O pivete
O pouco mais de
metro enganava: ele era a malandragem em pessoa. Corria pra cá,
pra lá, ciscava, chorava e voltava com o dinheiro. Era só
botar o moleque no colo, negociar um agrado ou senão dar um tapinha
na bunda que ele se inspirava. Inventava história, dizia que
a mãe estava doente, com câncer, veja só, com câncer.
Que esperteza!
Olha ele ali. Passou um pouco de terra na roupinha nojenta de suja e
fez cara de coitado.
"Tia, dá um trocado pra mim comprar uma roupa nova."
A velha fez cara de dó. Aquela ali não devia abrir a carteira
nem à força. Mas bastou aquele olhar inocente que ela
se lembrou que era gente, ou que, pelo menos, havia sido algum dia.
"Mãe, eu quero aquele carro ali", cobrava sempre.
"Mas você é muito novo pra dirigir, por que você
não quer carrinho feito as outras crianças?"
"Porque não, mãe. Se existe carrão assim desse
jeito, com estrelinha na frente, pra quê eu vou querer de brinquedo?",
já arriscava.
Certo dia, voltou com uma fortuna no bolso.
"Mas o que é isso menino, andou roubando?"
"Quem rouba é trouxa, mãe. Eu pedi. A dona deu pra
mim", rebateu bravo.
"Mas como assim, pediu? Se fosse tão fácil assim
todo mundo tava rico."
"É isso aí, mãe, é só pedir.
Eu disse pra ela que você ia me matar, se eu não chegasse
com o dinheiro do gás. Aí ela deu tudo que tinha na bolsa",
explicava, entediado.
Ele só tinha 7 anos, sustentava a casa e fazia a alegria daquela
mãe. Mas não era só a mãe que ele impressionava.
"Como vai o pequeno gênio", perguntava o velhinho da
banca de jornal, sempre presenteando o moleque com um gibi da Turma
da Mônica.
Aprendera a ler sozinho, lendo gibi. Se parecia com o Cascão,
mas sonhava ser Cebolinha, um dia, e com geladeira de Magali!
"Digníssimo senhor, o senhor não teria algum dinheiro
para ajudar lá em casa", pediu certa vez a um homem não
tão digníssimo assim, sabendo da força do digníssimo
que pronunciara: tinha aprendido a dizer aquilo na TV.
Foi tiro e queda. A maioria dos homens ficava espantado com o "digníssimo"
na boca do menino pobre, maltrapilho, e davam-lhe dinheiro, comida.
Uma vez um granfino deu uma caneta tããão bonita
pra ele por causa disso... Disse que ele podia ser até doutor,
se estudasse.
Percebera cedo o valor das palavras, dos gestos: era um ator. Não,
devia ser advogado!, pensava a mãe, sonhadora, menos pelo futuro
do filho e mais por conveniência.
"Digníssimo senhor meretíssimo, tenho de apelar para
o bom coração do júri...", sonhava a mulher,
seu filho advogado, doutor. Iria lhe dar vestidos e ela poderia tomar
chá com uísque a tarde toda, feito mulher rica, com a
Chiquinha e a Dinda. Lógico que teria de dar uma banho de loja
nas duas para que elas combinassem com sua linda casa. E de noitinha
chegaria o filho, cabelo engomado de gel, pastinha debaixo do braço
e com aquela lábia que lhe tirara da miséria.
"Mãe, quero aquele carro novo que lançaram, liga
pra concessionária e manda trazer aqui em casa amanhã
mesmo", ouvia da boca do filho já adulto, entre um gole
de cachaça e uma baforada no cigarro forte, sem filtro, "que
era pra durar mais".
Mas não adiantaria de nada aquela inteligência toda pra
ficar ali, debaixo do viaduto, pedindo a quem fosse barrado pelo trânsito,
lhe dissera certa vez uma assistente social querendo levar Pedrinho
para um orfanato. A mulher sumiu com o filho por uns dias.
"O meu Pedrinho ninguém rouba", explicava para as colegas
de rua, com o moleque nos braços e um cigarro entre os dedos.
Não! Ela não explorava o filho, não! Que vivessem
a vida dela e veriam o sacrifício que era criar um filho assim,
solteira, ainda mais depois dos trinta, abatida, por que não
dizer feia? Nem um homem daria abrigo a ela e ao pequeno. Mas pra orfanato
é que ele não ia!
