. Alzira, embora estivesse um pouco dolorida e enjoada, acordara imaginando que estava no paraíso, seu marido ali, dando-lhe morango na boca. Seus olhos voltaram a brilhar como antes, era feliz como nunca. No trabalho, Marcos era outro, tornou-se mais dinâmico, tarde demais para ser promovido. Isso já não importava. O dia era comprido demais, o ar condicionado lhe fazia mal, só queria chegar em casa, no seu lar. Ficava pensando como nunca tinha dado valor pra tudo que tinha, sua casa e sua mulher, sua família, enfim. E seguiram-se os dias, até a hora de visitar o médico. Ela já estava boa, o doutor iria tirar a sonda. Isso não podia acontecer, a vida voltaria a ser como era antes, uma sobrevida, uma ferida cheia de cicatrizes e etéreas nuvens de marasmo, asmos , calma e digestão sintética. Perimetralmente fadada à cansativa correria dos desocupados, sem ânimo nem credo, sustentando pilares que há muito ruíram de desilusão. Combinaram falar com o médico, iriam explicar a situação toda. "Ele entenderia". Não haveria problemas, tudo já havia sido pensado. Aquelas semanas ainda latejam na memória dos dois, agora eles tinham uma. Noites incansáveis e dias turbulentos. Finais de semana extravagantes, com direito a champanhe e lambidas no ego. Sucintos, e excitados, sábios dias em que o ópio jorrava do corpo. "Sabe o que é doutor" inquiriu a mulher. "É que a gente já se acostumou a fazer amor por aqui, não é my baby?" Dizia Marcos apaixonado. "Mas isso é um absurdo! O senhor podia ter matado sua esposa! Sem conversa, não ousem a fazer isso de novo, pode custar caro. Sexta compareçam aqui, pra mim dar um fim nesse compartimento. Vai ficar com uma cicatriz bem pequenininha" repreendia o médico, sério, mas querendo rir. Quando saíram de lá, já estava tudo resolvido, não mais voltariam. Aproveitariam em quanto fosse possível. Não disseram nada um para o outro, já estava decidido, sincronizadamente no juízo de ambos. A vida era curta, mas um fio de alegria verdadeira justificava as maiores mutilações. A vida percorreu, transcorreu, discorreu e corroeu aqueles dois. Nada mais era importante, as noites eram quentes, quentes, hot wonderfull nights. Súplicas de amor, saliva e mel. Tudo escorria, junto com o pus em Alzira. Ela limpava, cuidava. Cintilava um tanto dolorido fazer amor. Daí pra frente isso passou a fazer parte do pacote, hormônios, dias terríveis e gritos de tesão. Batiam os recordes, seus, por noites e noites e noites, fumando cigarros e cantando músicas melosas dos anos cinqüenta. Eram outros, os vizinhos estranharam. No trabalho de Marcos, todos notaram a nova pessoa que habitava o ambiente mofento e gelado, gelo de ar condicionado, cumulativo e impiedoso. Era mais bonito, as mulheres notavam, ele não notava. Erguia-se impaciente da cadeira, e trabalhava em pé, digitando números que não faziam sentido, fazia tudo certo, não percebia. Dava ois, tchaus e comprovantes de saque inconscientemente, sabia ao certo a hora, sem relógio. No almoço ligava pra casa, pra saber como se passava Alzira, que agora se dedicava a pintar singelas pastagens, corrompidas por másculos corcéis, que arreliavam e corriam como pássaros na água. Uma noite, como de praxe, se amavam. O sexo ficava cada vez mais ousado, indecente, repugnante sexo, que percorria o todo em nuances de vermelho e candor. Quando tudo começava, os cães vadios da vizinhança se inquietavam, tamanho era o berreiro e o cheiro de carniça fresca que despregava de Alzira. Latiam e latiam, de inveja, de dor, de medo, de nada na noite negra e nebulosa. E os amantes se comiam, cuspiam-se e pregavam-se nas paredes, cerceando tudo que não era os dois. Alzira gritou, não tinha mais lágrimas. Deixou-se ficar, em transe, ouvia um relógio. Ouvia sinos, formigava-lhe o peito, sentia algo lhe escorrer, frio e cortante, as costelas. Calafrios e jazia morta. Marcos nunca tivera lágrimas, não era agora que as teria. Lá estava ela, macabra, coberta de sangue, acordou coagulado, azedo. Deixou-se ficar na cama até mais tarde, aquele dia não sofreria as crueldades do ar condicionado. Quando abordado pela polícia, disse a verdade, resignou-se. E constatou o assentimento horrorizado de um bigodudo que fumava e fumava. Todo o conteúdo deste site pode ser publicado em outros veículos, desde que o autor seja consultado. |
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