Vinha pensando em parar de pedir, de viver as custas do moleque, como
dissera a tal da assistente social. Afinal, Pedrinho era um gênio,
podia fazer coisa melhor. Talvez devesse virar ator. Mas, feinho que
era, seria difícil ter papel em novela das 8. Mas tinha carisma...
Uma senhora lhe dava dinheiro todos os dias. Simpatizara com o moleque.
E ela, a mãe, ficava ali, ciumenta, olhando a madame que, com
certeza, não tivera os próprios rebentos. Olhando a madame
que, por trás de toda a riqueza, conseguia ser ainda mais pobre
que ela, até.
"Ela disse que quer ser minha nova mãe, mãe"
Era só o que faltava... Deixa aquela mulher aparecer aqui de
novo e ela vai ver a boa sova que vou lhe dar, pensava a mulher, medrosa,
temendo que lhe desfizessem os sonhos no ar, feito aquela fumaça
de cigarro, que simplesmente acabava de uma hora para outra.
O pior é que o moleque ficava sonhando ser rico e ela não
podia fazer nada. No barraco era difícil conseguir um banho,
a comida era sobra do que ele pedira durante o dia no farol. De riqueza,
só a televisão que ganhara de seu macho, antes do safado
botar o pé no mundo.
"Mãe, minha outra mãe é tão bonita,
por que você não fica que nem ela?", ouvia do filho,
tremendo de raiva e procurando o maço de cigarros. "Cadê
essa merda de cigarro!"
Já pensara em se matar, mas no fundo até que gostava da
vida. Podia ser pior, a Chiquinha e a Dinda nem sequer um Pedrinho tinham
na vida. No lugar dele, cinco, seis crianças feias e burras,
que, certamente, cairiam na marginalidade. Não o Pedrinho. Ficara
imaginando de onde saíra tanta inteligência, sabia fazer
conta e tudo o mais... Do pai não era. Um pedreiro feio, aliás,
assistente de pedreiro e feio. Dela também não havia sido.
Só sabia escrever seu nome, enquanto o filho, que mal chegara
a idade de freqüentar a escola, já se esbaldava lendo os
gibis que ganhava do velho da banca.
"Mãe, a minha outra mãe disse que a gente podia morar
junto. Eu, você e ela."
Só faltava essa, agora essa mulher para infernizar-lhe a vida.
Certo dia Pedrinho não passava de uma lembrança. Tudo
culpa dela, a desgraçada!
"Meu filho advogado! Meu orgulho!", chorava, olhando as coisas
do filho jogadas pelos cantos, seus gibis...
"Madame, seu Pedro chegou"
"O que você está esperando, sua incompetente. Sirva
o doutor Pedro!"
"Oi, mãe", ouvia a mulher. Mas era a voz de criança,
do Pedrinho menino que saia da boca do homenzarrão bonito, importante,
de terno, que lhe dera aquela casa "e a vida de rainha."
"Mãe, eu nunca vou te perdoar", explicava o agora Doutor
Pedro, que continuava: "Porque você me vendeu, vendeu! Sua
vadia desgraçada!"
Não! Não! Não! E chorou e gritou e bebeu o resto
da cachaça, antes de jogar a garrafa com tudo na parede do barraco.
O vidro não quebrou, caiu no chão entre a privada e o
sofá da sala, que um dia fora a cama de Pedrinho. A casa ainda
exalava o cheiro dele.
Ainda via a cara da mulher. Já era meio velha. Porém,
bonita. Tinha uma infelicidade nos olhos, maior do que podia compreender.
Talvez maior do que a dela, de mãe roubada. Talvez ainda pudesse
ter outro filho, pensou. Apertou o maço de dinheiro entre as
mãos, aquele maldito dinheiro!
"Eu vou cuidar bem dele, vai ser criado feito um príncipe",
lhe dizia a madame de olhos tristes, olhos de impaciência naquela
hora.
Como cuidaria de uma criança com toda aquela tristeza nos olhos?,
divagava entre uma lágrima e um gole, entre um gole e uma lágrima.
"Meritíssimo, eu peço o encerramento do caso, já
que fica claro que a ré é culpada!"
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